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Cinco poemas de Robert Penn Warren

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Por Pedro Belo Clara (Seleção e versões) Robert Penn Warren. Foto: Joel Katz     (VII) CONTA-ME UMA HISTÓRIA ( Audubon: A Vision , 1969)   [A] Há muito, no Kentucky, eu, um rapaz Junto duma estrada de terra batida, ouvi, no crepúsculo, O grito dos gansos selvagens rumando ao norte.   Não os conseguia ver, não havia lua no céu E as estrelas eram escassas. Escutava-os.   Não sabia o que se estava a passar dentro do meu coração.   Era a época antes do sabugueiro florir, E eles voavam para norte.   O som passava por mim rumo ao norte.   [B] Conta-me uma história.   Neste século, e momento, de loucura, Conta-me uma história.   Que seja uma narrativa de grandes distâncias, de luz estelar.   O nome da história será Tempo, Mas não deverás pronunciar o seu nome.   Conta-me uma história de encantar.     UM FALCÃO À TARDINHA ( Can I See Arcturus From Where I Stand? , 1975)   De plano em plano de luz, as asas mergulhand...

Boletim Letras 360º #632

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DO EDITOR   Olá, leitores! Ainda estamos à procura de apoiadores para o Letras que queiram concorrer a um exemplar de Morte em pleno verão , de Yukio Mishima. Aproveite o lembrete e se inscreva para o sorteio. Saiba todos os detalhes de como participar, por aqui . Um excelente final de semana para vocês! Elfriede Jelinek. Foto: Sophie Bassouls LANÇAMENTOS Primeira seleção de peças da autora austríaca, cuja obra, apesar do prêmio Nobel de Literatura de 2004, continua pouquíssimo conhecida .   Elfriede Jelinek: do texto impotente ao teatro impossível  traz para o leitor brasileiro um recorte representativo do seu estilo. As seis peças até agora inéditas por aqui foram selecionadas, traduzidas e apresentadas por Artur Sartori Kon. São elas: “Doença ou mulheres modernas”, “Faust(a) (não tá): drama secundário ao Fausto Zero”, “País.nas.nuvens”, “As implicantes”, “Rechnitz (O Anjo Exterminador)” e “Sem Luz”. E estão divididas em três partes (Problema de gênero, Nós do discurso ...

Da tela ao texto: Pieter Bruegel e Louis-Ferdinand Céline

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Por Amanda Fievet Marques Pieter Bruegel. O triunfo da morte  (detalhe).   O mundo às avessas. Teatro de um mundo apocalíptico, caótico, arruinado pela guerra e dominado pela loucura e pela morte. Uma multidão de vivos se embrenha num caixão, enquanto a morte — um esqueleto com uma foice —, comanda sobre um cavalo esquálido a transformação dos vivos num exército de mortos, esqueletos com lanças por detrás de esquifes.   Essas linhas traçam uma breve descrição de uma cena do quadro O triunfo da morte (1562/1563) , do pintor holandês do século XVI, Pieter Bruegel, mas poderiam muito bem evocar a obra literária do escritor francês do século XX, Louis-Ferdinand Céline. Resguardadas as diferenças entre os meios de expressão e os contextos históricos, há também nos romances de Céline a onipresença da guerra, cenários infernais, assim como o domínio da morte e da loucura.   Céline declara, inclusive, numa carta a Henri Mahé do dia 10 de janeiro de 1933, sua admiração pel...

Visitações à Defesa de Palamedes, de Górgias

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Por Afonso Junior Antonio Zanchi. Palamedes e Odisseu . Museu Nacional de Arte da Bielorrússia   Em Análise dos argumentos jurídicos presentes na Defesa de Palamedes de Górgias , Thatiane Santos Meneses se debruça sobre o texto gorgiano que recorre a um episódio da mitologia: Palamedes discípulo de Quíron, descendente de Dânao, rei do Egito, foi enviado à Ítaca para buscar Odisseu para a guerra; usando de astúcia, desmascarou seu estratagema (a loucura fingida); segundo versão posteriormente fixada por Gaius Hyginus, autor latino, Odisseu mais tarde forjou uma carta de Príamo, rei dos troianos a Palamedes e conseguiu condená-lo à morte.   O livro, que tem origem em dissertação defendida na Universidade Federal de Sergipe, começa por mergulhar no mundo dos sofistas, no qual Protágoras colocará em jogo o conceito de verdadeiro, já que cada um o julgaria a partir de como chegam-lhe os fatos e as informações, e Górgias defenderia que entre o lógos e as coisas reais há um abismo...

A garota da agulha, de Magnus von Horn

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Por Adriana Bellamy   De vez em quando, durante as temporadas de premiações e medições quantitativas de audiência, é possível encontrar alguns filmes que, embora façam parte das listas anuais, não são tão proeminentes no cenário geral de recepção. Gostaria de tratar do mais recente longa-metragem de Magnus von Horn, A garota da agulha (2024), o filme verdadeiramente interessante.   Assim como em outras ocasiões de sua filmografia — por exemplo, Sweat (2020), muito antes de Substância (2024), de Coralie Fargeat, radiografa o mundo do fitness e o fenômeno aterrorizante dos influencers , ou The Here After (2015), um retrato afiado da violência juvenil e do assassinato dentro de uma comunidade —, este diretor retorna nesta nova produção à exploração dos labirintos da mente criminosa fora de qualquer fórmula de suspense psicológico.   Ambientado em Copenhague alguns anos após a Primeira Guerra Mundial, A garota da agulha conta a história de Karoline (Vic Carmen Sonne),...

Raça, identidade, e sobretudo, Amor, em Americanah, de Chimamanda Ngozi Adichie

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Por Vinícius de Silva e Souza   Ifemelu, uma mulher comum, entra em um cabelereiro para trançar seus cabelos, em Princeton, Estados Unidos. Assim inicia-se uma jornada quase épica e profundamente moderna por 520 páginas, na edição comum da Companhia das Letras, onde Chimamanda Ngozi Adichie nos conduz com bastante idas e vindas pelos anos de formação da protagonista.   Sempre gosto de começar os anos lendo algum calhamaço (algo com mais de trezentas páginas), pensando que a folga do mês de janeiro me dará o fôlego necessário para devorar os longos romances que o restante do ano não me permite consumir. E em 2025, o escolhido foi o Best-Seller da escritora nigeriana, na minha prateleira aguardando sua vez de ser lido desde 2021. O romance foi traduzido no Brasil sete anos antes.   Logo entendi o porquê dessa obra ser aceita universalmente. Sua linguagem quase cinematográfica, sem muitos floreios, seduz, como um encantador de serpente; mesmo o leitor mais desavisado, quand...