Postagens

Assim caminha a humanidade, de George Stevens

Imagem
Saga retrata contraste de valores no Texas e registra o terceiro e último desempenho de James Dean Assim Caminha a Humanidade é o terceiro título da série de George Stevens que retrata a formação da sociedade americana (os anteriores são Um lugar ao Sol , de 1951 e Os Brutos Também Amam , de 1953). O filme de 1956 acompanha a vida de um grande proprietário de terras e criador de gado do Texas, Jordan Benedict (Rock Hudson), e de sua esposa, Leslie Benedict (Elizabeth Taylor), ao longo de mais de 20 anos, passando pelo nascimento de seus filhos e de seus primeiros netos. Como no livro de Edna Ferber, no qual foi baseado, a descrição da vida da família texana reflete, em paralelo, a história do governo, da economia e moral locais. Assim, ao fazer o retrato do fazendeiro poderoso, conta-se como se deu o crescimento do petróleo como centro da economia do estado. Também são discutidos os valores tradicionais do protagonista contrapostos, em geral, aos da esposa, originári...

Machado de Assis, histórias sem data, papéis avulsos

Imagem
Por Pedro Fernandes Por vaidade, a mãe impede o casamento da própria filha. O drama do maestro que não consegue compor suas próprias músicas. A igreja em que os fiéis praticam o bem às escondidas. Histórias sem data  é um novelo de enredos machadianos publicado em 1884, no auge da maturidade intelectual do escritor brasileiro, dada a publicação de seu romance Memórias póstumas de Brás Cubas , de 1881, considerado a obra-prima e o divisor de águas na sua escrita. O debate em torno dos regimes políticos, dos bons e maus costumes – estes últimos, principalmente – da sociedade carioca e brasileira, acerca das fraquezas, tiques maníacos, loucuras e razões humanas; os ciúmes e a criação da célebre trama em torno de uma traição ou não – nunca se soube até hoje – em que é pintado a letra e papel a Monalisa brasileira, que semelhante à outra, a de Da Vinci que jamais se descobriu o enigma do seu sorriso, jamais se descobriu o enigma dos olhos de ressaca de Capitu; mesmo que depoi...

Zila e eu

Imagem
Por Manoel Onofre Jr.  Zila Mamede com João Cabral de Melo Neto Já conhecia Zila Mamede de nome quando tive com ela o primeiro contacto pessoal. Foi por volta de 1960. Trabalhava eu na Biblioteca da Faculdade de Direito de Natal, como auxiliar de bibliotecário, e Zila, já então diplomada em Biblioteconomia, aparecia por lá, vez ou outra, para orientar a diretora da biblioteca, D. Dudésia, uma senhora corpulenta, de voz e gestos dramáticos, rádio-atriz nas horas vagas. Eu guardava na gaveta um poema (?), o primeiro até então, único que cometera. Certo dia, criei coragem e mostrei-o a Zila. Precisava do aval da poeta, a festejada autora de Rosa de Pedra  e Salinas . Ela ia passando, apressada, diante do meu birô, e mal se deteve para receber o “poema”; leu-o, rapidamente, e entregou-me de volta, com um reparo quanto à utilização da palavra “embalsamado”. Nada mais me disse, nem lhe foi perguntado. Minhas veleidades de poeta morreram naquele instante. Alg...

O extraordinário e o subtil em Saramago

Imagem
Por James Wood O filósofo Bernard Williams escreveu um artigo, “O Caso Makropulos”, onde argumentava que a vida eterna seria tão entediante que ninguém a conseguiria suportar. De acordo com Williams, a monotonia que define um ser eterno representaria um infinito deserto de experiências repetitivas que o levaria a uma existência esvaziada de qualquer definição. Essa é a razão que leva, na peça de Karel Capek, da qual Williams retirou o seu título, Elina Makropulos (com os seus 342 anos de idade) a deixar de beber o elixir da eterna juventude, o que faz desde os seus 42 anos, optando por morrer. A vida precisa da morte para se realizar; a morte é o período negro que define a sintaxe da vida. Em “As Intermitências da Morte” (...), José Saramago, um escritor de longas e ininterruptas frases, produziu uma narrativa que funciona como uma experiência na área de Capek/Williams. (O romance não faz alusão a nenhum dos dois). À meia-noite de uma véspera de Ano Novo, num país sem nom...

70 anos de Vidas Secas

Imagem
Por Fabiano Mendes   Obviamente, o título deste artigo se refere ao livro de Graciliano Ramos, escrito em 1938. No mesmo ano em que se comemora o centenário de morte de Machado de Assis, aclamado o maior escritor brasileiro, comemora-se também os 70 anos de uma obra imortal: Vidas Secas, do alagoano Graciliano Ramos – para muitos igual em valor a Machado, mas que, diferentemente deste último, fundador da Academia Brasileira de Letras, ignorou a ABL e fez-se imortal ao aliar a profundidade de seus escritos a uma vida cheia de marcas das angústias, uma vida que foi até certo ponto também muito seca.   Graciliano Ramos de Oliveira nasceu em Quebrangulo  –  AL, em 1892 e morreu em 1953, no Rio de Janeiro. O conjunto de sua obra acompanha de perto a trajetória de sua vida. Afinal, como ele mesmo sentenciou, só escrevia o que via e só sentia o mandacaru. Assim, suas principais personagens e suas memórias e crônicas, todas de fortíssimo teor realista são o resultado dir...

Machado de Assis, memórias póstumas

Imagem
Por Pedro Fernandes Cena do filme  Memórias póstumas , de André Klotzel. Memórias póstumas de Brás Cubas , 1881, é a obra do auge da carreira literária do escritor brasileiro Machado de Assis: assim define sua crítica mais especializada. Autor da fina ironia, da fina análise da alma, da fina análise da sociedade e das relações sócio-burguesas, tudo isso me leva apropriar-se do título da obra de Machado para retomar alguns aspectos da vida do escritor que neste setembro de 2008, centenariza-se . Pode não ter tido o reconhecimento merecido ainda em vida – e até teve para sua época –, mas a obra de Machado de Assis é marco na literatura brasileira e eterniza-se ao lado dos grandes clássicos literários. Isso porque o escritor inaugura na língua portuguesa brasileira um estilo novo de se escrever romance num estilo novo de se usar a língua escrita. Machado, um mulato, foi uma criança pobre, neto de escravos alforriados – o Brasil só libertaria seus escravos em 1888, com a lei...