Postagens

A vida invisível de Eurídice Gusmão, de Martha Batalha

Imagem
Por Pedro Fernandes   Numa passagem singular das muitas que formam a entrevista de Clarice Lispector ao jornalista Julio Lerner, veiculada em 1977 no programa Panorama da TV Cultura, que foi também a última e a única em vídeo, a escritora, depois de confirmar que “o adulto é triste e solitário”, é confrontada com a pergunta sobre quando começamos a nos transformar para esse destino. Para ela, “isso é segredo” mas calcula que “a qualquer momento da vida, basta um choque inesperado e isso acontece”. O primeiro romance de Martha Batalha pode se inscrever no interior de uma tentativa por encontrar ou capturar esse instante e demonstra que a existência é um carrossel de pouca e quase nenhuma alegria e se viver é uma dádiva, as dívidas adquiridas para levar adiante uma vida, quando dela alcançamos a consciência, são tantas que nem mesmo toda uma eternidade seria suficiente para pagar.   Dito assim, se sugere que A vida invisível de Eurídice Gusmão é um melodrama dos baratos; um li...

Sobre a complexa relação entre literatura e história: apontamentos a partir de Juan Rulfo

Imagem
  Por Ronaldo González Valdés   1. A primeira coisa que se deve presumir, com Saramago (ou com Ortega y Gasset ou com O’Gorman ou com quem vocês queiram dos não poucos que disseram algo semelhante, sejam historiadores ou escritores), é que a história é de alguma forma uma invenção. Burckhardt e Nietzsche foram os primeiros a afirmar que o historiador é um criador. Ampliando um pouco o time, como escreveu Luis González y González em El oficio de historiar , talvez devêssemos começar concordando que o historiador é um “criador de romances verídicos”. Por isso Burckhardt afirmava que se pode partir do mesmo ponto, navegar nas mesmas águas em um barco muito parecido e, no entanto, chegar a portos diferentes aos de outros navegadores pelos mares de Clio. Como se duas histórias fossem escritas sobre o mesmo personagem ou evento; ambas podem se apoiar nas mesmas fontes e contar histórias diferentes. E se forem feitas com rigor, ambas serão “romances verídicos”.   2. Ler litera...

Guerra fria, de Pawel Pawlikowski

Imagem
  Por Pedro Fernandes     Um amor que atravessa toda sorte de reveses, rente e se confundindo com o mesmo fluxo da conturbada história de quando uma parte da Europa envolvida sob o mesmo ideal de liberdade se deixava trair outra vez pelas amarras do poder das ideologias. Guerra fria é um documentário com uma narrativa de ficção ao fundo que aos poucos emerge e ganha forma. Sua narrativa acompanha o trânsito entre o reerguimento de uma Polônia profundamente destruída no fim da Segunda Guerra e a entrada do país num modelo de domínio tão cruel ou radical quanto este período: a assunção do ideário comunista, com as mesmas marcas da grande vaga que havia soterrado meio mundo poucas décadas antes.   A alternativa encontrada pelo cineasta polonês, reconhecido um obcecado pela história, para acompanhar a escala dessa segunda grande noite, é acompanhar a formação de um grupo de dança folclórica dedicado à performance de música e dança. A larga escala ― que começa com um tra...

Análise de “O Falcão”, de Luis Fernando Verissimo

Imagem
  Por Davi Lopes Villaça   A crônica, e de maneira mais surpreendente a crônica humorística, acaba sendo, pela sua aparência de coisa cotidiana, pelo seu tom descontraído e despretensioso, um lugar de profundezas inesperadas, como demonstrou Antonio Candido em “A vida ao rés do chão”. Pode ser também um lugar de grande sofisticação formal, de árduas conquistas estilísticas, cujo resultado muitas vezes é, ironicamente, a impressão de uma escrita fácil e espontânea. Há vários exemplos disso na obra de Luis Fernando Verissimo. Proponho-me a analisar sua crônica, “O Falcão”, cujas primeiras linhas dão-nos já uma amostra do poder de síntese desse autor.   “Só uma palavra descrevia a vida de Antônio. Foi a palavra que ele usou quando viu o tamanho da fila do ônibus. ― Que merda!”   Antônio leva, portanto, uma vida “de merda” ― ou seja de pouco valor, muito ordinária, ruim. Mas essa palavra, ao ser reciclada da fala do próprio personagem, carrega ainda outro sentido, d...

Boletim Letras 360º #394

Imagem
DO EDITOR   1. Virou (ou começou, depende da perspectiva de cada um) mais uma dezena de edições deste boletim. Desde 2012, a página do blog no Facebook passou a veicular informações variadas em torno do nosso universo de interesse. Mas, meses depois, a baixa visibilidade de conteúdo pela segmentação nesta rede social favoreceu a criação de um espaço aqui capaz de guardar o registro e oportunizar um (re) encontro com o material divulgado.   2. Eis, pois, a edição 391. Com algumas seções que foram integradas muito depois da existência do boletim: as dicas de leitura, destaque de outros materiais nas redes do Letras ou em espaços vizinhos e a recordação de algumas publicações do blog.   3. Em nome do Letras, agradeço sempre a companhia do fiel leitor e deixo o pedido de trazer aqui os seus mais achegados que admiram os livros e a literatura. Fique bem. Boas leituras! Clarice Lispector e Alzira Vargas, filha de Getúlio. Washington, por volta de 1955. LANÇAMENTOS   Um l...

baltazar serapião e o estupro no Brasil

Imagem
Por Paula Luersen ©  Derek Jerman Cento e oitenta mulheres são estupradas por dia no Brasil. Em qualquer texto sobre o assunto me parece importante alçar esse dado a uma espécie de refrão. Cento e oitenta mulheres são violentadas, coagidas, estupradas, a cada dia, somente no Brasil. Sei que os números não impactam hoje, haja visto o pouco valor conferido aos dados da pandemia do coronavírus pelas esferas de poder e pela população em geral. De qualquer modo, os números continuam a ser uma vereda importante para registrar as condições que nos rodeiam, além de assegurar a uma parte da população, que segue recolhida em casa, de que não somos delirantes em relação à angústia crescente que nos assola, em um mundo posto às avessas. Estamos, sim, cercados de muitas formas de violência e naturalizar esse fato só nos faz um tanto mais doentes. Existem, porém, outras veredas que nos levam a encarar a realidade, conduzindo do registro à reflexão, dos números às narrativas. Como o leitor bem sa...