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Mostrando postagens com o rótulo Henry James

O que Poe sabia de James

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Por Rafael Gumucio   Quando jovem, Henry James era uma leitura séria. Gente que fala de romances “armados”, estrutura, mudança de narradores e outras sutilezas desse tipo. Pessoas que intimidam pessoas tão desarmadas quanto eu, então inteiramente dedicadas a ler secretamente as páginas de Artaud e Jarry. Sentia-me destinado, pensava, ao outro grande estadunidense do século XIX, Edgar Allan Poe, traduzido por Baudelaire e Cortázar, meus ídolos na época. Nenhum dos contos de Poe, no entanto, conseguiu me assustar tanto quanto A outra volta do parafuso , de James, que fui obrigado a ler na escola. Assustava-me precisamente as qualidades contrárias às dos contos de Poe: o indeterminado, a imprecisão de seu fantasma e seus pecados sem corações delatores, ou gatos pretos, ou pêndulos assassinos; crianças sozinhas, governantas, jardins, o mais normal, o mais banal, o mais assustador.   O terror de Poe nunca me assustou e a psicologia nos romances de James sempre me pareceu fantasiosa...

Os irmãos sejam unidos: William e Henry James

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Por Rodolfo Biscia Henry e William James. Foto: Arquivo Bettmann   Estávamos em meados dos anos 1980 e, num curso sobre Leibniz na Universidade de Saint-Denis, Gilles Deleuze notou a ausência de um estudo conjunto sobre os irmãos James, Henry o literato e William o filósofo. Entre seus alunos estava David Lapoujade, que ficaria encarregado de tecer esses fios em Ficções do pragmatismo (2008), um livro hospitaleiro com leitores de ambos os lados.   Ao mesmo tempo carteiro e contrabandista, Lapoujade coloca em prática um sistema de complementações. Se o psicólogo William persegue o imediatismo da experiência pura, o romancista James se deleita em seu caráter indireto (ele é um mágico da obliquidade). Se William expôs sua filosofia através de uma espécie de relato de aventuras, seu irmão transformou o romance na forma reflexiva por excelência. Os processos narrativos nas ficções de Henry lançam luz sobre a teoria de William da relação pragmática entre vontade, crença e verdade. ...

A arte do romance

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Por Antonio Muñoz Molina Terminei de ler The other house e fiquei um tempo com o livro nas mãos, sem fazer nada, deixando que o romance se fixasse em mim, como quando termina um filme no cinema e alguém ainda está tão tomado pelo que viu que não se move do seu assento e não tem vontade de se levantar nem de sair logo à rua. (Deveria existir momentos assim num concerto, ao final de uma obra, parêntesis respeitosos de silêncio, antes do frenesi algo exibicionista dos aplausos). Depois de terminar Ther other house e de ficar paralisado por um tempo voltei ao começo e me concentrei de novo na leitura, agora com a clareza da segunda vez, que me permite dar conta de todos indícios que Henry James vai insinuando desde a primeira página. Sempre se está distraído quando se começa um romance. É como entrar da rua num lugar em penumbra. Há pormenores fundamentais que não se ver logo de primeira: motivos que se enunciam rapidamente, mas que o ouvido não sabe distinguir. Por iss...

O Mentiroso, de Henry James

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  Por Pedro Belo Clara O seu maior biógrafo, Leon Edel, não teve dúvidas quanto à qualidade da breve novela que hoje se apresenta: "Um grande êxito", diria oportunamente. Criada pela mão de um escritor que nasceu norte-americano e faleceu inglês, e que nos entretantos publicou, de romances a narrativas curtas, trabalhos tão emblemáticos quanto Daisy Miller (1878), Os Europeus (do mesmo ano), Washington Square (1880) ou O Retrato de uma Senhora (1881), não goza, apesar de ser digna dos seus louvores, do mérito das produções de proa de Henry James, actualmente creditado como um dos maiores novelistas da língua inglesa, nomeado para o Prémio Nobel em 1911, 1912 e 1916 – os derradeiros anos da sua vida. Mas nem sempre foi assim. Na verdade, James vestiu muitas vezes, mesmo que não o desejasse, o traje do malfadado autor, embora tenha arduamente lutado pela aceitação da sua literatura junto da mais exigente crítica – ao ponto de, como o próprio admitira a seu ...

Henry James, entre a autoafirmação e o mascaramento

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Por Christopher D Michael  No dia 28 de fevereiro de 2016 cumpriram-se cem anos da morte de Henry James em Londres, outro acaso de celebridade misteriosa na história da literatura. Como foi possível que este romancista dedicado a um assunto antiquado e até banal, como a descoberta da Europa por uma elite estadunidense da Costa Oeste se converteu num recurso naturalmente inesgotável e para a indústria acadêmica da pátria que abandonou na busca do mais refinado dos cosmopolitismos? Para buscar uma resposta recorri a um dos primeiros estudos (uma edição pirata, certamente) dedicados ao romancista, o escrito por Rebeca West, a mãe do filho de H. G. Wells e a assombrosa cronista do México e dos Bálcãs, publicado pouco depois da morte de Henry em 1916. E também o apetitoso estudo Monopolizing the Master. Henry James and the politics of modern literary scholarship (2012), de Michael Anesko, uma documentada denúncia das trapaças praticadas por Leon Edel (1907-1997), se...

Henry James, o abismo entre a Europa e a América

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Por José Andrés Rojo O jovem Henry James. Foto: Alice Boughton/Corbis Já quase no final de  O início da maturidade  (título inédito no Brasil, tradução livre a partir do espanhol), Henry James se ocupa de um encontro com Louisa Lady Waterford, uma fascinante dama da velha aristocracia. Refere-se a ela em termos de uma rendida admiração, deslumbrado pelo preciso e finíssimo conhecimento que têm da pintura veneziana e de outros mestres como Ticiano e Rubens, e se vangloria de haver chegado a tempo para conhecer os restos da velha ordem,  o que restou desse Ancien Régime que liquidou a Revolução Francesa. Lady Waterford é uma das últimas sobreviventes de um mundo onde uma mulher como ela podia alcançar “tais alturas no ar extático da sabedoria”. O início da maturidade reúne as recordações que Henry James conserva de suas primeiras impressões sobre a Inglaterra depois de desembarcar em Liverpool em 1870 e é, também, uma reconstrução do final da juventude: estava a...