Boletim Letras 360º #710

DO EDITOR

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Silviano Santiago. Foto: Nilton Fukuda


 
LANÇAMENTOS


Livro apresenta ao público a história de um encontro iniciado em 1971, quando Hélio Oiticica criou o projeto visual para um conjunto de poemas de Silviano Santiago. 

Concebido como livro e mantido inédito por mais de cinco décadas, XXXV reúne literatura e artes visuais em uma experiência em que texto, imagem, página e espaço são inseparáveis. A exposição nasce em torno da publicação do livro e recupera os caminhos dessa colaboração, seus documentos, imagens e processos de criação, aproximando duas trajetórias decisivas da cultura brasileira. Realizada no ano em que Silviano Santiago completa 90 anos, a mostra celebra sua obra e sua contribuição à literatura e ao pensamento brasileiro. Ao mesmo tempo, antecipa as comemorações dos 90 anos de Hélio Oiticica, em 2027, retomando uma colaboração que permaneceu guardada por mais de meio século e que agora chega finalmente ao público. O livro sai pela Pinakotheke Editora. Você pode comprar o livro aqui.

Livro de José Donoso amplia presença do escritor chileno entre os leitores brasileiros.

Julio é um escritor latino-americano autoexilado na Espanha, às voltas com a reescritura de um manuscrito que poderia vir a ser o grande romance latino-americano, atormentado pela impossibilidade de triunfar no mercado editorial, pela falta de dinheiro, pela suposta insuficiência de seu comprometimento político e por sua relação ambígua com o Chile, além de viver o próprio envelhecimento, o desgaste de seu casamento mergulhado em frustração e os desentendimentos com o filho adolescente. Um verão na casa de um amigo abastado e um idílico jardim poderão curar essas dores? Há fuga possível, ou o destino hoje sorri e amanhã te devora? O jardim ao lado não é uma autobiografia de Donoso, é a biografia de uma geração chilena, do exílio latino-americano dos anos 1970, de um escritor dessa época, de um marido em crise. Papéis desempenhados por Donoso, mas que no livro extrapolam sua experiência pessoal, num exercício de autoironia e tragicomicidade. Publicação da editora Mundaréu; tradução de Lucas Lazzaretti. Você pode comprar o livro aqui.

Domenico Starnone constrói um romance de tensão crescente sobre casamento, desejo, culpa e as contradições da vida adulta. 

Um roteirista de 38 anos divide os dias entre o trabalho, os três filhos pequenos e o casamento com Livia. Numa tarde caótica, ao tentar responder rapidamente às mensagens que se acumulam, ele envia para Claudia, sua colega de trabalho, uma mensagem que deveria ter sido enviada à esposa. O equívoco poderia ser facilmente corrigido. Mas a resposta de Claudia transforma um simples acidente em algo muito mais inquietante. Entre hesitações, desejos e silêncios, uma possibilidade inesperada começa a se insinuar ― e aquilo que parecia uma vida familiar sólida revela suas primeiras fissuras. Mensagens é publicado pela editora Todavia. A tradução é de Mauricio Santana Dias. Você pode comprar o livro aqui.

Para conhecer algo da poesia de Minerva Reynosa. 

Em Pôr do sol nos subúrbios, a poeta mexicana faz da experiência amorosa um ponto de partida para atravessar territórios íntimos, urbanos e políticos. O ex-namorado, o desejo, a cama, a cidade, as periferias e até a figura de um ditador convivem num poema que desfaz continuamente as fronteiras entre dentro e fora, corpo e espaço social, intimidade e poder. Com uma escrita fragmentária e indisciplinada, atravessada pelo diálogo com a poesia concreta e por diferentes registros da linguagem contemporânea, Minerva rompe com a narrativa amorosa convencional e faz da margem um lugar de criação. Publicado agora no Brasil, Pôr do sol nos subúrbios aproxima duas tradições poéticas que ainda pouco se encontram: a mexicana e a brasileira — esta última uma presença importante na formação e na escrita da autora. O livro sai pela 7Letras c. tradução de Claudia Dias Sampaio e Paloma Vidal. Você pode comprar o livro aqui.

Um romance policial de Victor Bonini que parte de uma noite trágica no Copan para revelar uma rede de segredos que atravessa gerações.

Quando o Copan completa 60 anos, o síndico, Lorenzo Fabbri, decide dar uma festa para celebrar o aniversário não só do edifício mais famoso de São Paulo, mas também do seu filho, Theo. A noite, que deveria ser inesquecível por outros motivos, logo se transforma em uma enorme tragédia: Theo é morto com um tiro em rua lateral ao prédio e, pouco depois, Lorenzo cai do vigésimo terceiro andar. A terrível coincidência desperta uma série de dúvidas e mistérios, que entram em ebulição quando duas moradoras idosas desaparecem sem deixar nenhum rastro. À medida que a investigação avança, o passado do edifício e de seus moradores começa a emergir: pactos secretos, amizades que resistem décadas, relações de poder perpetuadas pelo tempo e vidas reinventadas em nome da sobrevivência. Com tensão crescente e revelações que reconfiguram tudo o que parecia conhecido, Crime no Copan combina o melhor do romance policial com um retrato perspicaz das dinâmicas humanas. Um thriller urbano elegante e ambicioso, capaz de transformar um dos maiores ícones arquitetônicos do país em palco de uma trama à altura de sua grandeza. Publicação da Companhia das Letras. Você pode comprar o livro aqui.

Uma edição revista e ampliada de A aventura brasileira de Blaise Cendrars.

Livro retoma a presença do escritor suíço-francês no Brasil e seu papel como figura catalizadora do modernismo no país. Publicado originalmente em 1978 por Alexandre Eulalio, o livro ganha uma terceira edição revista e ampliada por Carlos Augusto Calil, resultado de atualizações e de pesquisa permanente sobre o tema. A obra reúne textos, fac-símiles, fotografias, desenhos e documentos que ajudam a reconstruir a relação do autor com o Brasil e com nomes como Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Mário de Andrade, Paulo Prado, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Carlos Drummond de Andrade e Sérgio Milliet, entre outros. Essa “edição do centenário” evidencia a rede de relações intelectuais, artísticas e afetivas mobilizada por sua presença no Brasil. O livro sai pela Edusp. Você pode comprar o livro aqui. 

Primeira tese brasileira dedicada integralmente a Dom Quixote, livro de Franklin de Mattos é um convite à releitura do clássico de Miguel de Cervantes, puxando por um dos fios centrais da trama: a leitura literária, sua natureza e seus frutos tão imprevisíveis. 

Como explica Cervantes logo nas primeiras páginas do romance, as muitas noites em branco, dedicadas à leitura de livros de cavalaria, estão na raiz do desvario que permite a dom Quixote transformar moinhos em gigantes ou estalagens em castelos. Não é de estranhar, portanto, que tantos comentadores de Cervantes tenham se interessado pelo tema da leitura — e pelo tema vizinho: a natureza da imaginação, a “louca da casa”, como dirá o século XVII. A invenção do leitor inscreve-se nessa longa tradição, que Franklin de Mattos conhece em detalhe, ao mesmo tempo que a renova a partir de inspirações colhidas em alguns dos grandes críticos e teóricos da literatura do século XX. O resultado é fascinante, e por muitos lados: porque lança luz nova sobre o texto cervantino e relê episódios e personagens com imenso frescor; porque desafia ideias feitas sobre a natureza da leitura, da imaginação, da paródia, do riso, e faz isso desdenhando da oposição costumeira entre o cômico e o sério; porque é escrito com uma verve humana e estilística que não se desmente nunca. “Nada se perde no texto de Franklin de Mattos: nenhuma palavra, nenhuma frase, nenhuma ideia”, afirma Maria Augusta Vieira, autora do prefácio. Meditação originalíssima sobre a leitura e a imaginação, A invenção do leitor merece lugar entre os grandes ensaios críticos sobre Cervantes. Publicação da Editora 34. Você pode comprar o livro aqui.

A vanguarda brasileira do pós-guerra não foi uma derivação tardia dos movimentos europeus e norte-americanos, mas sim uma reinvenção radical do modernismo a partir de outro lugar — eis uma tese revisita um dos períodos de efervescência criativa nas artes brasileiras.

Vanguarda em construção, estudo de Sérgio Martins publicado originalmente pela MIT Press, chega agora aos leitores brasileiros. Ao recusar a ideia de que a arte brasileira apenas reproduziu modelos vindos dos grandes centros, Martins propõe uma leitura inovadora da produção artística nacional entre 1949 e 1979, mostrando como a distância, a precariedade institucional e a condição periférica se converteram em força crítica e inventiva. Professor do departamento de História da PUC-Rio, com mestrado e doutorado em história da arte pela University Colege London, Sérgio Martins acompanha episódios centrais da arte brasileira como o neoconcretismo, o “não-objeto” de Ferreira Gullar, a construtividade e os debates em torno do conceitualismo, da visualidade, da participação e do engajamento político. Sua análise atravessa obras, manifestos, textos críticos e impasses históricos para revelar uma vanguarda capaz de sequestrar o modernismo, deslocar suas hierarquias e formular uma gramática própria de invenção. Com atenção a nomes fundamentais como Hélio Oiticica, Lygia Clark, Cildo Meireles, Mário Pedrosa, Ferreira Gullar, Amilcar de Castro, Antonio Dias, Luís Sacilotto e Rubens Gerchman, cujas obras selecionadas são publicadas em cores no livro, Vanguarda em construção oferece mais que uma história da arte brasileira de vanguarda, pois propõe uma revisão do modo como a própria história da arte costuma ser narrada. Erudito e de leitura agradável, o livro mostra que a potência da vanguarda brasileira está justamente em sua posição oblíqua, isto é, nem atraso, nem cópia, mas um campo de experimentação singular, cujas questões seguem decisivas para pensar modernismo, autonomia, política e arte contemporânea. Publicação das Edições Cosac. Você pode comprar o livro aqui.

Interrogações sobre o feio e a feiura. 

Quem decide o que é feio? A que poder serve a beleza? Narizes grandes, pelos corporais abundantes, dentes tortos. Neste ensaio pessoal e político, a artista afegã Moshtari Hilal toma o próprio corpo como ponto de partida para pensar características físicas que, em diferentes contextos, se tornaram indesejáveis, repulsivas e até perigosas. Num texto fresco e profundo, a autora combina análise cultural, história e imagens de sua autoria para falar de salões de beleza em Cabul, xenofobia, teoria da evolução e Kim Kardashian. Com tradução de Gisele Eberspächer, Feiura é publicado pela Dublinense. Você pode comprar o livro aqui.

REEDIÇÕES

Poemas que marcam o momento em que Adélia Prado, nossa mais importante poeta brasileira, lança as raízes daquele que se tornaria um dos temas centrais de toda a sua obra, a religiosidade, ganham nova edição. 

Com astúcia e graça, em O coração disparado, livro que a consagrou com o Prêmio Jabuti em 1978, Adélia Prado mistura Deus, desejo e riso, recusando-se mais uma vez a separar o sagrado do profano, mas com o respeito e a fé que nunca a afastam da oração. Se a religiosidade é o elemento central desses poemas, não é jamais a religiosidade de sacristia, que se mostra em silêncio e devoção, mas uma crença que acelera o pulso e reconhece a importância das pequenas coisas: a neblina da manhã sobre as casas e as pessoas com embrulho de pão, um guarda-chuva esquecido na mesa ou uma fotografia antiga. Assim, Adélia torna solene cada brecha do cotidiano. E quem a lê experimenta o coração disparado de espanto diante da simplicidade, e a renovada descoberta de que ali, quando se olha com amor, é onde Deus mais gosta de aparecer. Reedição da editora Record. Você pode comprar o livro aqui.

RAPIDINHAS 

A correspondência de Euclides da Cunha. Publicado em formato digital pela Editora Unesp, Diálogo epistolar de Euclides da Cunha reúne 1 608 cartas escritas e recebidas entre 1883 e 1909 pelo autor de Os sertões. Feito de Leopoldo M. Bernucci e Felipe Pereira Rissato durante quase duas décadas.

A última entrevista de Toni Morrison. Publicado em 2020 nos Estados Unidos e esgotado por lá, chegará em breve aos leitores brasileiros A última entrevista e outras conversas. Anunciado pela Relicário como marco dos 13 anos da casa, não foi divulgado autoria da tradução.

Mais de Juan Tallon. A DBA publica para breve Mil coisas. A tradução do livro do escritor espanhol que acompanha a vida de um casal hora a hora é de Bruno Cobalchini Mattos. 

Luiz Gama. A Hedra edita mais três volumes da obra completa do advogado e abolicionista: Crime, Direito e África-Brasil. Neste último são compilados 102 documentos acerca do tráfico de escravos e as estratégias do direito para reconhecer suas liberdades. 

OBITUÁRIO

Morreu Zuenir Ventura.

Zuenir Ventura nasceu em Além Paraíba, interior de Minas Gerais, no dia 1º de junho de 1931. Filho de uma época das mais difíceis no seu país para quem possuía poucas posses, começou a trabalhar ainda na infância e passou por diversos ofícios — de pintor a faxineiro, de balconista a contínuo de banco. Iniciou a vida no Jornalismo logo depois de cursar Letras Neolatinas na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Com a vida de jornalista, foi professor na Escola Superior de Desenho Industrial, instituição mais tarde integrada à Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Destacou-se com o livro 1968: o ano que não terminou (1989), mas escreveu ainda Cidade partida (1994, Prêmio Jabuti de Reportagem), Inveja: mal secreto (1998), Crônicas de um fim de século (1999), Chico Mendes: crime e castigo (2003), Sagrada família (2012) e Minhas histórias dos outros (2021). Pertenceu a Academia Brasileira de Letras. O jornalista morreu no Rio de Janeiro, no dia 22 de setembro de 2026.

DICAS DE LEITURA

1. O tempo em estado sólido, de Tércia Montenegro (Grua Livros, 112p.) Livro que reúne dezoito contos marcados pela solidão, o ciúme, a morte e o sexo; uma teia de encontros e desencontros no tempo externo e interno, implacável cada um a sua maneira. Você pode comprar o livro aqui. 

2. O século dos imbecis, de Valter Hugo Mãe (Biblioteca Azul, 344p.) Uma narrativa à volta do excêntrico Marquês da Malandrinha é motivo para se investigar os múltiplos caráteres que alguém pode despertar no outro. Você pode comprar o livro aqui. 

3. O testamento de Maria, de Colm Tóibín (Trad. Jorio Dauster, Companhia das Letras, 88p.) No exílio em Éfeso, Maria tenta lembrar os eventos que culminaram na crucificação do filho. Você pode comprar o livro aqui. 

VÍDEOS, VERSOS E OUTRAS PROSAS

Na passagem dos 30 anos da publicação de 1968: o ano que não terminou, Zuenir Ventura foi convidado do programa Roda Viva, da Tv Cultura. Fica a recomendação para a entrevista com o jornalista. 

BAÚ DE LETRAS

Neste 26 de setembro de 2026 marcam-se os 90 anos de Silviano Santiago. Sublinhamos a data de nascimento do escritor mineiro, recordando algumas das publicações que o leitor encontra ao explorar o nosso singelo arquivo. A mais recente, ainda na superfície do nosso Baú, é a resenha de Keith Jarret no Blue Note, escrita por Vinicius de Silva e Souza; depois, a resenha de Pedro Fernandes do Mil rosas roubadas; e, mais uma resenha, desta vez, do seu principal romance, Em liberdade — texto de Sérgio Linard.

Em 2012 escrevemos um breve perfil do jornalista Zuenir Ventura — aberto para leitura por aqui. 

DUAS PALAVRINHAS

A única certeza, e a mais bela, para quem vê o mundo pela primeira vez é aquela sensação emocionante de ter sido eleito para algo.

— Robert Musil.

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