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O sermão sobre a queda de Roma, de Jérôme Ferrari

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Por Pedro Fernandes No Verão de 410, Roma é invadida pelos visigodos chefiados por Alarico. Durante três dias de agosto, a cidade tomada é transformada em ruínas e o episódio instaura uma crise no centro do império cristão. Isto é, abalam-se também as estruturas da fé, afinal, como pode Deus (e São Pedro e São Paulo) permitir o abandono da Roma Aeterna a um exército de bárbaros? O episódio leva Santo Agostinho, então arcebispo de Hipona, a redigir um conjunto de cinco sermões proferidos no ano posterior à invasão. Os textos oferecem uma releitura da história e a partir dela uma proposição inteiramente inovadora: Roma enim quid est, nisi Romani? A questão nascida de uma leitura das Geórgicas segundo a qual todas as cidades têm um fim se mostra radical porque parece se guiar pela máxima de que o homem é a medida de todas as coisas, logo, o mundo não é para-si mas em-si. Esse sentido é possivelmente o recobrado por Jérôme Ferrari na escrita de O sermão sobre a queda ...

Macunaíma e o estoque de energia em “Canoas e marolas”

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Por Wagner Silva Gomes Macunaíma por Poty Lazzarotto. Do livro Canoas e Marolas (1999), de João Gilberto Noll, que versa sobre um homem de meia-idade, de moral burguesa, que vai atrás de sua filha Marta (“Ninguém”, porque assumiu ser povo) grávida de um rapaz de tradição indígena (o pobre) em plena região amazonense, veio-me a imagem dos personagens novelescos do Antônio Fagundes, um preguiçoso de dar gosto, sempre de respiração ofegante, com um cansaço mitológico, marcado de forma clássica em Velho Chico (2016), ao caminhar pelas areias nordestinas. É a imagem do patriarcado brasileiro se dissipando, seja pelo coronelismo (em Gabriela ), pela estrada (em Carga pesada ) ou pela favela (em Duas caras ), que vai por fim alegorizar a preguiça (em Velho Chico ), como no livro de Gilberto Noll. Essa frouxidão brasileira tem o efeito hibernal do urso, com um estoque de energia laico e leviano. Essa frouxidão tem o efeito do grito de guerra “Ai que preguiça”, do Ma...

Diário de leitura (parte um): Os Miseráveis, de Victor Hugo a Ladj Ly

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Por Rafa Ireno             Caros leitores, sinto dizer que comecei a escrever minha tese. Infelizmente, tudo o que não seja a tese míngua neste período, inclusive, as leituras. É um paradoxo no final das contas. Porém, ah porém, como sou teimoso e contraditório, resolvi ler Os Miseráveis de Victor Hugo. Na verdade, tal incumbência foi instigada pelo filme de mesmo nome de Lady Ly. Eu gostaria de ter escrito demoradamente sobre o romance, mas não teve jeito. Então, devagar, dia após dia, fui anotando coisas num diário, onde anoto coisas, e decidi compartilhar isso com vocês. São curiosidades e considerações críticas apelando à bondade, a qual sei que existe apesar dos tempos difíceis (refiro-me à escrita de minha tese e não ao horror do governo atual) dos frequentadores do Letras para com este pobre colunista. É a primeira parte, outras duas seguirão conforme avanço nas páginas do Hugo. Peço também a vocês paciência e que ac...

A tradição da peste na literatura. Treze obras literárias

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Desde o final de 2019, o mundo atravessa a explosão de uma nova mutação de Coronavirus que tem causado sequelas e mortes pela COVID19. Este é outro instante em que a longa aventura da existência humana na terra atravessa uma crise complexa que coloca em risco nossas existências. O mais terrível de uma peste não é a morte, o fim de tudo, mas sua forma desconcertante e implacável com que atua contra a coletividade; seus efeitos são sobre toda a gente, uma vez que a morte, ainda que atinja mais a uns, não escolhe vidas, isto é, é um mal que não diferencia e por sua causa podem morrer os ricos, os pobres, os sãos, os jovens, os que nunca morrem. Por outro lado, a peste obriga a todos a repensarem sua inserção na comunidade e a revisão de atitudes de empatia e solidariedade. A ilusão atualmente é que, depois de alguns meses, tudo voltará a ser como antes. É possível que retomemos (ou sequer deixemos) os mesmos hábitos de sempre, mas, se tudo voltar ao de antes, não tardará outra v...

Boletim Letras 360º #369

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DO EDITOR 1. Durante a semana confirmamos outros dois nomes que integram agora o grupo de colaboradores do Letras in.verso e re.verso: Felipe de Moraes, selecionado da última chamada realizada em janeiro de 2020; e Antonio Alves, autor que se propôs a escrever esporadicamente para o blog textos de matriz crítico-reflexiva entre a filosofia e a literatura sobre temas variados. 2. O gesto de Antonio Alves pode ser o de todo leitor do Letras interessado em colaborar com este projeto. A participação no blog, volto a lembrar, é aberta aquele que guarde bons textos e queira compartilhar com novos leitores. Para saber como enviar seu trabalho basta visitar aqui; encontrará todas as informações e normas para adequação dos textos. 3. Este Boletim, notarão, está recheado de notícias sobre novos livros. Trata-se de um volume simplesmente maravilhoso de boas novidades numa semana atípica para as editoras. Afinal, algo de bom deve se notar entre tantas circunstâncias negativas e agr...