Boletim Letras 360º #704

DO EDITOR

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Vinicius de Moraes. Foto: Otto Stupakoff


 
LANÇAMENTOS

Obra recupera os mais de quarenta anos da lírica de Vinicius de Moraes, incluindo publicações de circulação restrita, além de poemas esparsos e inéditos.

“O poeta tem o coração claro das aves/ E a sensibilidade das crianças”, escreve Vinicius de Moraes em seu primeiro livro, O caminho para a distância, publicado em 1933. A estreia, marcada pelo tom metafísico e religioso, anuncia uma trajetória única, inteiramente dedicada à poesia e aos seus desdobramentos. Com organização e apresentação de Eucanaã Ferraz e Daniel Gil, esta reunião abarca mais de quarenta anos da produção de uma das vozes mais admiráveis da literatura de língua portuguesa. Além dos livros amplamente conhecidos, a edição inclui publicações esparsas, com circulação restrita, como é o caso de O mergulhador — breve antologia lançada em 1968, originalmente acompanhada de fotografias de Pedro de Moraes, seu filho — e O falso mendigo, de 1978, que reúne poemas já editados e outros até então inéditos. É impossível pensar em sua obra — a um só tempo moderna e clássica — sem falar de amor, desejo, deslumbramento, vida e morte. Mais do que mero pano de fundo, o Brasil, e o Rio de Janeiro em particular, surgem como matéria-prima para a sua poesia. Forjada entre a exuberância da paisagem e os problemas sociais de seu tempo, a escrita de Vinicius percorre tanto o banal e o cotidiano quanto o sublime. Não há assunto que não se ilumine em seus “Porque o amor do poeta/ É a seiva do mundo”. O livro sai pela Companhia das Letras. Você pode comprar o livro aqui.

Reunião de 45 poemas representativos da produção de um dos principais poetas britânicos do século XX, desde sua estreia com North Ship (1945) até sua última coletânea, High Windows (1974), além de poemas não publicados em livro.

A obra de Philip Larkin pode ser resumida em um mote: a desesperança. Seus versos tratam da dificuldade do eu lírico de se relacionar com os outros e de encontrar propósito em percorrer o destino esperado — crescer, casar, ter filhos. Essa descrença, abordada em tom extremamente lógico e por vezes cínico, confere aos poemas uma visão pessimista e pragmática sobre o significado da vida.
O poeta Paulo Henriques Britto, responsável pela organização e pela tradução deste volume, comenta a inventividade e os temas caros ao autor: “O medo de morrer, a rejeição ao casamento e a ojeriza às crianças (que Larkin afirma numa carta) apontam todos num mesmo sentido: uma incapacidade de aceitar — tanto no plano racional quanto no emocional — algumas condições básicas e inescapáveis da experiência humana”. Com uma produção que pode ser considerada breve, inicialmente marcada pela influência de poetas como W. H. Auden e W. B. Yeats, Larkin notabilizou-se por retratar o vazio existencial, como evidencia o magistral poema “Aubade” (“Alba”): “A mente sofre. Não por remorso — o bem não/ Feito, o amor não dado, os anos e anos mal/ Gastos, apenas jogados no lixo, ou então/ Tentando consertar um erro inicial;/ Mas pela ideia de um total e eterno nada”. O livro sai pela Companhia das Letras. Você pode comprar o livro aqui.

Uma redescoberta da literatura latino-americana. Uma história de amor, guerra e destino em meio ao nascimento das nações sul-americanas.

Muito antes de o chamado boom latino-americano conquistar leitores ao redor do mundo, Juana Manuela Gorriti já reinventava o romance histórico com uma escrita de extraordinária força narrativa. Publicado em 1869, O poço de Yocci é uma de suas obras-primas e um marco da literatura do século XIX. Em meio às guerras de independência e aos conflitos que dividiram argentinos, bolivianos e peruanos nas primeiras décadas do século XIX, Gorriti acompanha personagens cujas vidas são atravessadas por paixões, lealdades familiares e escolhas políticas capazes de transformar seus destinos. Como em uma tragédia clássica, os acontecimentos do passado ecoam através das gerações, revelando que as feridas da História dificilmente permanecem enterradas. Misturando acontecimentos reais e ficção, a autora constrói um romance envolvente em que batalhas, conspirações, amores impossíveis e segredos familiares se entrelaçam em uma narrativa de grande intensidade emocional. Ao mesmo tempo, oferece um retrato singular da formação das nações sul-americanas, escrito por uma mulher que viveu o exílio, conheceu muitos dos protagonistas de seu tempo e transformou essa experiência em literatura. Leitura indispensável para os amantes dos clássicos, O poço de Yocci revela uma autora fundamental da tradição literária latino-americana e reafirma Juana Manuela Gorriti como uma das grandes pioneiras do romance histórico no continente. Com tradução de Lívia Simões dos Santos, Gabriel Caetano Moreira e ilustrações de Ivan Di Simoni, o livro sai pela editora Pinard. Você pode comprar o livro aqui.

Dois novos livros de Sigrid Nunez ganham tradução e edição simultâneas no Brasil. 

1. Em Se for importante, você vai se lembrar, Sigrid Nunez reúne pela primeira vez treze contos escritos ao longo de três décadas de carreira, revelando as origens de seu estilo e sua incomparável versatilidade artística. São histórias sábias, provocativas e espirituosas que vão do grandioso ao mundano. Nelas, a escritora mantém o humor irreprimível, a ironia e o equilíbrio perfeito entre intimidade e universalidade, seriedade e leveza, ao mesmo tempo que explora, com sutileza e inteligência, inquietações filosóficas que já esperamos encontrar em suas obras: a memória é a maior ficção? Como suportar a passagem do tempo? Qual o verdadeiro papel do afeto diante da dor e da finitude? É uma coletânea que reafirma o talento de Sigrid Nunez e mostra por que se consolidou como uma das autoras mais aclamadas da literatura contemporânea. A tradução é de Carla Fortino. Você pode comprar o livro aqui.

2. Uma jovem relembra o mundo de seus pais imigrantes: o pai sino-panamenho e a mãe alemã que se conheceram na Alemanha do pós-guerra e se estabeleceram em Nova York. Criada em um conjunto habitacional nas décadas de 1950 e 1960, a narradora refugia-se em sonhos inspirados tanto pelas histórias familiares quanto por suas próprias leituras e, por um tempo, na vida sobrenatural do balé. A mãe saudosa e melancólica, o pai calado e retraído, o balé — esses são os elementos que moldam a imaginação e a sexualidade da jovem. Uma pena no sopro de Deus, romance de estreia de Sigrid Nunez, é uma história sobre deslocamento e perda e sobre a natureza complexa das relações entre pais e filhos, entre linguagem e amor. O livro tem tradução de Talita Hoffmann. E os dois títulos de Nunez saem pela editora Instante. Você pode comprar o livro aqui.

Um mergulho em um acerto de contas familiar que oscila entre o trágico e o genuinamente ridículo

A premissa de Eurotrash parece a de um drama burguês convencional: um filho decide levar sua mãe alcoólatra e octogenária em uma última viagem pela Suíça, seu país natal. No entanto, esse road movie literário se transforma em uma expedição ácida pelas vísceras de uma Europa decadente e de uma herança manchada pelo nazismo. O humor aqui não é solar, mas gélido, extraído da mediocridade das convenções sociais e do fardo de se carregar um sobrenome que exala privilégio e culpa. A mãe, uma figura que transita entre a lucidez cortante e o delírio etílico, encontra-se afundada em um autodesprezo quase elegante, funcionando como o contraponto perfeito para o narrador, uma versão autoficcional do autor Christian Kracht. Eles viajam com uma sacola plástica cheia de dinheiro, que vão distribuindo a pessoas aleatórias, conforme visitam lugares que evocam uma nostalgia mofada. Com a precisão de um bisturi, a narrativa destrincha a hipocrisia de uma classe alta que prefere o silêncio ao escândalo. Eurotrash é também uma elegia, uma despedida, uma reprodução de conversas finais entre mãe e filho, o último lance de um jogo de verdade e ficção entre os dois. Durante a viagem, ela pede: “Conte alguma coisa”. “Verdade ou ficção?”, pergunta o filho-narrador. “Tanto faz. Pode decidir. Você conta isso de forma tão envolvente, como se fosse verdade.” Assim, observamos um luxuoso castelo de cartas desmoronar em câmera lenta: a queda é inevitável, mas sua beleza não se nega. Kracht nos mostra uma Suíça que não está nos cartões-postais, povoada por fantasmas do passado e por vivos que mal conseguem sustentar o peso das próprias joias. Este romance é, acima de tudo, um exercício de honestidade brutal, em que o riso surge como a única defesa possível diante do vazio existencial e do fim de uma linhagem que já deu o que tinha que dar. Um “lixo europeu” de altíssima classe, acompanhado de uma dose generosa de vodca barata. Publicação da editora Fósforo; tradução de Gisele Eberspächer. Você pode comprar o livro aqui.

Um retrato lírico e implacável da busca por identidade, corpo e sentido contra o pano de fundo de uma nação em transformação.

Tezer Özlü ocupa um lugar central na literatura turca contemporânea: é considerada uma das escritoras mais queridas do país, responsável por uma obra breve, mas radical, que redefiniu a forma como a subjetividade feminina podia ser narrada na Turquia das décadas de 1970 e 1980. As noites frias da infância, publicado originalmente em 1980, seis anos antes de sua morte precoce aos 43 anos, consolidou essa reputação e segue sendo relido e retraduzido mundo afora. Em prosa fragmentada e intensamente lírica, o romance atravessa os pomares da infância nas províncias turcas até os cafés enfumaçados de Berlim e Paris, entre amantes, internações psiquiátricas e sessões de eletrochoque, na busca incessante de uma mulher por liberdade, prazer e sentido. Alternando a rigidez da vida doméstica sob um pai autoritário com um desejo sexual explícito e sem pudor, a narradora encena o embate entre o desejo feminino irrefreável e uma sociedade patriarcal e repressiva. Um livro que dialoga diretamente com A redoma de vidro, de Sylvia Plath, este é um romance poderosamente vívido, desconcertante e agridoce, um retrato implacável da aceitação da vida em toda a sua complexidade. Com tradução de Adriana Lisboa, o livro sai pela Autêntica Contemporânea. Você pode comprar o livro aqui.

Em conjunto inédito de ensaios, Gertrude Stein mostra de modo oblíquo, mas paradoxalmente claro, o que implica fazer literatura

Seja em chave explicativa ou pura expressão artística, a prosa de Stein é sempre imbuída daquilo que ela prega: um uso radical da linguagem que desloca o foco do consumo passivo da linearidade para um envolvimento ativo com as propriedades físicas, rítmicas e sensoriais das palavras. Stein nos conduz para fora dos hábitos convencionais de leitura — e, com isso, nos ensina coisas preciosas sobre escrever. O que será que é uma frase: pontuando sobre a pontuação sai pela Martins Fontes. Tradução de Dirce Waltrick do Amarante e Luci Collin. Você pode comprar o livro aqui.

Conversas entre Annie Ernaux e Rose-Marie Lagrave. 

Neste diálogo, Annie Ernaux e Rose-Marie Lagrave exploram as marcas deixadas pela travessia entre diferentes classes sociais. A partir de um encontro realizado em 2021, a escritora e a socióloga discutem como a origem, o gênero e a memória moldam a vida e a obra de mulheres que desafiaram seus destinos iniciais. Unindo o rigor da análise social à sensibilidade literária, as autoras investigam temas como a vergonha e a dominação, oferecendo um horizonte de reflexão sobre a emancipação. Uma conversa sai pela Editora Unesp; tradução de Mariana Echalar. Você pode comprar o livro aqui.

Outras conversas, agora, entre Édouard Louis e Ken Loach. 

Como criar uma arte que desestabilize os sistemas de poder? E qual é o papel das artes em um contexto político no qual as camadas populares parecem se identificar cada vez mais com o discurso da extrema direita? Édouard Louis e Ken Loach, dois artistas de países e gerações diferentes, são conhecidos pela abordagem que fazem em suas obras das classes populares e das vítimas de violências dos mais diversos tipos. Neste encontro, Édouard Louis e Ken Loach falam sobre arte, cinema, literatura e o papel que essas formas de expressão desempenham na sociedade contemporânea. Como a arte pode mobilizar as pessoas? De que forma ela pode representar a violência de classe? E como repensar a esquerda para reverter a ascensão mundial da extrema direita? Confrontando suas opiniões e partindo das próprias obras, Loach e Louis procuram responder e pensar sobre essas e outras perguntas. O resultado é um livro único, a um só tempo uma conversa despretensiosa e um manifesto em defesa da transformação profunda e radical do fazer artístico. Diálogo sobre arte e política é uma publicação da editora Todavia. Tradução de Marília Scalzo. Você pode comprar o livro aqui.

42 escritos não ficcionais de Brecht dos tempos de seu exílio, que se estendeu de 1933 a 1949

São discursos, cartas abertas, ensaios, sátiras e anotações às voltas com a ascensão do fascismo, a linguagem da propaganda, a teatralidade dos comícios de Hitler, os desatinos da classe média e as notícias que chegavam da União Soviética. Trata-se de uma prosa combativa, escrita sob censura e vigilância, atenta ao que era possível dizer — e à maneira de dizê-lo — quando a barbárie ameaçava abocanhar o mundo todo. Textos políticos é publicado pela editora Hedra com tradução de Tercio Redondo. Você pode comprar o livro aqui.

Livro idealizado pelo pesquisador e restaurador Saulo Pereira de Mello, é uma porta de entrada para um dos filmes mais importantes e fascinantes da história do cinema brasileiro: Limite (1931) de Mario Peixoto

Organizado por Carlos Augusto Calil e Patricia de Filippi, este livro tem no centro uma realização singular: uma espécie de partitura visual feita por Mello do filme de Peixoto capaz de registrar, plano a plano, sua estrutura, seus fotogramas, movimentos de câmera, fusões e escolhas de montagem, como se fosse possível “ler” Limite mesmo sem projetá-lo. Ao redor desse trabalho extraordinário, o volume reúne ensaios, documentos, críticas e materiais históricos que acompanham a trajetória do filme. Com textos de Saulo Pereira de Mello, Otávio de Faria, Plínio Sussekind Rocha, Brutus Pedreira, Walter Salles, Patricia de Filippi e Carlos Augusto Calil, o livro reconstrói a história material, crítica e afetiva do filme. Mais que um livro sobre Limite, este é um convite a descobrir uma experiência radical de cinema e entender como a paixão de seus preservadores ajudou a mantê-la viva. Mapa de Limite é publicado pelas Edições Cosac. Você pode comprar o livro aqui.

A correspondência entre Murilo Mendes e Alceu Amoroso Lima entre os anos de 1930 e 1974, cobrindo quase meio século de história literária brasileira

Correspondência e eternidade, a edição reunida e comentada por Leandro Garcia Rodrigues, compreende 39 cartas de Murilo a Alceu e somente duas cartas de Alceu, uma vez que várias missivas do crítico se perderam num incêndio ocorrido no arquivo de Murilo Mendes. A correspondência adquire aqui uma abrangência maior, incluindo troca de cartas, de imagens, cartões, bilhetes, livros, dedicatórias etc., tornando-se um espaço de diálogo e de teorizações sobre o próprio ato criador. Leandro observa que a carta foi o elemento que uniu distâncias, que promoveu intercâmbios, que propiciou o encurtamento de caminhos entre os missivistas. A carta como testemunho. A carta como narrativa de vida e de amizade. Publicação da Edusp. Você pode comprar o livro aqui.

De Clarice para quatro dos mais importantes escritores brasileiros.

Em tempos digitais, em que os androides sonham com ovelhas elétricas e os hieróglifos infantis dos emojis estão substituindo a escrita, quase ninguém mais sente o prazer inigualável de receber uma bela carta. É isso que torna ainda mais especial este livro, que reúne a correspondência inspirada e inspiradora de quatro escritores brasileiros: Lúcio Cardoso, João Cabral de Melo Neto, Rubem Braga e a catalizadora de todos os afetos, Clarice Lispector. Ao conferir perenidade às missivas deste quarteto magistral, Entre amigos nos proporciona uma melhor compreensão das obras de autores já bem conhecidos, revelando ao mesmo tempo que preserva. Clarice Lispector: entre amigos sai pela editora Rocco. Você pode comprar o livro aqui.

REEDIÇÕES

Livro no qual Gertrude Stein dá voz à sua companheira de toda a vida, Alice B. Toklas, em nova edição.

Subvertendo o gênero literário da autobiografia, Gertrude Stein dá voz à sua companheira de toda a vida, a californiana Alice B. Toklas, para narrar o agitado cotidiano da casa na Rue de Fleurus, onde a autora, transformada em personagem, vivia. É na casa em Paris de Alice B. Toklas e Gertrude Stein que grandes nomes do modernismo nas artes plásticas se encontravam, como Matisse e Picasso, além de lendários autores norte-americanos expatriados, como Ernest Hemingway e Ezra Pound. Escrito em seis semanas, Autobiografia de Alice B. Toklas foi um sucesso repleto de controvérsias e que, graças à força da linguagem de Stein, enganosamente simples, mantém seu charme até hoje. A tradução de José Rubens Siqueira é reeditada pela Penguin/ Companhia das Letras. Você pode comprar o livro aqui.

A nova edição revista e ampliada de O cão mentecapto, de Otávio Linhares.

O cotidiano cru, violento e irônico de crianças e adolescentes da cidade de Curitiba nos anos 1980/90. A obra expõe as desilusões, o bullying e a perda da inocência de jovens imersos em estruturas familiares falidas e ambientes urbanos hostis. O livro retrata pequenas contravenções, assaltos cotidianos, a descoberta da sexualidade e o descaso social sob a lógica particular da infância e juventude. O livro se destaca por sua estética áspera e ritmo acelerado, com uma narrativa pulsante que dispensa o uso formal de vírgulas e letras maiúsculas. Uma escolha técnica que cria um fluxo de consciência frenético, simulando a pressa, a confusão e a fúria típicas da adolescência. O vocabulário é fortemente amparado no dialeto e em gírias de Curitiba, dando autenticidade geográfica e social aos contos. O cão foge inteiramente do clichê da infância idílica. A nostalgia, quando aparece, é evocada de maneira crua e realista, onde o leitor pode testemunhar situações vulgares e trágicas como o furto de pequenos objetos em lojas de departamento; o impacto psicológico de sofrer assaltos e violências de todos os tipos de pessoas mais velhas, inclusive da própria polícia; a busca por identidade em meio a lares desajustados dominados por pais ausentes ou alcoolismo. A grande força do livro está em não julgar suas figuras. Os adolescentes e seus familiares não são desenhados como vilões ou vítimas puras, mas como indivíduos que pedem socorro de maneira errática. O livro é um retrato seco sobre a busca por lógica em um mundo adulto caótico e violento, sem lógica alguma. O livro sai pela editora Moinhos. Você pode comprar o livro aqui.

RAPIDINHAS 

O amor segundo Alfonsina Storni. A 7Letras publica os 67 poemas em prosa que a poeta argentina versa acerca do tema-título do livro. A tradução é de Wilson Alves-Bezerra.

Aglaja Veteranyi reeditada. O único livro publicado em vida pela escritora romeno-suíça ganha nova edição entre os leitores brasileiros. A tradução de Fernando Klabin, Por que a criança cozinha na polenta é republicada agora pela Relicário Edições.

A biografia de Noémia de Sousa. Na passagem dos 100 anos do nascimento da poeta moçambicana, a editora Kapulana publica a biografia escrita por Nelson Saúte Se me quiseres conhecer.

OBITUÁRIO

Morreu Maria do Carmo Ferreira.

Maria do Carmo Ferreira nasceu no dia 21 de dezembro de 1938, em Cataguases, Minas Gerais. Desde cedo, mudou-se para Belo Horizonte, onde fez os estudos secundários e Graduação em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais. Nos Estados Unidos, realizou um mestrado em Literatura Comparada pela Universidade de Illinois. Ao regressar ao Brasil, atuou em diversas frentes com a palavra: trabalhou com Décio Pignatari; na Rádio MEC; na publicação de poesia em jornais e periódicos literários, sobretudo no Suplemento Literário de Minas Gerais, mas também nas revistas Invenção e Ímã; na tradução. Neste último ofício, traduziu poemas de Emily Dickinson, Pablo Neruda, Federico García Lorca, Paul Eluard, Paul Verlaine, William Butler Yeats, entre outros. É nesse período que estabeleceu vínculos com diversos nomes da literatura; além de Décio, Carlos Drummond de Andrade, Henriqueta Lisboa, Ana Cristina Cesar, Murilo Rubião, e outros. Sua obra só será apresentada em livro muito tardiamente. Poesia reunida (1966-2009) compila seus três livros: Cave Carmen, Coram Populo e Quantum Satis. No comunicado acerca do falecimento da poeta, divulgado pela casa editorial que nos deu a conhecer sua obra, Silvana Guimarães, uma das organizadoras da poesia reunida, destacou: “Satírica e lírica, sarcástica e concreta, sabia alcançar tanto o sublime quanto o assustador. Sua poesia não se deixava conter por um único tom, nem por uma única forma de estar no mundo.” Em 2025, Maria do Carmo Ferreira foi reconhecida com o Prêmio da Academia Mineira de Letras. Ela morreu no dia 12 de agosto de 2026, no Rio de Janeiro.

DICAS DE LEITURA

1. Pequenas glórias, de Mary Oliver (Trad. Patrícia Lino, Círculo de Poemas, 264p.) Depois do Letras dar a conhecer aos leitores brasileiros algo da poesia de Oliver, saiu este livro que reúne três dos seus títulos: A folha e nuvem, O que sabemos e Vida longa. É a oportunidade de conhecer mais de uma lírica que atuou na contramão dos modelos então dominantes na cena poética estadunidense. Você pode comprar o livro aqui

2. Malina, de Ingeborg Bachmann (Trad. Carla Bessa, Estação Liberdade, 352p.) O único romance da escritora austríaca e o primeiro de uma trilogia nunca finalizada, lemos aqui uma mulher que se debate entre memórias e sonhos, luz e sombras, a fim de dizer da subjetividade e do trauma femininos. Você pode comprar o livro aqui

3. Floresta de lã e aço, de Natsu Miyashita (Trad. Eunice Suenaga, Zain, 200p.) Um jovem, a descoberta de uma paixão pela música e pelo trabalho de afinar pianos ou a história de como a arte pode atuar e modificar profundamente o significado da vida. Você pode comprar o livro aqui

VÍDEOS, VERSOS E OUTRAS PROSAS

O letrista Paulo Leminski. Está disponível no Spotify mais onze canções do poeta curitibano. É o segundo disco do projeto Leminskanções que reúne músicas compostas por Leminski. Um trabalho produzido por Gustavo Ruiz Chagas, dirigido por Estrela Leminski e Téo Ruiz. É possível ouvir Completamente poeta aqui

Clarice no cinema. O longa-metragem Rio de Clarice, dirigido por Maria Luiza Aboim, Eunice Gutman, Nicole Allgranti, Taciana Oliveira e Barbara Kahane, adapta os contos Feliz aniversário, Mal-estar de um anjo, A bela e a fera ou A ferida grande demais, Amor e Preciosidade. O roteiro é assinado por Nicole Allgranti em parceria com Teresa Montero, biógrafa e uma das principais pesquisadoras da vida e da obra de Clarice Lispector. A produção é da Taboca Produções Artísticas e da Aboim Produções e Artes, com distribuição da Bretz Filmes. Veja o trailer.

Aproveitando o efeito Nolan à volta da Odisseia, o Metropolitan Museum of Art, em Nova York, colocou em exposição um fragmento de papiro de 2.300 anos contendo trechos do épico de Homero. A peça que passou a integrar a Galeria 162 a partir de 5 de agosto remonta a cerca de 285–250 a.C. e foi produzida no Egito, inscrita com carvão e água aplicados com um estilete sobre papiro; doada ao Met pelo Egypt Exploration Fund em 1909, é considerada o primeiro fragmento ptolomaico da Odisseia já descoberto. Esse fragmento é relevante ainda pela divergência em relação ao texto que se lê hoje: o papiro traz três versos do Canto XX que não aparecem na versão padrão preservada atualmente, evidenciando que já existiam variações locais da obra no século III a.C. e explicando, em parte, a própria origem do poema, de que a Odisseia foi originalmente recitada por rapsodos orais, o que deu origem a diferentes versões do texto ao longo do tempo, incluindo a documentada nesse fragmento específico.

BAÚ DE LETRAS

Aproveite para conhecer mais alguns detalhes da biografia e da obra de Vinicius de Moraes, destaque neste Boletim. Entre os textos reunidos aqui, está um conjunto de publicações que sublinharam o centenário do poeta.

DUAS PALAVRINHAS

A História é uma ficção controlada.

— Agustina Bessa-Luís
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