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Os grandes carnívoros, de Adriana Lisboa

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Por Gabriella Kelmer Adriana Lisboa. Arquivo TV Brasil.   Em outra oportunidade, observei como os romances recentes de Adriana Lisboa se articulam a partir da perpetuação de algumas temáticas que servem como princípios organizadores da experiência de mundo das suas personagens. A partir desses temas, fundamentam-se camadas de sentido às experiências, já então vinculadas pela ação analítica do ser ficcional. Gera-se, por esse mecanismo, um encadeamento entre tempos, temas e espaços que, antes de ser simbólico a priori , permite entrever o tatear exploratório de uma consciência que transforma a vida em enunciado.   Retornei a essas considerações após a leitura de Os grandes carnívoros , romance mais recente da autora, publicado pela Alfaguara em 2024, e elas ainda me pareceram válidas frente ao novo ato literário. A prosa analítica e sensível da autora — adjetivos cuja contradição exterior é facilmente desfeita pela leitura da obra, na qual se manifestam seres ficcionais articu...

Canção de guerra em azul

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Por Eduardo Galeno IKB 191 (1962), Yves Klein. Wikipedia Commons (domínio público)   I   Eu não sei os sintomas da Aids (experiência: não sinto). Mas Derek Jarman falou e demonstrou que eles têm a cor azul (minha e de muitos a cor favorita na infância).   Jarman, por acaso, é um desses cineastas que gosto de ver, seja lá sobre o que seja sua produção: sobre um pintor renascentista, uma tradução fílmica da peça de Shakespeare ou um retrato da revolução punk na Inglaterra. O corte que me lança ao ver os seus filmes, apesar de escondido, não é complexo de afirmar: ele tem a ver com uma dupla identidade: a da criação/ destruição de formas artísticas. Blue , de 1993, é mágico nesse quesito. Estende o novo a partir de antiguidades.   O conteúdo é próximo porque ele nos revela a violência contida na biopolítica que assolou milhares, incluindo ele, ao longo das últimas décadas do século XX, em um contexto em que a doença era pouco combatida pela via farmacológica. Prestem a...

A amizade e a admiração como guias para a caminhada

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Por Matías Serra Bradford Yves Bonnefoy. Foto: Eric Garault. Algumas coincidências entre autor e leitor contribuem para uma melhor aproximação, mas são sempre condições insuficientes para garantir um encontro perfeito. O par formado por Charles Baudelaire e seu leitor Yves Bonnefoy é ideal em suas afinidades e contrastes. Ambos foram sujeitos de uma mesma língua, e foram poetas e prosadores, críticos de arte e tradutores (também do mesmo idioma, o inglês). Mas, exceto por um certo sentido do divino na presença de paisagens e pinturas, não poderia haver mais diferenças de temperamento entre os dois.   Basta como exemplo a inclinação disruptiva de Baudelaire e a predisposição conciliatória de Bonnefoy, com a sua confessada aversão ao rompimento de amizades. De qualquer forma, ele é um poeta notável e suas repetidas visitas à obra de Baudelaire remetem a um provérbio turco: “Quando um machado apareceu pela primeira vez na floresta, as árvores disseram: ‘Pelo menos o cabo é um dos...

Fascinante e controversa Susan Sontag

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Por Cláudio H. Vargas   ...já que os incidentes que dão excelência a uma biografia são, por sua própria natureza, voláteis e evanescentes. — Samuel Johnson, citado por James Boswell em Life of Samuel Johnson (1791)   1. Quando Susan Sontag faleceu, na madrugada de 28 de Dezembro de 2004, não foi raro que muitos vissem na sua morte não só a perda de uma romancista e ensaísta de excelência, mas, sobretudo, um sinal inequívoco do encerramento de uma era em que a figura do intelectual público representava tanto os valores da alta cultura, mas também, e quase se poderia dizer que além disso, a própria encarnação de uma autoridade moral que, salvo exceção, nenhuma outra figura pública — políticos, cientistas, jornalistas etc. — poderiam até esperar alcançar.   É provável que Sontag não tenha gostado deste tipo de reconhecimento póstumo. Pelo menos desde meados da década de setenta do século passado e até aos seus últimos dias, ela, como poucos escritores ou intelectuais da sua...

Boletim Letras 360º #600

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Domenico Starnone. Foto: Laurent Denimal LANÇAMENTOS   O exame delicado de como a descoberta do amor e a tomada de consciência da morte parecem confluir, marcando o fim da infância e anunciando a vida adulta, com suas luzes e sombras .   Nápoles, anos do pós-guerra. Um menino passa horas na janela do apartamento fantasiando ser poeta. No prédio da frente, uma menina linda de vasta cabeleira negra se arrisca dançando no parapeito da sacada. Por um amor assim, um menino destemido pode se lançar a proezas extremas, como falar italiano (e não mais napolitano, a língua da família e da intimidade). Papel fundamental na sua vida tem a avó, a velar sobre suas bravatas, sentada no cantinho da cozinha, contando histórias do passado e explicando nossa relação com os mortos. Ela não é hábil com as palavras, mas o que lhe falta de domínio do idioma sobra em imaginação, calor e afeto. Há também um amigo, o arrojado Lello, igualmente fascinado pela menina. Línguas conta a história desses tr...

Orígenes Lessa e as riquezas invisíveis da literatura

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Por Guilherme França Orígenes Lessa. Foto: Arquivo IMS (detalhe)   Durante uma entrevista, certo escritor disse, com ironia, a seguinte frase: “nunca vi no jornal uma vaga de emprego para intelectual”. Por óbvio, a ironia está no fato de que ser um intelectual não é, em si, uma profissão. Mas a frase também escondia uma fina crítica ao fato de que os estudos se tornaram quase sempre instrumentais, ou seja, para que se possa fazer alguma coisa; o estudo precisa ter uma finalidade clara (para quê?) para então possuir alguma utilidade. Não costumamos, portanto, enxergar o estudo como um valor em si, que contribui para o crescimento e formação do próprio indivíduo; em vez disso, o enxergamos, na maioria das vezes, apenas como um meio de ascensão socioeconômica.   Trazendo essa reflexão inicial para a literatura, na obra O feijão e o sonho , de autoria de Orígenes Lessa e publicada pela primeira vez em 1938, temos, na minha opinião, uma das melhores e mais fidedignas narrativas a...