Das elaborações do luto em Vida doçura, de Natércia Pontes

Por Douglas Sacramento


Natércia Pontes. Foto: Renato Parada/ Reprodução a partir de O Povo.



I
A vida de professor tem dessas: ao final da aula, ficam estudantes tirando dúvidas, enquanto os atrasados querem saber o que foi dito e explicado antes de chegarem. Num certo dia, um desses permaneceu e me fez um pedido: queria que eu escrevesse a introdução para o livro que iria publicar. Disse que aceitaria e pedi que me enviasse via e-mail. No mesmo dia, ao chegar em casa, me deparei com sua mensagem e o arquivo anexado.

No meio do mês, quando as coisas estavam menos aceleradas, peguei o texto para ler. Era um livro híbrido entre prosa e poesia, escrito por um estudante estrangeiro, que girava em torno da elaboração do luto pela morte da mãe, falecida às vésperas de sua saída do continente africano rumo ao Brasil. Li e comecei a escrever a introdução. Noutro desses encontros ao fim da aula, perguntei sobre o luto e a figura materna. Ele encerrou a conversa de forma assertiva, dizendo que tudo o que escrevia girava em torno do buraco deixado com a morte da mãe.

Esse episódio me veio à cabeça quando terminei de ler Vida doçura, de Natércia Pontes. A escritora que nasceu em Fortaleza e vive de São Paulo publicou anteriormente Copacabana Dreams (2012), livro de contos com o qual foi finalista do Prêmio Jabuti, e Os tais caquinhos (2021). O romance de 2026 a que me refiro apresenta uma estrutura que desafia o leitor. Dividido em três partes — “Tela”, “Espelho” e “Lente” —, aborda a escrita de um livro e incorpora trechos dos contos produzidos pela protagonista ao longo da narrativa. Todo esse jogo gira em torno de como o luto pela morte da mãe reverbera na produção literária, mais precisamente nos caminhos trilhados pela narradora, que ecoam essa ausência.

Assim, somos apresentados a Jocasta, uma escritora que mora num apartamento pequeno, sujo e desleixado, em São Paulo, na companhia de seu gato, Argos Panoptes. Ela está escrevendo um livro de contos, intitulado “Tão real”, também dividido em três partes — “Criança”, “Bicho” e “Montanha”—, cujas narrativas abordam, de forma direta e indireta, o luto pela morte da mãe e a desordem provocada por essa perda, o mesmo que é vivido por Jocasta, que perdeu a figura materna de forma abrupta e traumática aos sete anos. Ao escrever, a protagonista tenta elaborar esse vazio. Assim, o livro de contos também é dividido em três partes 

O leitor acompanha Jocasta escrevendo seus contos e fissurada em vídeos de um canal do YouTube, comandado por Jovana, uma mulher dona de casa, casada e mãe de uma menina, que compartilha sua rotina de limpeza. Jovana surge como uma personagem capaz de desestabilizar Jocasta e trazer à tona aquilo que já estava latente na escrita dos contos. As tentativas de aproximação e identificação, construídas justamente pelo contraste entre as duas mulheres, levam a protagonista a tomar decisões que culminam no furto de objetos e, principalmente, a enfrentar o abismo em que se encontra: viver para terminar o livro e tentar compreender, a qualquer custo, a mãe e as motivações que levaram à morte dessa personagem fantasmática.

II
Christian Dunker, em Lutos finitos e infinitos (2023), dedica um subcapítulo aos lutos espectrais, aproximando literatura e psicanálise. Num determinado momento da discussão, ao analisar extensivamente textos de Freud e ao trazer várias explicações de Lacan, algo chama a atenção: a construção do espectro por meio do luto não elaborado ou, melhor dizendo, do “luto não reconhecido”, conceito que o autor denomina de “luto espectral”. 

Para o psicanalista, os exemplos desse tipo de luto aparecem de diversas formas na literatura, afinal, o sentimento requer uma narrativa, instaurada em torno do objeto perdido. Assim, a literatura consegue representar aquilo que o sujeito não consegue nomear, podendo se assumir como uma forma de elaboração e de partilha do luto com o outro. É o que encontramos em Vida doçura. 

Jocasta, a protagonista do romance de Natércia Pontes, passa o tempo tentando nomear e elaborar o que sente, compreender como essa falta a afeta e a constitui. A figura materna morta é um fantasma que ronda todo o romance: “A impressão que eu tenho é que minha mãe já nasceu fantasma” (p. 108). O leitor percebe essa relação nos questionamentos de Jocasta a si mesma, mas que, na verdade, são pensamentos endereçados à mãe, impossibilitada de responder.

“Quantas vezes perguntei onde estava minha mãe depois que ela me colocou sozinha no assento do avião da Vasp, aos cuidados da aeromoça, quantas vezes, depois de chegar a Fortaleza, quantas vezes eu perguntei, eu gritei, cadê minha mãe, cadê minha mãe, cadê minha mãe, até me acostumar? Qual foi o tamanho do amor que você me deu? Por que será que você ainda vive dentro de mim? Será por causa do amor tão grande que eu sinto por ti? Isso não acaba nunca. Queria você viva, me vendo jogar xadrez e dançar balé.” (p. 73) 

A escrita do livro de contos coloca Jocasta diante de um lugar escamoso, marcado por muitas querelas: transpor em palavras — e, consequentemente, nas estruturas móveis e múltiplas das narrativas curtas — o fantasma da mãe. Portanto, nesse quesito, o romance coloca a personagem diante da agonia da escrita, que ora é visceral, com vários contos sendo escritos ao mesmo tempo, ora se mostra lenta, dolorida e acompanhada de sintomas físicos, como a prisão de ventre, uma metáfora da dificuldade de elaborar e lançar ao mundo determinados assuntos: “É isso que tenho que fazer com minha mãe, Maria. Achar as peças, encaixá-las. Reconstruir os destroços” (p. 62).

Ao revisitar a infância e sua situação atual, Jocasta faz do apartamento um reflexo de sua subjetividade. A bagunça e a sujeira espelham o modo como o luto desorganiza sua existência. Nada está limpo ou em ordem; apenas ela e Argos Panoptes, com seus olhos inquisidores, observam tudo — uma alusão direta ao personagem da mitologia e da tragédia grega. Essa reflexibilidade também aparece na estrutura do romance, dividido em partes que remetem a objetos capazes de refletir imagens, e no espelho tripartido do banheiro de Jocasta, diante do qual a personagem mantém um diálogo constante com a mãe e, simbolicamente, com a youtuber

“Alta madrugada. Jocasta assiste de novo a um vídeo de Duda caminhando em cima das costas da mãe. No começo do vídeo, Jovana tinha reclamado que andava com muita dor nas costas por causa do incessante trabalho de casa. Jocasta se emociona com a cena e até cai uma lagriminha pouca. Ela também andava nas costas de Maria. Onde era a dor dela? ‘A dor da mãe era no corpo inteiro. Por dentro e por fora’, conjectura. Jocasta decide parar de escrever, está desestabilizada. Acende um cigarro antes de desabar no sofá.” (p. 80)
 
III
Jocasta e Jovana são personagens distintas e complementares. Jovana instaura em Jocasta justamente aquilo que lhe falta. Para além do imaginário da família de comercial de margarina — intensificado pelas imagens produzidas na internet —, ela representa uma ideia de limpeza, organização e maternidade que a protagonista não consegue alcançar, apenas quando escreve. Ao assistir aos vídeos, Jocasta rememora sua relação com a mãe morta, estabelecendo um vínculo de natureza especular.



Por isso, ao longo do romance, a tentativa de aproximação faz com que Jocasta deseje, a todo custo, conquistar objetos e até mesmo o cabelo de Jovana. Tudo isso é conduzido por um humor ácido, que faz rir da desgraça alheia enquanto mantém a morte e seus efeitos nos viventes pairando em cena. 

O trajeto narrativo da protagonista é especialmente interessante porque reúne uma personagem complexa com muitas camadas desconfortáveis: a prisão de ventre, o vício em Vick Vaporub, o uso das roupas da tia morta, a mãe perguntando a cor das partes íntimas da filha — “De que cor é seu cu? O meu é marrom.” (p.12) — e o hábito de arrancar pelos do corpo. Essa estranheza também se transmuta para a estrutura do romance, singular ao combinar a presença de um livro de contos e a construção em entradas breves que lembram anotações rápidas num grande fluxo de consciência.

“Acha charmoso e excêntrico ser escritora filha de mãe suicida. Mesmo que ela tenha morrido cedo de um câncer agressivo, a história que ela vai inventar para todos é que sua mãe fez o que tinha que ser feito com as próprias mãos. [...] A filha, quando soube, não se questionou, não se rebelou, acatou a decisão da mãe. Depois é que veio o deserto. [...] Aí cresceu sem mãe do jeito que deu. Deu certo, só esquece de almoçar às vezes. Ficou um buraco fundo que ela resolveu com a escrita. Tem o buraco do peito também. Tenta resolvê-lo com o gato.” (p. 37) 

Vida doçura é um romance que fica e fixa. Terminei a leitura e continuei pensando em Jocasta, tentando interpretar muitas das imagens construídas por Natércia Pontes. A autora não fornece explicações fáceis, ao contrário, deixa muitas coisas em aberto, exigindo do leitor um trabalho de elaboração semelhante ao de Jocasta. O romance tira o leitor da zona de conforto e o coloca diante da complexidade que só a perda de alguém pode produzir. Esse talvez seja o grande trunfo da obra e uma das razões pelas quais este livro se destaca na literatura brasileira contemporânea.


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Vida doçura
Natércia Pontes
Companhia das Letras, 2026
176p.

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