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Quatro pessoas

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Por Alejandro Zambra Jacob Lawrence. The Businessman   Quão solitário é o trabalho de um escritor?   Pergunta-me um amável desconhecido, por pura curiosidade, ao fim de uma sessão de leituras. Respondo vacilante, não estou seguro. Penso no lugar-comum do escritor trancafiado por muitas horas, lutando com suas convicções, com seus desejos. Lembro-me deste fragmento tão dramático e de certa forma cômico em que Kafka confessa o desejo de isolar-se em uma caverna, apenas com uma lâmpada e seus materiais de escrita: “Haveriam de trazer-me a comida e a deixariam sempre longe de onde eu estava instalado, atrás da porta mais externa da caverna. Ir buscá-la, em roupa de dormir, passando por todas as abóbadas, seria meu único passeio.”   Ao escrever ficamos ausentes do mundo e por vezes dias inteiros se passam em que saímos apenas para comprar cigarros ou levar o cachorro para passear (e costuma ser o cachorro que nos leva para passear). Mas não estou certo de que escrever sej...

O rosto na cidade

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Por Liliana Muñoz Georges Rodenbach. Foto: Felix Nadar   Não hesitaria em qualificar Bruges, a morta , de Georges Rodenbach (Tournai, Bélgica, 1855-Paris, 1898), como um romance que é perfeito. Já na altura da sua publicação, em 1892, despertou o interesse da crítica: foi o primeiro romance em que tanto o texto como a imagem — neste caso, as fotografias da sofrida Bruges — desempenharam um papel primordial. Contudo, o seu mérito não reside nos aspectos meramente formais, mas em outras questões que considero essenciais discutir neste texto: a forma como o significado se aproxima e nos escapa, a forma como os significantes dialogam entre si, se entrelaçam, desdizem, comovem e nos falam de um romance plural, no sentido barthesiano do termo. Assim, a cidade, as vozes, os sinos, a imagem da mulher, o amor-paixão ou a morte são veículos para nos falar de outra coisa, para nos aproximar, como diria Borges, da iminência de uma revelação que não se produz. 1   Aproximar-se de Bruges,...

Ou quando a terra voltar a brilhar verde para ti

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Por Eduardo Galeno A morte de Empédocles , 1987. Sabzian.   Se você quiser efetuar algo de parâmetro, que inaugure a tecitura do ponto em que surge a obra, você precisa pesquisar. Pesquisar: avaliar, reter, permitir, desafogar, enfim, aquilo que vem antes. A pesquisa é uma techné ; a arte, em suma, seria uma pesquisa que não possui limites. Técnica permeável, ir para cima e ao lado do objeto. Possuí-lo, agarrá-lo. Obsessão, transferência, violação de leis. Você precisa. A isso, você deve estar abalado, confundido com a própria contemplação. Você deve morrer como se morre em vida ou deve morrer em vida. Para se sustentar, sustentar a necessidade: eu preciso, alguém precisa, a obra precisa, o mundo precisa. Ou nada: fazer por fazer. Simplesmente.    Isso mesmo que está em eterno processo no filme A morte de Empédocles (1987), de Danièle Huillet e Jean-Marie Straub. Processo pelo qual o valor obra passa numa divisão. Ele está dentro ou fora de tudo. Existindo um texto-bas...

Hilda Furacão, a Cinderela boêmia

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Por Guilherme de Paula Domingos Roberto Drummond. Foto: Nelson Aranha Roberto Drummond nasceu em Ferros, em 1933, e é um dos escritores mais importantes da literatura de Minas Gerais. Venceu o prêmio Jabuti como autor revelação em 1975 com a reedição do livro de contos A morte de D. J. em Paris .   Em 1991 publicou Hilda Furacão e sete anos depois a obra foi adaptada para uma minissérie da TV Globo escrita por Glória Perez e dirigida por Wolf Maia. Ele sempre soube que, apesar do livro de contos que rendeu o Jabuti, foi este romance que se destacou como sua obra-prima e inaugurou um novo patamar de exigência literária, a ponto de ele declarar: “Sou um eterno refém de Hilda Furacão ”.   A história se inicia e termina em um primeiro de abril. Esse detalhe já denuncia o projeto de Roberto Drummond, edificado por sua mente ficcionista com bastante cuidado. Uma série de personagens reais se misturam a personagens fictícios, assim como locais inventados convivem com locais que exis...

Matei um cachorro na Romênia, de Claudia Ulloa Donoso

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Por Sérgio Linard   “A letargia química que invadia todo o seu corpo de cão, com as tripas inchadas de comida do praznic , iria reduzir pouco a pouco sua respiração, emudeceria seus latidos e sua torrente de sangue desembocaria em um pântano eterno” 1 . Claudia Ulloa Donoso. Foto: GEC O animal que dá título ao texto de estreia da autora peruana Claudia Ulloa Donoso no gênero romanesco, ainda que não pareça a partir da citação acima, é, certamente, um dos seres vivos que menos passa por sofrimentos dentro dessa narrativa. Matei um cachorro na Romênia é uma história que está dividida em quatro partes, sendo a primeira delas conduzida por um cachorro, e caracteriza-se como uma espécie de road book , porque intenta apresentar a história de uma professora na Noruega, acompanhando um ex-aluno em uma viagem à Romênia para que, conforme o convite inicial, esteja ao lado dele durante o praznic do pai daquele homem.   A órbita lúgubre dos aspectos extra e intratextuais do romance fic...

Boletim Letras 360º #581

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César Aira. Foto: Jaime Foto. LANÇAMENTOS   A editora Fósforo publicará dezesseis títulos da obra de César Aira. Os quatro primeiros já estão disponíveis em dois formatos: numa caixa ou separadamente. A tradução a quatro mãos de Joca Wolff e Paloma Vidal .   1. A prova . Marcia tem dezesseis anos e é infeliz. Um dia, voltando da escola imersa nos torpores vespertinos do bairro de Flores, em Buenos Aires, ela é afrontada por uma pergunta-convite brusca: “Quer foder?”. Pega de surpresa, Marcia até tenta resistir, mas se vê rapidamente enredada por duas garotas punks, Lenin e Mao, que a seduzem com seu jeito transgressor e seu discurso sobre o amor. As duas, porém, não têm muito tempo para discussões filosóficas: elas precisam de provas. Com um final apoteótico e de alta voltagem sexual, esta novelita pode ser lida como uma metáfora do primeiro encontro com a literatura de César Aira. Em uma lufada de poucas páginas, ela arranca todas as certezas de quem a lê. Mas para aqueles q...