O surrealismo pletórico de Marosa di Giorgio
Por Felipe Vieira de Almeida

Quem já se arriscou na leitura do Marquês de Sade descobre o erotismo do francês como quase alheio ao aspecto pornográfico e sedutor esperado tradicionalmente do erótico no sentido em que usa imagens sexuais, narra toda sorte de perversão sem, no entanto, permitir ao leitor se realizar com o que lê da mesma forma que o faz com escritas mais comerciais com este tema.
No Brasil, Hilda Hilst é outro exemplo nesse sentido. Escritora que flertou com o gênero e encontrou na ironia um veio rico em possibilidades subversivas dos clichês dessa literatura aos quais ela dizia se render, mas que, em realidade, ressignifica-os.
Nessa vertente, que é a da verdadeira criação literária, uma escritora uruguaia publicada na Coleção Sete Chaves — constituída por obras da literatura erótica — apresenta uma linguagem erótica desconcertante, cheia de vida e francamente estranha. A autora é Marosa di Giorgio e o livro Rosa mística. Trata-se de uma coletânea de contos da produção tardia da uruguaia falecida em 2004 com tradução de Josely Vianna Baptista e posfácio de Eliane Robert Moraes, editora da coleção.
Di Giorgio não conta histórias eróticas. A força do seu texto é a criação de um mundo surrealista pletórico onde o ato sexual e o erotismo são impulsos que colocam em movimento sua literatura: “Mas ouviu a si mesma, com surpresa, dizer: — Pari de tarde; só uma vez. Não vou conceber mais. Fiz isso uma vez, e só. Eu sei como fazer. Fiz outra vez.”
Ao abrir o livro, o leitor é seduzido para uma jornada absolutamente imprevisível, arrastado por um encadeamento de eventos insólito, surpreendente e, por vezes, sem sentido. Mas, a autora adota um desenvolvimento tão seguro de seu aparato literário que o estilo e as imagens geram uma sedução justamente a partir dos elementos disruptivos com os preceitos tradicionais da literatura erótica.
Essa ruptura de Marosa com o erotismo comercial se apresenta através de uma visão irônica e niilista diante dos entreveros sexuais de seus personagens. Os encontros se dão em um mundo estranho onde tudo ganha vida, se multiplica e perde contornos claros, porém reiteradamente nos coloca diante de mulheres que ora são submetidas, ora são testemunhas, ora são participantes entusiasmadas do que fazem sexualmente com seus corpos.
Com Rosa mística, a autora pisa um território original, mas movediço e a tensão construída com a inconsistência do seu universo narrativo é uma realização que poucos escritores conseguem alcançar. Manter um leitor interessado oferecendo exclusivamente o oposto de suas expectativas é um jogo que demanda maestria.
“Por fim, pari trigêmeos, do sexo masculino e do feminino.
E voltei a partir trigêmeos.
O último filho se originou num seio; dei-o à luz pelo mamilo.”
Os contos desse pequeno volume brilham no excesso, nesse sentido, pensando no erotismo como uma das vias de dispêndio. Marosa é expoente inequívoca da literatura erótica. Suas imagens caleidoscópicas multiplicam personagens, órgãos, criaturas e extrapolam o que há de sexual de forma tão recorrente e este se trata mesmo de método e o caminho seguido por ela com um desconserto irônico que não se alcança fortuitamente.
A subversão literária de Rosa mística para com um gênero que se supõe subversivo faz lembrar a incursão de Hilda Hilst na medida em que essas autoras criaram uma abordagem pessoal na qual os incautos não alcançam o que se quer dizer e se dão por satisfeitos com as imagens e artifícios sem se embrenhar no que está além do enredo.
A curadoria de Eliane Robert Moraes não decepciona e nos oferece mais um título digno de coleção. Marosa di Giorgio merece as releituras e o cuidado renovado recebido pela sua obra na última década, mas como toda literatura erótica que realmente vale a pena, também é uma escrita que transborda as fronteiras de onde tentam a encaixar. Há nela mais do que o rótulo para quem saber enxergar além da multiplicidade sedutora desse pequeno livro.
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Rosa mística
Marosa di Giorgio
Josely Vianna Baptista (Trad.)
Carambaia, 2023
180 p.
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