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Ler para ver

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Por Justo Navarro De dentro do carro não entende o que vê: em Bab el Khemis, Marraquexe, um camelo corre sobre três patas com a quarta atada ao corpo. Elias Canetti olha os camelos. Pela cara, todos parecem o mesmo e todos são diferentes. Parecem velhas damas inglesas entediadas em torno do chã e Canetti descobre alguém que lembra um parente próximo. As cidades que não são estranhas se tornam em situações de encontros imprevistos. Estou em 1954, em Vozes de Marraquexe , que Canetti publicou em 1968: ler é um modo sedentário de visitar outros lugares e outros tempos, inclusive do futuro.  Quando o viajante não sabe o idioma do lugar, necessita, desemparado, de um mediador, um guia. Olha sem entender os mendigos cegos que murmuram à sua comum litania de pedinte. Não deixa dinheiro ao catador de esmolas, e logo se dá conta de que é o mais observado dos presentes na cena, “criatura assombrosa a quem havia que explicar tudo”. Mas lhe atraem sem necessidade de intermediá...

Um artista do mundo flutuante, de Kazuo Ishiguro

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Por Pedro Fernandes  Há uma passagem de  Um artista do mundo flutuante  importante de ser recuperada aqui porque, em parte, justifica a existência do próprio romance. Não é o caso, ressalte-se, que estejamos numa obra de cariz metaficcional – ao menos não diretamente. Preocupado com a reputação da família para o bom casamento da filha caçula, Noriko, Masuji Ono revisita algumas das figuras de Kawabe, aquelas mais próximas no seu passado. Numa das ocasiões, encontra-se diante de uma pintura que julga ser do amigo Kuroda; o jovem rapaz que o recebe responde, meio acanhado, que se trata de um trabalho de sua autoria. Admirado, o protagonista afirma que, antes de desenvolver um estilo que o defina, todo artista começa por imitar bem aos seus mestres.  Esta passagem serve para dizer o mesmo de Kazuo Ishiguro.  Um artista do mundo flutuan te...

Custódia, de Xavier Legrand

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Por Pedro Fernandes O que não se deixa ver aos olhos da justiça. Ou a impossibilidade da lei em penetrar nos meandros mais escuros da violência doméstica. As duas maneiras são possíveis de definir este que é o primeiro longa-metragem Xavier Legrand. No Festival de Veneza, o trabalho do diretor francês ganhou destaque como Melhor Primeiro Filme e Melhor Direção. Situada entre o suspense e o drama, a narrativa de Custódia é a das que lidam com o estriamento dos nervos do espectador. Isso porque o drama da separação é aqui transposto do lugar-comum das personagens principais envolvidas nesse imbróglio para aquela que nos estados que se orgulham do imperativo da ordem pela confiança nos sistemas jurídicos seria a parte menos afetada sobretudo quando tornada no foco do exercício de proteção. Assim, todo impasse levado à permanência pela jurisprudência que interpreta o caso entre Miriam e Antoine Bessom como uma forja dos dois e entende que a guarda de Julien é dever dos doi...

Baudelaire no século XXI

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Por Andreu Jaume No dia 31 de agosto de 1867 morreu em Paris Charles Baudelaire. Desde quando caiu na igreja de Saint-Loup de Namur, na Bélgica que tanto detestou, não havia recuperado a voz e só repetia “Non, crénom!”, uma contradição de “Sacré nom de Dieu”. Não era acaso, para quem havia vivido seu catolicismo com tanta seriedade, que sua última relação com a linguagem tenha sido uma blasfêmia, um resíduo do sagrado cuspido para a morte como última negação. Quando o poeta saiu do hospital religioso de Bruxelas onde foi tratado dos primeiros sintomas da afasia e da hemiplegia, as monjas agostinianas, escandalizadas por seu comportamento, benzeram o quarto da enfermaria. A mãe do poeta o levou para Paris, onde ingressou na clínica de hidroterapia do doutor Émile Duval. Aí recebeu visita de alguns amigos como Sainte-Beuve ou o fotógrafo Nadar e as mulheres do romancista Paul Meurice e do pintor Manet para tocar ao piano fragmentos de Tannhäuser . Quando morreu estava nos b...

Palavra empenhada: Antonio Candido e sua “Ocupação”

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Por Guilherme Mazzafera Antonio Candido não carece de apresentações. Seus escritos, docência e vivência humanista compõem o inalienável testamento que o maior dos críticos literários brasileiros nos deixou. Encantado há pouco mais de um ano, seu legado respira forte com matérias de graduação e pós-graduação dedicadas à sua obra (já são duas esse ano na FFLCH-USP, cujo prédio foi batizado com seu nome, seguindo a vereda aberta pelas aulas do também saudoso Professor Joaquim Alves de Aguiar); seminários e eventos dentro e fora da universidade; a reedição do imprescindível Na sala de aula (Ouro sobre Azul, 2017) e de sua tese de doutorado em sociologia Os Parceiros do Rio Bonito: estudo sobre o caipira paulista e a transformação dos seus meios de vida (Edusp / Ouro sobre Azul, 2017); o lançamento do instigante Conversa cortada (Edusp / Ouro sobre Azul, 2018), que traz sua correspondência com o crítico uruguaio Ángel Rama; e, não menos importante, a Ocupação Antonio Candido ...

Boletim Letras 360º #281

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Amiga leitora, amigo leitor, aqui deixamos as notícias que publicamos durante a semana em nossa página no Facebook. O grande destaque é a descoberta de escritos inéditos de José Saramago que comporão o último volume dos  Cadernos de Lanzarote . Boas leituras!  Segunda-feira, 02/07 >>> Brasil: A obra que consagrou Cristovão Tezza, Trapo , como um dos expoentes de uma nova geração de escritores brasileiros da década de 1980 chega aos 30 anos e ganha uma edição comemorativa Em uma noite comum, o professor aposentado Manuel recebe em sua casa uma visita estranha e um pedido inusitado: uma dona de pensão com aparência vulgar entrega dois pacotes contendo originais de um jovem poeta, marginal e suicida. A mulher quer que Manuel leia o espólio de Trapo, o artista em questão, e decida se aquilo tem valor. Enredado pelo encantamento da situação, o professor percebe que apenas a leitura é insuficiente, e passa a investigar os motivos que levaram o jove...