Postagens

Uma carta de Dmitri Likhatchôv

Imagem
Por Joaquim Serra   Dmitri Likhatchôv (1906-1999) foi um filólogo soviético, autor de diversos estudos sobre cultura e literatura russa. Em sua biografia Pensamentos sobre a vida: memórias , conta como foi sua formação na Petersburgo pré-revolucionária, os anos do terror, as diversas pessoas que conheceu na prisão e o que aprendeu em Solovki. Em fevereiro de 1928, foi preso por atividades contrarrevolucionárias e enviado ao Gulag. Durante a construção do Canal do Mar Branco, cumpriu parte da pena como contador e despachante ferroviário.   No livro Cartas sobre o bem e a beleza , Likhatchôv se dirige aos jovens leitores, reunindo seus principais pensamentos e o modo como enxerga a relação entre arte, cultura e sujeito. A “Primeira Carta”, traduzida abaixo, refere-se a um problema que nasce como um sistema de pensamento para virar uma atitude diante do mundo. Como um fragmento filosófico-formativo, Likhatchôv fala, por fim, sobre a vida, mostrando como os valores do grande mundo...

Boletim Letras 360º #525

Imagem
DO EDITOR   1. Uma semana intensa para os leitores do Letras. Realizamos mais um sorteio entre os apoiadores do blog. Os dois livros, aliás, já estão a caminho dos ganhadores. E apresentamos os quatro colunistas que acrescentam ainda mais o nosso projeto.   2. Não esquecemos de lembrá-los sobre as possibilidades de apoio ao Letras — para pagarmos as despesas de domínio e hospedagem de 2023 a 2024, sua ajuda é importante. Para participar do grupo de apoiadores ou descobrir outras formas de colaborar, basta ir aqui .   3. Uma dessas formas de apoio é a aquisição de qualquer um dos livros apresentados pelos links ofertados neste Boletim ou mesmo qualquer produto adquirido online usando este link .     4. Um fim de semana valioso para todos nós! Patrick Modiano. Foto: Francesca Mantovan   LANÇAMENTOS   Um novo livro de Patrick Modiano, Prêmio Nobel de Literatura de 2014 .   Um homem, uma mulher e a cidade de Paris. Em Um circo passa , Patrick Mod...

A vida como uma conversa entre amigos

Imagem
Por Cláudia Ayumi Enabe   A conversa é uma estrutura nevrálgica para os romances de Sally Rooney. Em Pessoas normais (Companhia das Letras, 2021), os acontecimentos ganham significância na experiência de troca entre Marianne e Connell, em uma espécie de conversa ininterrupta que se estende pela vida dos personagens, tanto nos encontros quantos nos instantes de desencontros. Mais do que o diálogo, é a situação conversacional que costura o discurso a entrelaçar essas duas vidas. Isso significa não somente as palavras e as ideias, mas também as hesitações, os segredos, os não-ditos e as mentiras integram a conversação como uma complexa prática de linguagem, na qual os silêncios constituem a densidade desse instante de confluência com o outro. Em uma “conversa entre amigos”, a confissão é um risco, deliberado ou não, mas inevitável. Talvez a conversa entre amigos seja ainda o único espaço em que essa troca de experiências ainda se preserve, em um movimento também de profunda humanida...

Fronteira — introspecção encontra uma casa

Imagem
Por Bruno Botto A obra de Cornélio Penna ficou um tempo fora de edição, era mais um dos autores que virava tesouro de sebos com edições carcomidas pelo tempo. Em meados de 2021, a editora Faria e Silva reeditou toda a sua obra, oferecendo outra uma vez a oportunidade de o público conhecer esse autor pouco conhecido.   Nascido em 1896, Cornélio era natural de Petrópolis, estudou direito em São Paulo e tinha fortes raízes familiares na zona da mata mineira. Durante a década de 20, começou a sua carreira como artista plástico no Rio, onde realizou a sua primeira exposição e trabalhou como ilustrador, gravador, desenhista e jornalista para algumas revistas. Em 1930 começa a segunda fase da vida artística de Cornélio, deixa as artes plásticas e escreve o seu primeiro romance, Fronteira , lançado em 1935.    A década de 30 também era a segunda fase do modernismo brasileiro predominado pelos romances regionalistas. Literatos de todo Brasil começam a construir suas histórias com ...

Os Fabelmans: a vida no cinema de Steven Spielberg

Imagem
Por Alonso Díaz de la Vega   Os tabloides já se pronunciaram: segundo entrevistas feitas pelo New York Post , Steven Spielberg não teve uma namorada obcecada por Cristo durante o ensino médio, apesar do que conta em Os Fabelmans (2022). A informação pode ser anedótica ou mesmo errada, mas esse suposto conhecimento tira um peso de nossos ombros: não é necessário ou particularmente importante entender o filme — baseado na infância e adolescência do diretor mais popular de todos os tempos — como uma autobiografia para contrastar com a realidade, mas como uma construção do que foi sua vida, ou melhor, do que Spielberg gostaria que fosse. O melodrama abundante ou a transformação do nome Steven Spielberg no personagem de Sammy Fabelman deveria ter sido suficiente para evitar a confusão com a realidade, mas se o Post teve a ideia de conferir os acontecimentos narrados no filme, pode ser em parte porque a natureza do cinema — o engano — triunfou sobre a percepção.   Em seu documen...

No Brasil, ninguém lê Pagu!

Imagem
Por Renildo Rene Registros fotográficos de Pagu descobertos em dossiês da polícia francesa revelados pela escritora Adriana Armony.   Exatamente 100 anos depois da Semana de Arte Moderna me dirijo à biblioteca da minha universidade, procuro por um exemplar de Parque Industrial e acho somente um único exemplar. Ele está em ruínas, despedaçado e segundo consta minhas pesquisas é uma edição particular de 1933, quase centenária que nem a semana. Não observo nenhum cuidado para que sequer a obra seja enviada para o acervo especial de preservação.¹   A verdade é que com o centenário do pontapé inicial do modernismo brasileiro, estou estudando os desdobramentos desse movimento e suas vertentes nos anos posteriores; a disciplina é Literatura Brasileira e junto com a docente e a turma, me debruço sobre as linguagens transformadoras dos Andrades — o Oswald e o Mário —, os romances ditos engajados no decênio de 1930 e todo aquele cenário efervescente que movimentava o país no século XX...