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O 22 da Marajó

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Por Monteiro Lobato Esse delírio que por aí vai pelo futebol tem seus fundamentos na própria natureza humana. O espetáculo da luta sempre foi o maior encanto do homem; e o prazer da vitoria, pessoal ou do partido, foi, é e será a ambrosia dos deuses manipulada na terra. Admiramos hoje os grandes filósofos gregos, Platão, Sócrates, Aristóteles, seus coevos, porém, admiravam muito mais aos atletas que venciam no estado. Milon de Crotona, campeão na de torcer pescoços a touros, só para nós tem menos importância que seu mestre Pitágoras. Para os gregos, para a massa popular grega, seria inconcebível a ideia de que o filosofo pudesse no futuro ofuscar a gloria do lutador. Em França o homem hoje mais popular é George Carpentier, mestre em socos de primeira classe; e se derem nas massas um balanço sincero, verão que ele sobrepuja em prestigio aos próprios chefes supremos vencedores da guerra. Nos Estados Unidos ha sempre um campeão de boxe tão entranhado na idolatria do ...

Ivan Junqueira

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Em 2000, Ivan Junqueira tornou-se membro da Academia Brasileira das Letras; foi o sucessor de João Cabral de Melo Neto. Foto: O Globo Ao contar a extensa quantidade de papeis assumidos por Ivan Junqueira no território da escrita e o que desempenhou em cada um deles não restam dúvidas de que sua perda registrada no último dia 03 de julho de 2014 é uma lacuna irretocável na cultura brasileira. Como jornalista, primeiro lugar assumido logo depois de abandonar um Curso Superior de Medicina e outro de Filosofia, trabalhou em jornais como Tribuna da imprensa , Correio da manhã , Jornal do Brasil e O globo ; como crítico literário e ensaísta, colaborou com outra leva de jornais e revistas dentro e fora do país; como tradutor, trouxe para o português autores como Marcel Proust, Marguerite Yourcenar, T. S. Eliot e Charles Baudelaire; como poeta, foi galardoado diversas vezes pela sua obra poética Junqueira e tem trabalhos traduzidos nos quatro cantos do mundo. Ainda nesse ofício...

Aversão ao futebol

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Por Lima Barreto Tendo recebido de Porto Alegre, por intermédio desta revista [ Careta ], uma terna missiva do Dr. Afonso de Aquino, meu saudoso amigo, em que ele me fala da “Carta Aberta” que o meu amigo também Dr. Carlos Sussekind de Mendonça me dirigiu, publicando-a sob a forma de livro e com o título O Esporte está deseducando a mocidade brasileira  lembrei-me de escrever estas linhas, como resposta ao veemente e ilustrado trabalho do Dr. Sussekind. Confesso que, quando fundei a Liga Brasileira Contra o Futebol, não tinha, como ainda não tenho, qualquer erudição especial no assunto, o que não acontece com o Dr. Mendonça. Nunca fui dado a essas sabedorias infusas e confusas entre as quais ocupa lugar saliente a chamada Pedagogia; e, por isso, nada sabia sobre educação física, e suas teorias, nas quais os sábios e virtuosos cronistas esportivos teimam em encaixar o esporte. A respeito, eu só tentava ler Rousseau, o seu célebre Émile ; e mesmo a vagabundíssima Educação de ...

Um inédito de Tomas Tranströmer

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Por Pedro Fernandes Também no estado de bem-estar existe a mulher sozinha que bate em seu apartamento com o martelo de suas lágrimas. E aninhado em seu casaco um homem no café que tritura e tritura a mesma palavra no pilão de sua boca. E os meninos do reformatório que se tatuam mutuamente para marcar que pertencem a outra tribo. A presença da beleza pode ser perigosa. A ausência da beleza é mortal. Tomas Tranströmer ainda se faz praticamente inédito no Brasil; de sua extensa obra, e cumprindo uma rápida pesquisa da web acerca de trabalhos seus editados por aqui, não encontrei nenhum, apenas poemas esparsos publicados em blogs como este. Um destaque é a edição portuguesa 21 poetas suecos , organizada por Ana Hatherly e Vasco Graça Moura, publicada em 1981 pela editora Vega. Mas, quando ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 2011, só havia por aqui, segundo relata o site Releituras , apenas um único poema publicado no Brasil; chamado “Poem...

Armando Nogueira, futebol e eu, coitada*

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Por Clarice Lispector "Parece uma torcedora?" Pode se perguntar o leitor diante da grande quantidade de imagens de Clarice Lispector on-line. E a resposta viria logo. "Não!" Mas a autora de A hora da estrela  era botafoguense como declarou várias vezes e falou sobre futebol como é caso dessa crônica. E o título sairia muito maior, só que não caberia numa única linha. Não leio todos os dias Armando Nogueira – embora todos os dias dê pelo menos uma espiada rápida – porque “meu futebol” não dá para entender tudo. Se bem que Armando escreve tão bonito (não digo apenas “bem”), que às vezes, atrapalhada com a parte técnica de sua crônica, leio só pelo bonito. E deve ser numa das crônicas que me escaparam que saiu uma frase citada pelo  Correio da Manhã , entre frases de Robert Kennedy, Fernandel, Arthur Schlesinger, Geraldine Chaplin, Tristão de Athayde e vários outros, e que me leram, por telefone. Armando dizia: “De bom grado eu trocaria a vitória de meu time ...

Das desleituras nas artes ou Quem pagará o enterro, se eu morrer de amores

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por Lee Pontes Pablo Picasso. Mulher com livro.  Quando Aristóteles escreveu sua “Arte Poética”, não desenvolveu ao prazer do acaso critérios de juízo para definir o que é uma obra artística. Ao contrário, realizou uma leitura acurada das obras disponíveis em seu tempo e definiu-as e/ou separou-as dos textos em geral. O juízo de valor erguido tinha por base o processo de representação do mundo redefinido por uma mímese, ou seja, o que se dá pela desrealização do real com vistas à universalização do particular (deve-se entender aqui como particular o estrato retirado do mundo em um determinado tempo e num determinado espaço). O processo de desrealização feito pela Arte (falamos aqui de arte em geral) não seria uma imitação do mundo, porém tratar-se-ia de uma perda do real para focar-se na essência do objeto de discurso concebido pela criação artística. A catarse aristotélica não se trata de uma simples purgação, embora se dê, antes, uma busca por libertação das imp...