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Anton Tchekhov: o monge negro

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Por Crypt Vihâra A literatura russa é reconhecida universalmente como uma das mais ricas em vivências humanas. É uma literatura de fundo fortemente realista, egocêntrico e psicológico. O indivíduo nela se absorve, se concentra na radical manifestação de si próprio, sem recato e com tal indiscrição de causas e de sentimentos que se inclina, se rende de maneira essencial. Quase todos os escritores russos têm o objetivo de plasmar na concepção de suas personagens a alma russa, tão autênticas que não se parecem a outras pessoas apesar de vivências e valores comuns a todos os seres humanos. Há nelas certa falta de pudor literário que é, talvez, sua força e razão primordiais. Passa com as personagens tão plasmadas em suas multifacetadas qualidades, por seu realismo humano, que não podem prescindir de fatores ambientais e outros: da neve, a estepe, a vodca, a sopa de repolho, os ícones, o pathos , se opera uma simbiose geoecológica. Cada personagem está constituída de certa...

Victoria Ocampo: quase um mundo

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Por José Carlos Mainer  Foi uma excelente ideia recolher numa edição boa parte da Autobiografia póstuma de Victoria Ocampo (1890-1979) cujos seis tomos (escritos nos primeiros anos cinquenta) foram conhecidos entre 1979 e 1984 ao lado de uma breve seleção de seus Testemunhos , título geral que deu às suas coleções de artigos. Em 1991, Francisco Ayala havia publicado um inteligente resumo, podemos assim dizer, e em 2002 saiu a biografia hoje já clássica de María Esther Vázquez ( Victoria Ocampo. O mundo como destino , tradução livre), igualmente inteligente e também minuciosa sobre a vida da escritora, editora e mecenas. Como muita razão Ayala escreveu que dilataram sua posteridade, “sua alta posição de grande senhora” e, sobretudo, aquele “estar à margem ou por cima” das coisas em virtude de sua posição de “aficionada e mecenas”. O responsável pela presente antologia (publicada no universo de língua espanhola), o poeta e crítico Carlos Pardo, fez uma boa seleção...

Rosa dos ventos, de Manuel da Fonseca (Parte I)

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Por Pedro Belo Clara Foi já no distante ano de 1940 que a obra agora apresentada conheceu a sua primeira edição. E tudo graças aos esforços empreendidos por amigos íntimos do autor, dos quais se destacavam os proeminentes Alves Redol e Mário Dionísio, que em tal trabalho viram qualidade merecedora de publicação. Dentro do género, somente mais um título seria editado: Planície , em 1942. Curiosamente, seriam estes os primeiros livros de Manuel da Fonseca, que rapidamente se virou para o exercício da prosa (contos e romances, essencialmente). O próprio, aliás, por diversas ocasiões se julgara divorciado da prática do género, mas essa “demissão do poeta”, como referia habitualmente, tardou em acontecer. Talvez por isso o livro que reúne a sua obra poética tenha merecido diversas alterações ao longo dos anos em que o autor era ainda vivo. A versão que aqui apresentamos é, portanto, aquela que considerou “definitiva”, naturalmente distante em certos aspectos daqueles primei...

Boletim Letras 360º #177

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Jorge Luis Borges. Um documentário brasileiro busca os passos do escritor. Contamos assim mais uma semana online. E aqui estão as notícias que apresentamos durante ela no compartimento mais movimentado de nossa casa: a sala de estar no Facebook.  Segunda-feira, 04/07 >>> Brasil: Nova obra de Heinrich Böll  Pela Editora Estação Liberdade, que já havia publicado O anjo silencioso , também do escritor alemão. Heinrich Böll foi o ganhador do Nobel de Literatura, em 1972 e o romance ora publicado é Pontos de vista de um palhaço . A obra traz ao leitor as questões que tensionavam a Alemanha pós‑Segunda Guerra, uma nação em reconstrução, trespassada por sérios conflitos de ordem econômica, religiosa e ideológica. Hans Shnier, personagem central, é um palhaço abandonado pela companheira – fato que o coloca numa rota reflexiva e autodestrutiva até os níveis mais profundos e sutis do conflito alemão. >>> Brasil: Nos passos de Jorge Luis Borges ...

Vozes de Tchernóbil, de Svetlana Aleksiévitch

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Por Marta Rebón e Ferran Mateo Pouco depois do acidente nuclear de Tchernóbil, Svetlana Aleksiévitch sente-se preparada para escrever um novo livro acerca desta catástrofe. “Dei-me conta de que meus pais, eu e toda a gente ao meu redor habitávamos num mundo diferente”. Os pais da escritora viviam na região bielorrussa de Mariz, nas margens do rio Prípiat, a cem quilômetros ao noroeste de Tchernóbil. Multiplicam-se os casos de câncer infantil, grande parte estão ainda enterrados em povoados inteiros evacuados, tudo ainda com suas casas e terras de plantio. É então que aparecem medos até então desconhecidos: sentar-se na grama ou comer uma maçã, ações das mais sensíveis e cotidianas, colocam um dilema insólito: “Pode haver algo mais espantoso? Inaugurou-se uma nova história ecológica da humanidade. Ante isto, o aspecto nacional recua: já não importa se sou bielorrussa ou russa, mas que sou representante de uma espécie biológica que pode ser extinta como se extinguiram os dinossa...

Sobre Doutor Jivago, de Boris Pasternak

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Por Christopher D Michael  Doutor Jivago , grande livro ou romance ruim? Tantos anos depois de sua publicação, a pergunta não tem uma resposta mas construí-la nos permite entrar num mundo encantando e titânico onde a herança épica do romance compete com sua dissolução vanguardista, onde se refaz a antiga querela da prosa contra a poesia e presenciamos o choque entre a história e a natureza.  A matéria em que ocorrem estes antagonismos essenciais é a Revolução Russa e a personagem principal é Pasternak, quem atravessou a pior das épocas em que poderia viver um escritor para, de maneira inverossímil, morrer em casa, próximo de sua mulher e de sua amante, atendido pelos melhores profissionais da medicina soviética.  Sua morte aconteceu poucos anos depois da publicação, pela editora Feltrinelli, na Itália, do seu único romance, obra que também lhe valeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1958, honra recusada depois da ameaça de desterro proferida pelo regime ...