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Boletim Letras 360º #540

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Édouard Louis. Foto: Jean-François Robert LANÇAMENTOS   A editora Todavia tem agora no catálogo a obra de Édouard Louis .   1. Lutas e metamorfoses de uma mulher é uma continuação de seu ambicioso projeto autobiográfico. Neste livro, o autor conta a história de libertação da mãe, “que lutava pelo direito de ser mulher contra a não existência que lhe impunham”. Através de uma foto, traçando a arqueologia de sua mãe, ele descobre uma mulher que sobreviveu àquilo que deveria tê-la destroçado. Você pode comprar o livro aqui .   2. Quem matou meu pai é uma narrativa breve e dilacerante, que reflete sobre a relação com o pai, fraturada pela indiferença, pela vergonha e pelo conflito. “Não tenho medo de me repetir, porque o que escrevo, o que eu digo, não atende às exigências da literatura, mas às da necessidade e da urgência, às do fogo”, é o que diz Louis. Esse é o tom de manifesto inadiável que percorre a obra e se faz sentir na figura do pai doente e moribundo, que o narra...

A morte da escrita

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Por Camilo Pino   “E se depois de tantas palavras, a palavra não sobreviver.” César Vallejo Ilustração: Angus Greig   Nietzsche matou deus e Fukuyama, a história. Agora é a vez da escrita.   O New York Times publicou sua primeira resenha de um romance escrito por sistemas de inteligência artificial há algumas semanas. O romance tem um título, como diria um adolescente, literal: Death of an author , “a morte de um autor”. O autor mal esboçou 5% do texto.   Além da qualidade do primeiro romance de silício, sua mera existência anuncia a morte da escrita. É uma questão de tempo até que a literatura sintética se publique indistinguível da orgânica e não me refiro apenas aos best-sellers, mas às obras literárias em si. Goste ou não, em três anos, ou cinquenta, uma máquina escreverá tão bem quanto Shakespeare.   Desde que o Chat GPT apareceu, fiquei obcecado com a inteligência artificial. A única tecnologia que me impressionou tanto foi a internet, e mesmo assim min...

O colecionador de almas

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Por Marta Rebón Retrato de Nikolai Gógol por Otto Friedrich Theodor von Möller.   Em torno da literatura gravitam artistas da artimanha, sedutores de colarinho branco ou pequenos malandros dispostos a oferecer gato por lebre sem contemplações ou dissimulações, com a face descoberta. A essência da narração é construir castelos no ar com a matéria-prima das palavras. Existe um ilusionismo mais eficiente? Desde a década de 1980, quando os estudos cognitivos e literários começaram a convergir, se vem desvendando o que acontece no cérebro quando lemos uma obra de ficção. Por que precisamos abrir um livro para suspender nossa atenção do que está ao nosso redor e direcioná-la para um mundo intangível? Para a selva neural, a leitura é tão válida para desencadear uma tempestade eletroquímica quanto a experiência real. Ou seja, a mente não se preocupa em comprovar a autenticidade das informações que recebe, o que ela quer é que a tempestade desabe, como uma fé na vida. Nada que um virtuoso ...

Cormac McCarthy e o cinema

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Por Javier Yuste   Considerado como um dos melhores romancistas estadunidenses de sua geração, Cormac McCarthy teve uma relação estreita com o meio audiovisual, ele mesmo escrevendo roteiros para o cinema ou acompanhando como seu trabalho se adaptava às telas. Diretores como os irmãos Coen, Ridley Scott ou Billy Bob Thornton trataram de capturar o véu poético de sua literatura, adentrando-se num mundo que gravita entre o noir e o western . Matt Damon e Henry Thomas na adaptação de All the Pretty Horses .   Todos os belos cavalos (2002), de Billy Bob Thornton   O primeiro dos romances da Trilogia da Fronteira de Cormac McCarthy é o mais romântico, o que ajudou o escritor a ganhar leitores e dois prêmios importantes: o National Book Award e o National Book Critics Circle Award. O ator Billy Bob Thornton, que estreou na direção uns anos antes com Na corda bamba (1997), foi encarregado de dirigir esta adaptação meio descafeinada e plana em relação ao material original. ...

Cormac McCarthy ou a prisão de uma busca

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Por Nadal Suau Cormac McCarthy. Foto: Gilles Peress   É curioso até que ponto prosperou a ideia de um jogo de pôquer do romance estadunidense durante a segunda metade do século XX protagonizado por Don DeLillo, Thomas Pynchon, Philip Roth e Cormac McCarthy (só para constar, eu próprio incorporei essa partida na minha imaginação): são quatro gigantes que dividem uma geração, é verdade, mas a semelhança entre eles é relativa, principalmente se for o sobrenome, o menos pós-moderno de todos, o de raízes mais desesperadas.   Cormac McCarthy acaba de falecer, fato nada inesperado dada a sua idade avançada (oitenta e nove anos) e a cena que fechava seu último livro, Stella Maris , em que um personagem implora a outro que segure sua mão “porque é isso que as pessoas fazem quando estão esperando o fim de alguma coisa”. McCarthy está morto, então, e seria inútil dizer que um mundo também morreu com ele: primeiro, porque é sempre assim quando a morte chega; e segundo, porque pode t...

Três grandes escritores ucranianos de agora (2)

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Por Mercedes Monmany Andrei Kurkov. Foto: Jaime Villanueva Numa das múltiplas barreiras de controle para cruzar as zonas de guerra, entre a Ucrânia e as repúblicas pró-russas divididas de Donetsk e Luhansk, o bem-humorado e pacífico Sergey Sergeyich, aposentado e dedicado apicultor, protagonista de Abelhas cinzentas (2022), de Andrei Kurkov, é detido por um homem vestido de camuflagem. Sergeyich decidiu cruzar a linha de frente em direção à Crimeia tártara para salvar suas abelhas dos bombardeios que também começaram a cair sobre sua aldeia, Starhorodivka, abandonada por todos e localizada em terra de ninguém, na chamada “zona cinzenta”, entre uns e outros. “Devo mostrar-lhe o meu passaporte?”, pergunta ao soldado. “Não é preciso, se eu o reconheci. É que não tenho com quem conversar”, responde o entediado tipo camuflado. 1   Nascido em Leningrado em 1961, embora tenha vivido em Kiev desde a infância, Andrei Kurkov há muito é o escritor da Ucrânia com maior projeção internacional...