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Rima simples por não ser centro, ser periferia

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Por Wagner Silva Gomes Marcelo Peixoto, conhecido como Marcelo D2, integrante da banda Planet Hemp, tornou-se um formador de opinião potente. Usando sua voz para além do rap, no Twitter suas críticas às atrocidades cometidas pelo governo vigente ficaram conhecidas, tendo o jornal Le Monde Diplomatique o procurado para o entrevistar sobre a sua formação de opinião midiática. Neste ano de 2019 o rapper lançou seu último álbum intitulado Amar é para os fortes, e com ele enveredou para o audiovisual como diretor do filme homônimo. Se parar para pensar as rimas do Marcelo D2 são das mais significativas em toda a música brasileira. Nelas já era possível ver sua inclinação para o audiovisual, como na música “Contexto”, do Planet Hemp: “Toca o seu terror Alfred Hitchcock / evolução do rap, evolução do rock”. Além de mostrar o gosto pelo audiovisual a referência ao diretor de Psicose  colocado como o que toca o terror, ou seja, que dá apenas o tom dos males sociais que estã...

O espírito dos meus pais continua a subir na chuva, de Patricio Pron

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Por Pedro Fernandes “Enquanto eu tentava deixar para trás as fotografias que tinha acabado de ver, compreendi pela primeira vez que todos nós, filhos dos jovens da década de 1970, teríamos que desvendar o passado de nossos pais como se fôssemos detetives, e que nossas descobertas seriam parecidas demais com um romance policial que preferiríamos nunca ter comprado, mas também percebi que não havia forma de contar a história deles à maneira do gênero policial ou, para ser mais preciso, que contá-la dessa maneira seria trair suas intenções e suas lutas, já que narrar a história deles como se fosse uma história de detetive apenas contribuiria para ratificar a existência de um sistema de gêneros, ou seja, de uma convenção, e que isso seria trair seus esforços, que tentaram desafiar essas convenções, tanto as convenções sociais como seus pálidos reflexos na literatura.” Essa reflexão do narrador de Patricio Pron é importantíssima para a compreensão de O espírito dos meus p...

Amor, casais e casamentos em William Shakespeare (3)

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Por María Méndez Peña William Shakespeare com Anne Hathaway e os filhos. Ilustração alemã do século XIX. Casamento de Anne e William Deixamos para o fim a leitura sobre o casal e o casamento formado por Anne e William. Presumivelmente, a decisão de Shakespeare de viver a maior parte de seus anos longe da companheira ajuda a ampliar o contexto de certas questões e detectar outros dados sobre sua vida e sua obra: talvez ele não desejasse se fazer conhecer, nem procurou ser totalmente compreendido; talvez, olhando para trás, percebeu que seu casamento era um erro desastroso quando tinha apenas dezoito anos e que também pagava pelas consequências, sendo escritor e marido, e assim escreveu frases como: “casar-se por obrigação arrasta para o inferno”; “casamento apressado, raramente floresce”. Outra conjectura: talvez tenha dito a si mesmo que seu casamento com Anne estava fadado ao fracasso, parecendo um poço profundo de contínuas amarguras. Segundo Joyce, Shak...

Correspondência trocada entre Sophia de Mello Breyner Andresen e Jorge de Sena entre 1959 e 1978

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  Por Maria Vaz “Filhos e versos, como os dás ao mundo? Como na praia te conversam sombras de corais? Como de angústia anoitecer profundo? Como quem se reparte? Como quem quer pode matar-te? Ou como quem a ti não volta mais?” Este poema foi escrito por Jorge de Sena e dirigido a Sophia de Mello Breyner Andresen na sua obra Peregrinatio ad loca infecta , corria o ano de 1969. Em boa verdade, as missivas publicadas resultam do esforço de Mécia Sena e de Maria Sousa Tavares, filha de Sophia. Com esta materialização de amizade vertida em verso e prosa celebra-se mais do que a poesia ou do que o diálogo levado a cabo por duas figuras incontornáveis do mundo da poesia em Portugal e de extrema relevância e importância indesmentível para toda a lusofonia. Além da forma, da motivação da troca da correspondência, do tom muito mais informal e pessoal do que a formalidade de alguns poemas em que a erudição intelectual de ambos não os conseguia trair, o que salta a...

Uma temporada e meia no inferno: Um dia na vida de Ivan Deníssovitch

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Por Joaquim Serra O espaço em Um dia na vida de Ivan Deníssovitch (1962) é um peso importante para a compreensão da obra. O mesmo acontece em obras do mesmo segmento, como o monumental Contos de Kolimá , de Varlan Chalámov – este somou quase vinte anos nos campos –, Memórias do Cárcere , de Graciliano Ramos, e o mais recente Estação Carandiru , do médico Drauzio Varella. Ivan Deníssovitch está inserido na tradição de obras acerca do cárcere russo, como o fez Dostoiévski em Recordações da casa dos mortos e Anton Tchékhov em Ilha de Sacalina , este com um profundo ideal humanista, considerou escrever sobre a condição dos prisioneiros para direcionar os olhos do mundo àqueles perdidos de humanidade. Ivan Deníssovitch Chukhov cumpre os últimos anos dos oito a que foi condenado (o próprio Soljenítsin ficou detido por cerca de oito anos).   Só sabemos depois de muito como o protagonista foi pego e preso primeiramente em um campo do norte, o recorrentemente citado Ust-Ijma...

Boletim Letras 360º #346

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Findamos a semana com três sorteios. Três leitores, do Instagram, Facebook e Twitter, ganharam, cada um, um exemplar de Melancolia , de Carlos Cardoso (Editora Record). A campanha assinala a publicação do novo trabalho do poeta brasileiro, distinguido como um dos acontecimentos na cena literária deste ano. A seguir, o leitor encontra as notícias que passaram durante a semana pelo mural do Letras no Facebook, as dicas de leitura que apresentamos costumeiramente há algumas edições deste Boletim e outras recomendações.    António Lobo Antunes chega aos quarenta anos de sua obra com novo livro, distinções e homenagens dentro e fora de Portugal. Segunda-feira, 30 de setembro Livro reúne parte da correspondência de Efratia Gitai, uma mulher do século XX, de opinião própria, libertária, com posições feministas e ideais socialistas . “Em tempos como estes, não temos escolha a não ser ir em frente e continuar vivendo”, diz Efratia em uma de suas cartas. As cartas r...