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Os conselhos dos escritores. Prescrição e encenação

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Por Patricio Pron Pintura: Albert Anker   1 “O único defeito dos escritores realmente bons é que eles quase sempre fazem com que muitos escritores ruins ou medianos apareçam”, escreveu Georg Christoph Lichtenberg. O escritor uruguaio Horacio Quiroga recomendou, ao contrário: “Acredite em um mestre (Poe, Maupassant, Kipling, Tchekhov) como no próprio Deus”. Nosso tempo não possui o patrimônio do desejo de converter cada atividade em uma sucessão limitada de etapas previsíveis que podem ser imitadas. Mas parece ser o primeiro a ter projetado esse desejo para o campo da produção artística. Também é o primeiro a acreditar que é possível dar satisfação plena e efetiva a esse desejo.   Em 2010, o jornal inglês The Guardian iniciou uma série de entrevistas com escritores britânicos nas quais eles abordavam suas práticas e/ou davam “conselhos de escrita” aos seus leitores, geralmente na forma de um decálogo. Seu antecedente foi “A filosofia da composição”, que Edgar Allan Poe publico...

Manhattan Transfer, um romance em forma de filme

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Por Rodolfo Elías John Dos Passos. Foto: Philippe Halsman.   “If I can make it there,/ I’m gonna make it anywhere./  It’s up to you/ New York, New York”, canta Frank Sinatra em uma de suas canções mais conhecidas: “Se eu conseguir chegar lá,/ Conseguirei chegar a qualquer lugar./ Só depende de você,/ Nova York, Nova York”. A cidade que já era mesmo antes da Primeira Guerra Mundial uma cidade vibrante é onde se passa Manhattan Transfer , romance de John Dos Passos.   Manhattan Transfer foi publicado há cem anos, em 1925, mesmo ano em que Adolf Hitler publicou seu controverso manifesto autobiográfico, Mein Kampf . E é um dos romances mais interessantes e completos que alguma vez li; seu estilo, seu ponto de vista, sua inventividade e seu brio romanesco, ainda estão preservados. Uma obra muito diferente do que havia sido publicado até então. De certa maneira, Dos Passos criou uma forma nova no romance. E como se tudo isso não bastasse, tem a virtude especial de ser um ...

Boletim Letras 360º #626

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Ben Lerner. Foto: Beowulf Sheehan LANÇAMENTOS   Duas apostas na reintrodução da obra de Ben Lerner entre os leitores brasileiros .   1. Nos poemas de  As luzes , os leitores logo reconhecerão a inteligência e a criatividade que consagraram Ben Lerner como um dos principais nomes da literatura estadunidense recente. Seus versos nos ensinam que escrever poesia pode ser uma excelente forma de conversar: fazer com que as vozes troquem de lugar e, assim, teçam experiências vivas: “a meta é estar dos dois lados do poema,/ transitando entre mim e você”. Com os pés no chão, os olhos ligados no cotidiano e os ouvidos muito atentos à trama infinita das falas que se projetam ao redor — do avô que inventava provérbios ao poeta compondo “canções tradicionais” para as filhas, do poema mais antigo da língua inglesa aos papos com amigos e familiares, dos áudios pessoais aos pronunciamentos de autoridades e especialistas no noticiário —, a imaginação de Lerner se alimenta de uma atenção d...

Nietzsche, filósofo da suspeita de Scarlett Marton

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Por Herasmo Braga Scarlett Marton. Foto: Wikipédia (Reprodução)   Atitude notória no âmbito da tradição de pensamento é dedicar-se por longos períodos a determinados pensadores críticos ou mesmo a um campo de ideias significativas relacionadas aos dilemas humanos. Unir um analítico crítico-reflexivo dedicado e um relevante proclamador de ideias profundas em uma mesma realização escrita é algo não só notável, como também, uma benesse para aqueles apreciadores de conjunto de ideias tão bem desenvolvidas e articuladas. É o que acontece na obra Nietzsche, filósofo da suspeita , de Scarllet Marton. A obra apresenta, de maneira objetiva, sem pecar na profundidade, certo panorama que promove não só atualização, mas a ressignificação das ideias de Nietzsche ao longo das suas obras. Como bem evidencia a autora nas primeiras linhas: “Quem julgou compreendê-lo equivocou-se a seu respeito, quem não o compreendeu julgou-o equivocado”. Esse é um dos grandes feitos de pensadores que promovem rupt...

Outono de carne estranha, de Airton Souza

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Por Henrique Ruy S. Santos Airton Souza. Foto: O Liberal (Reprodução)   A visão de uma cava é assombrosa. A carne da terra penetrada a céu aberto pelas ferramentas do homem guarda algo de obsceno e de violador. Nos deixa com a impressão de que certas entrâncias, certos sulcos obscuros do solo escavado não foram feitos para serem vistos, muito menos expostos a céu aberto. A grandeza do espetáculo provoca um pudor primal que nos invade e suspende, brevemente, qualquer consciência espacial e temporal que pudesse, porventura, nos apontar causas, modos e motivações humanas por trás do que nos é dado ver.   Outono de carne estranha , romance vencedor do prêmio Sesc de 2023 e escrito pelo paraense Airton Souza, parte, em determinada medida, desse mesmo assombro diante do fenômeno do maior garimpo a céu aberto durante os anos 1980, Serra Pelada. As determinações sociais e econômicas que fizeram com que milhares de homens e mulheres se dirigissem a uma cratera de mais de 20 mil metros ...

Conclave: o cardeal que sabia demais

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Por Ernesto Diezmartínez No início de O espião que sabia demais (1974), o quinto romance escrito por John le Carré (1931-2020), o antigo chefe da inteligência britânica, “Control”, morre após ser forçado a se aposentar devido a uma operação de espionagem vergonhosamente fracassada. Seu segundo em comando, o espião veterano aposentado George Smiley (Alec Guiness na adaptação para a TV de 1979 e Gary Oldman na versão cinematográfica de 2011) é convidado a voltar ao MI6 em meio a suspeitas de que entre seus antigos colegas há um espião duplo servindo aos soviéticos, uma certeza que atormentou “Control” em seus últimos dias à frente do serviço secreto britânico. O que Smiley não consegue entender é por qual motivo “Control” não compartilhou suas suspeitas com ele, por que lhe escondeu essa informação. Acreditava que ele, Smiley, era o espião duplo, o informante do título? Ele logo percebe que o oposto é verdadeiro: “Control” não lhe contou nada sobre suas suspeitas porque confiava nele ab...