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Dois sherpas, de Sebastián Martínez Daniell

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Por Pedro Fernandes Sebastián Martínez Daniell. Foto: Crhistian Brea   Dois sherpas de Sebastián Martínez Daniell, o primeiro livro do escritor argentino traduzido no Brasil, funciona como a subida de uma montanha: conquista, se o leitor for persistente, por etapas. Seu itinerário de subida, embora perigoso devido as escolhas de desvio impostas à narrativa e suas reentrâncias, não é íngreme, mas é reiteradamente enfadonho; por vezes, com a pergunta que se forma a meio do romance, qual o motivo dessa escalada, é sempre possível o assalto de outra, o que encontraremos quando alcançarmos o topo. Pois bem, comecemos sabendo que esse ponto-limite não existe, porque, embora os protagonistas designados apenas como o sherpa velho e o sherpa jovem lidem com o montanhismo e estejam numa de seus itinerários em direção ao topo do Himalaia, toda tensão da narrativa se concentra em torno de um único acontecimento: a queda de um turista inglês sob o andamento dos dois guias.   À maneira dos...

A indignação anticlerical de “O sequestro do Papa”

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Por Ernesto Diezmartínez Existirá um cineasta mais anticlerical do que Marco Bellocchio? A pergunta é retórica. Não, não existe. Claro que na história do cinema anticlerical ou francamente blasfemo, vêm à mente o irrepetível Os demônios (1971), de Ken Russell, ou boa parte da obra de Luis Buñuel. Mas no primeiro caso estamos perante um filme demasiado empenhado em escandalizar para acertar no alvo preciso entre tantos excessos, enquanto no cinema de Buñuel as suas provocações e blasfêmias não deixaram de ter um certo grau de cumplicidade lúdica. Somente alguém que conhece os dogmas católicos pode zombar deles com tanta engenhosidade e graça. Além disso, se alguém é verdadeiramente crente, poderá realmente estar enojado com o cineasta que dirigiu Nazarin (1958), talvez a parábola cinematográfica cristã mais emocionante alguma vez feita?   Se falamos de anticlericalismo radical, devemos referir-nos à obra-prima de Alejandro Galindo, Doña Perfecta (1950), baseada no romance homônim...

Trilogia, de Jon Fosse

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Por Eduardo Galeno Jon Fosse. Foto: Morten Krogvold Trilogia , de Jon Fosse, é publicado pela primeira vez no Brasil pela Companhia das Letras. Traduzido por Guilherme da Silva Braga diretamente do norueguês, o livro, do premiado com o Nobel de Literatura de 2023, conta com três novelas em que três pontos distintos, mas não excludentes, demarcam a história de amor de Asle e Alida. Asle e Alida, que rodam e rodam em torno de um ponto: o amor.   Minhas impressões e percepções ao ler Trilogia foram as mais emocionalmente difusas. De um lado, esse apelo ao cacoete onírico na narrativa — que não segue um padrão definido, requinte minimalista; do outro, a circunstância em que tudo parece girar até o leitor ficar embebido de náusea (quem é marinheiro de primeira viagem teria, a meu ver, problemas). Mas pontuemos: faz parte de uma chancela única . Tanto a escrita despreocupada com formações sintáticas maiores e melhor elaboradas quanto a retórica pegajosa das novelas (que formam um romanc...

Marie Lafarge, a envenenadora que inspirou Madame Bovary

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Por Alejandra Mateo Fano Retrato de Marie Lafarge em L’affaire Lafarge de Marcelle Tinayre, 1935. Arquivo Gallica.   Em 1º de outubro de 1856, Gustave Flaubert publicava na Revue de Paris o que mais tarde se tornaria a primeira obra de realismo na França, Madame Bovary. Originalmente intitulado Madame Bovary: mœurs de province (Madame Bovary: costumes de província), antecipou algumas das técnicas narrativas que viriam a ser utilizadas por autores de toda a Europa ao longo do século XX numa história que narrava o caso de Emma, uma jovem casada com Charles Bovary, com quem nunca chegou a se sentir verdadeiramente satisfeita e que a impediu de satisfazer as suas in ú meras ambi çõ es e inquieta çõ es pessoais.   Embora haja quem diga que Flaubert tomou como inspiração para a sua obra a biografia de Veronique Delphine Delamare, uma mulher que pôs fim à vida em 1848 após anos de um casamento infeliz, na realidade a mulher a quem verdadeiramente devemos esta trágica história chama...

Boletim Letras 360º #592

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Alejo Carpentier. Foto: Arquivo da Fundação Alejo Carpentier. LANÇAMENTOS   A nova tradução de um dos principais romances de Alejo Carpentier .   Obra magistral da literatura hispano-americana e um dos mais importantes romances de Alejo Carpentier ao lado de O século das luzes e A sagração da primavera , Os passos perdidos foi publicado em 1953, inspirado, entre tantas outras experiências, nas viagens do autor pelo interior da Venezuela. Adentra-se nestas páginas como em uma selva, no encalço dos passos de seu protagonista-narrador, um musicólogo e compositor que, buscando escapar de uma existência vazia na cidade, aceita o encargo de rastrear instrumentos musicais indígenas na selva sul-americana. Nessa jornada aparentemente reversa, que parte de uma grande metrópole para desembocar na natureza bruta, ele percorre também o próprio tempo, uma constante na obra carpentiana. Passado e presente se misturam nesta viagem de regresso às origens com o intuito de chegar à época da i...

Conhecemos nossa Literatura? Uma leitura de Antonio Candido

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Por Guilherme França Antonio Candido em aula na Faculdade de Filosofia de Assis, início da década de 1950.   Recentemente publiquei um texto com singelas reflexões a respeito da crítica literária e dos perfis que se comprometem a dialogar sobre literatura no contexto digital. Naquele escrito, dentre outros aspectos, busquei diferenciar a crítica literária e sua aparente austeridade ou rigor daquelas análises pessoais de uma obra, período ou autor, que hoje certamente constituem a grande parte do conteúdo que é produzido sobre literatura.   Alguns dias depois da publicação do texto citado comecei a leitura de Iniciação à literatura brasileira , do sociólogo, crítico literário e professor universitário Antonio Candido. Durante a leitura e sobretudo após a sua conclusão, percebi que a minha intuição havia se confirmado: seja pelo motivo que for, o fato é que hoje podemos citar raríssimos críticos literários no Brasil que transcendam o academicismo — e estão menos ainda no ambi...