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Boletim Letras 360º #263

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Estas foram as notícias que publicamos durante a semana na página do Letras in.verso e re.verso no Facebook. Por aqui, a novidade é que, na última sexta-feira, estreou Luiz Mendes, que trouxe-nos também uma nova coluna, "Direito à literatura"; o título faz alusão à conferência de mesmo título proferida por Antonio Candido. As crônicas do nosso novo colunista quer conversar com os leitores mais vividos sobre a necessidade de formação de novos leitores. Hilda Machado. Pela primeira vez um livro da poeta ganha edição.  Segunda-feira, 26/02 >>> França: Uma edição que traz novos capítulos para Os miseráveis , de Victor Hugo Trata-se do novo volume da prestigiada coleção Plêiade, da Editora Gallimard. Coordenada por Henri Scepi, a edição revela várias curiosidades sobre Victor Hugo e sua obra-prima: que hesitou por muito tempo até se decidir pelo título da saga, no início, entre Les misères  ("As misérias" ou "As penúrias", em...

Os outros e eu

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Por Luiz Mendes Xuan Ioc Xuan Sobre a transferência de sensações proporcionada pela literatura A literatura, definitivamente, é uma experiência demasiado intimista. E é justamente essa a razão que torna dura a tarefa de levar outros a terem as mesmas sensações suas quando leem obras de ficção, ou mesmo a terem sensações distintas a partir do compartilhamento de suas sensações. Entretanto, é certo que chega um momento em que essa experiência intimista precisa eclodir, ser ouvida por outros, o que me faz crer que a ficção, em um momento posterior a sua interiorização, clama por ser transferida (não é o termo suficiente, mas não me veio um melhor que esse apropriado da psicanálise). Portanto, é, sem dúvida, árdua a tarefa de escolha do texto literário a ser lido e compartilhado com outros leitores, especialmente os jovens, ouvintes sempre atentos, como que esperando um pouco de cais no meio do caos (efeitos da literatura!). Morando em Brasília, e lidando com jov...

Aqui de dentro, de Sam Shepard

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Por Pedro Fernandes Um catálogo de elucubrações. Assim poderíamos compreender o único romance de Sam Shepard e seu último livro. Não há na afirmativa qualquer noção de rebaixamento da obra, como poderá parecer aos olhos mais incautos. Do contrário, é este um título que se filia à longa tradição daqueles que nutrem outra percepção acerca do mundo, isto é, apreendem-no por sua dimensão descontínua, caótica e fragmentária. Essa percepção da realidade enquanto complexo em formação é assinalada desde quando a descoberta de que seus limites não são determinados e sim constituídos pela atuação eu-mundo. Veja que se desfaz o distanciamento há muito forjado de uma relação entre o eu e o mundo. É tarefa contínua, esgotável apenas depois da morte, a de criação de nosso universo. O real é modelável tal como o ator modela a personagem ou o escritor a cosmovisão do mundo figurado no romance e nesse processo o que antes conjugava duas extensões – eu e o mundo – são recriados mutuamente. ...

Trama fantasma, de Paul Thomas Anderson

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Por Pedro Fernandes O primeiro impulso do espectador ante esta narrativa é o de classificá-la como uma história de amor – e ao estilo romântico. Mas, se à primeira vista essa visão pode se estabelecer e mesmo se confirmar, é porque descuidou-se de reparar na estrutura profunda do narrado. O princípio romântico ronda o encontro de Reynolds Woodcock, um conceituado estilista da alta costura inglesa, com a jovem Alma, uma simples atendente de lanchonete – mas só ronda. Que o desenvolvimento dessa relação não confirma em nada a ilusão barata das histórias de amor entre príncipes e plebeias e o que Paul Thomas Anderson propõe é uma inteira desconstrução desse enredo cor-de-rosa e enfrenta de maneira enérgica um potentado que foi colocado em xeque desde o desvanecimento das cores mais vivas do epílogo do foram-felizes-para-sempre. A realidade só está para conto de fadas quando não se é personagem de conto de fadas; nele, algumas verdades, sempre cruéis, porque cruel é a realida...

Escritores russos condenados por pensar fora do imposto para pensar

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Gulag Zombie . Igor Obrosov. Não devem ser poucos os países do mundo em que os arquivos da polícia política sejam relevantes para a história da literatura – afinal este mal que grassa a liberdade de expressão foi e é recorrente em todas as partes do globo. Mas, um deles talvez não deixe de estar entre os principais: o arquivo da União Soviética. A combinação do controle totalitário e o papel que o estado soviético determinava às artes literárias para a vida moral da nação se traduziu no pleno exercício da vigilância e muitos nomes importantes de uma das literaturas mais expressivas de sempre– a bem verdade quase todos os nomes que conhecemos de depois da Revolução –  tiveram duros e sucessivos embates com a polícia, desde a Tcheka, primeira das organizações de polícia secreta da URSS criada por um decreto emitido em dezembro de 1917 por Vladimir Lênin, à KGB. Os resultados, não é preciso dizer, foram letais: para escritores e para a literatura, esta que foi transform...

A cartola do mago Vladimir Nabokov

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Por Andrés Ibáñez De todos os romancistas do século XX, Nabokov é, sem dúvida, o mais inclassificável. Todos sabem, mais ou menos, por que Proust, Woolf, Kafka, Faulkner, Broch, Beckett, Pynchon ou Lezama Lima são grandes, mas a pergunta por que Nabokov é tão grande não é totalmente fácil de responder. Ao contrário de Proust, Joyce ou Faulkner, com suas detalhadas e prolixas recriações de universos em miniatura, seus cenários são quase sempre dolorosamente limitados (um grupo de exilados em Berlim, um triângulo amoroso numa praia do Báltico, um departamento de línguas numa universidade da Nova Inglaterra) e suspeitosamente fantásticos, quando não decididamente fantasmagóricos. Suas personagens são facilmente classificáveis, tal como a divisão da espécie animal que mais amou, em borboletas e mariposas (as mariposas são deslumbrantes, livres e voam alto; as mariposas, cruéis, más e covardes); não têm, nem de longe, a fascinante humanidade de Leopold Bloom ou do Barão de Cha...