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Nísia Floresta: itinerário de uma viagem à Alemanha

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Por Márcio de Lima Dantas Para Zelma, guardiã de Nísia Em agosto de 1856, Nísia Floresta, com 46 anos, empreende, junto com sua filha Lívia, uma viagem por uma região chamada por ela de “velha e poética Germânia”. A escritora, com as impressões dessa estada, em todo o seu vigor físico e sua maturidade intelectual, publica um livro em francês, intitulado Itinéraire d’un Voyage en Allemagne (Itinerário de uma viagem à Alemanha. Trad. Francisco das Chagas Pereira, Natal: EDUFRN, 1982). O livro, organizado em forma de epístolas e diário, resguarda forte poder evocativo das paisagens, dos castelos, cemitérios, estátuas, ferrovias e museus visitados por uma senhora poliglota e detentora de grande distanciamento crítico em relação aos objetos, à história e aos fenômenos que vão se apresentando a sua vista. Polidez e requinte são o que não falta a Nísia, inclusive no registro linguístico nervoso de alguém que parece não permitir a Cronos devorar as lembranças, eivadas de pathos ...

Carnívoras, de Jérémie Renier, Yannick Renier

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Por Pedro Fernandes A renovação do debate feminista no início desta década tem servido para revelar de maneira mais precisa algumas das mazelas propiciadas pelo império do macho cujos efeitos deverão gastar – se alcançarmos – outro tempo além do já percorrido por esta civilização a fim de serem superadas. Se algumas mudanças são sentidas desde os primeiros momentos do levante das mulheres, outras repousam ainda num distante horizonte de expectativas. E se lembrarmos algumas das culturas mais fechadas, as coisas são mais difíceis. Fiquemos com o Ocidente; é aqui que se acumulem gestos que apontam a permanência de algumas condições oriundas do machismo. Nossos desafios são outros, mas não menos grandiosos que os de outras culturas.  Um exemplo dentre as transformações colocadas em evidência para se alcançar, é a o exercício da sororidade. O nome, apesar da aparência de novo é tão antigo quanto a luta das mulheres pelo reconhecimento de existirem plename...

Frantumaglia, de Elena Ferrante

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Por Pedro Fernandes  Em “A frantumaglia”, texto que antecede a existência dessa coletânea, Elena Ferrante estabelece algumas definições de um termo que remonta a fala de sua mãe e emprega para justificar a condição existencial de suas personagens, sobretudo as dos seus dois primeiros romances,  Um amor incômodo  (1992) e  Dias de abandono  (2002); dentre elas, uma parece justificar o título dessa obra: “é uma paisagem instável, uma massa aérea ou aquática de destroços infinitos que se revelam ao eu, brutalmente, como sua verdadeira e única interioridade”. Tal revelação, por natureza caleidoscópica e heteróclita, produz em que aparece tomado de  frantumaglia  uma sensação de vertigem, náusea, desnorteamento dos sentidos, o que recobram do indivíduo uma necessidade de recuperar um estágio fundamental ao não perecimen...

As colunas femininas de Clarice Lispector

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Por Juliana Perez Desde que perceberam a existência das colunas femininas de Clarice Lispector, uma assombrosa inquietação arruinou as certezas dos leitores de literatura. O alvoroço até rendeu um quadro sobre esta faceta de Clarice no programa de maior audiência da Rede Globo, o Fantástico . E a cada nova edição das colunas femininas, organizadas em coletâneas pela professora Aparecida Maria Nunes – recentemente a pesquisadora lançou o Correio para Mulheres – a interrogação reaparece: como uma escritora consagrada, com uma produção literária marcada por uma intensa introspecção, poderia escrever sobre temas tão banais e vazios? Os primeiros escritos de Clarice sobre a mulher surgiram ainda quando era acadêmica da Faculdade Nacional de Direito, no Rio de Janeiro, em 1939. Quando, em 1952, recebeu o convite do amigo Rubem Braga para escrever uma coluna feminina, confessou que não era cronista e que, portanto, não sabia escrever crônicas. O gênero, criado pelo ...

A visita do Dr. Witzig

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Por Lucas Grosso Juliano Kaglis "O que importa, no final das contas, é o afeto." Marina Colasanti I Foi em uma tarde de terça-feira, que o Dr. Inácio Witzig, cardiologista e cirurgião-chefe de um importante hospital paulista, foi visitar o seu amigo de longa data, o Dr. Venâncio Bessa, chefe do setor de radiologia do mesmo hospital. Venâncio, em decorrência de um derrame, vivia, agora, limitado a uma cadeira-de-rodas, e perdera os movimentos plenos das mãos; também veio cobrar seu preço, na forma de um tumor na faringe (combatido com sucesso), os tantos anos fumando quase diariamente um ou dois Romeo y Julieta, de forma que o radiologista dependia totalmente do trabalho atencioso de Juliano, enfermeiro de dedicação rara. O Dr. Venâncio e Juliano estavam a sós, assistindo s uma partida de basquete na TV, quando o interfone anunciou o Dr. Inácio. Maristela, a esposa de Venâncio não estava; teve de fazer, ela mesma, algum exame médico concorridíssimo e ...