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A solidão imortal do vampiro (I)

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Por Márcio de Lima Dantas Cena  Nosferatu , de F. W. Murnau (1922). Lua: ergue-se ao crepúsculo            O mito do vampiro encontrou no final do séc. XX e início do XXI um substrato socioantropológico que o fez não apenas se revigorar, mas, sobretudo, engendrar novos arranjos e adquirir uma feição com contornos extremamente marcados, integrando, em definitivo, o conjunto dos principais mitos que constelam o patrimônio imagético do ocidente. Com efeito, o onirismo do mito do vampiro foi bastante tonificado nos últimos cem anos. Revigorado e modalizado de diversas maneiras e em vários meios, permaneceu preso à aura simbólica da lenda codificada na Transilvânia (em torno do séc. XV) e recriada literariamente na obra de Bram Stocker (séc. XIX). Sem dúvida, o vampiro e suas imagens encontram-se impressos na geografia física e inconsciente, fincando-se como um dos mais populares dentre a inumerável plêiade de seres imaginários que “at...

Os amantes passageiros, de Pedro Almodóvar

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Todos os atores principais reunidos num clique. Os amantes passageiros , de Almodóvar é um retorno do diretor espanhol ao melhor dos seus trabalhos. À primeira vista poderá parecer que deveremos estar diante de uma comédia pastelão; um filme com cara de produção barata regada a um humor escrachado. É bom ficarmos apenas com a segunda impressão. Não se pode zombar de quem tem o pleno domínio sobre aquilo que faz. E mesmo que se desvincule o nome de Pedro Almodóvar do filme, ainda assim sobrarão considerações eficazes para dizer que não está o telespectador perdendo noventa minutos de seu precioso tempo para ver uma coisa qualquer. É evidente que há momentos um tanto fracos da narrativa, como se parecesse estarmos diante de um diretor que quis esticar ao máximo uma cena para enfim alcançar o limite de tempo para um longa-metragem. O que, entretanto, não é bem o caso. Também quem está adaptado às últimas produções do diretor espanhol, como o surreal A pele que habito ou trab...

Ruben G. Nunes e seu admirável livro novo

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Por Thiago Gonzaga Detalhe da capa de O ponto oco , de Ruben G. Nunes, a partir de desenho do artista plástico Marcos Guerra. “O homem tem de se inventar todos os dias” Jean-Paul Sartre Carioca radicado em Natal, Ruben Guedes Nunes, Oficial da Marinha, veio residir na cidade potiguar em 1960 já como 1º Tenente, na Base Naval. E criou raízes, enveredando pela literatura, em estreia com o livro de poemas, Tempos Humanos  (1971) prefaciado por Câmara Cascudo, que exalta a beleza do trabalho literário do jovem escritor. Nos anos 70, Ruben G. Nunes, como passou a assinar-se, dá início a sua saga de ganhador de concursos literários, ao obter duas menções honrosas no Prêmio Câmara Cascudo de 1978 e Prêmio Fundação José Augusto de 1979. Ainda nessa década foi um dos premiados no concurso 5 Contistas Potiguares, promovido pela Fundação José Augusto. Porém, é no início dos anos 80 que o escritor dá um salto significativo na sua produção literária, e entra p...

O “Poema sujo”: a história do poema

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Por Ferreira Gullar Uma das edições de Poema sujo Escrevi o Poema sujo  em 1975, em Buenos Aires, depois de anos de exílio em Moscou, Santiago do Chile e Lima. Se a primeira parte do exílio foi sofrida e atordoante (só me dei conta de que minha presença em Moscou era real, seis meses depois de estar vivendo lá), a última parte - queda de Allende, reencontro traumatizante com a família no Peru - foi devastadora. Transferi-me em 1974 para Buenos Aires, cidade mais acolhedora e próxima do Brasil mas, desgraçadamente, logo a situação política se agravou, desencadeando-se a repressão às esquerdas e aos exilados. À minha volta, os amigos começaram a ser presos ou fugir. Com o passaporte vencido, não poderia sair do país, a não ser para o Paraguai ou Bolívia, dominados por ditaduras ferozes como a nossa. Enquanto isso, a cada manhã, novos cadáveres eram encontrados próximo ao aeroporto de Ezeiza, alguns deles destroçados a dinamite. Sabia-se que agentes da ditadura brasileira t...

Coral, de Sophia de Mello Breyner Andresen

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Por Pedro Belo Clara Lançado ao público pela primeira vez em 1950, Coral  foi o terceiro livro de poesia de uma das mais talentosas mulheres que Portugal já conheceu. De facto, se nos focarmos no campo das letras lusitanas, o nome de Sophia surgirá com o epíteto de "principal referência". Tanto assim é que José Saramago, não em raras ocasiões, sugeriu o nome desta autora como séria candidata a um Nobel que, contudo, nunca viria a lhe ser outorgado. Seja como for, entre aqueles que a viram nasceram para o mundo e para as letras, a qualidade, inovação e talento que lhe são inerentes jamais se apresentam como factores passíveis de dúvida ou de questionamento. A obra em causa, apesar de constituir um testemunho das primeiras aventuras poéticas de Sophia, surpreende pela notável maturidade que apresenta e por, desde logo, apresentar, num traço bem definido, as traves mestras de todo o trabalho poético da autora. Contudo, sublinhe-se o seguinte facto: a edição de que...

A Pilar, que não o deixou morrer

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Por Rafael Kafka José e Pilar. Foto (detalhe) de Sebastião Salgado. Na última sexta-feira do mês de agosto de 2013, mais precisamente no dia 30, houve em Belém um evento de considerável importância para a literatura mundial:o lançamento de dois livros inéditos de José Saramago, traduzidos para o idioma português e publicados pela Editora da Universidade Federal do Pará (EDUFPA), com total aval Pilar del Rio, companheira do escritor presidenta da fundação que leva seu nome.   Os livros em questão são Da Estátua à Pedra e Democracia e Universidade (livros sobre os quais é possível saber mais aqui , no texto de Pedro Fernandes). O evento ocorreu no Centro de Eventos Benedito Nunes, um belo auditório que fica na rua principal da cidade universitária do imenso campus da universidade na capital paraense. A tarde era chuvosa e a tempestade caída alguns minutos antes fizera até mesmo a energia faltar em todo o local, o que me deixou preocupado. Imaginei logo os riscos para...