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Louise Glück. Quatro poemas de “Uma vida de aldeia” (2009)

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  Por Pedro Belo Clara     Louise Glück. Foto: arquivo Williams College.       FADIGA   Dorme todo o Inverno. Então, levanta-se, faz a barba – é preciso muito tempo até ficar um homem outra vez, o seu rosto ao espelho surge todo eriçado de cabelos negros.   A terra é agora como uma mulher, aguardando-o. Um grande sentido de esperança – é isso que os une, a ele e a esta mulher.   Agora ele terá de trabalhar todo o dia para provar que merece o que tem. Meio-dia: está cansado, está sedento. Mas, se desistir agora, perderá tudo.   A transpiração que lhe cobre costas e braços é como a própria vida a esvair-se dele, sem nada que a substitua.   Trabalha como um animal, depois como uma máquina, sem a menor réstia de sentimento. Mas a união jamais será quebrada, por muito que agora a terra dê luta, bravia ao calor do Verão –   Ele agacha-se, deixando que a terra lhe escorra entre os dedos.   O Sol põe-se, chega a escuridão. Agor...

Boletim Letras 360º #423

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DO EDITOR   1. Saudações, caro leitor! Estas foram as notícias apresentadas durante a semana na página do blog Letras in.verso e re.verso no Facebook e o conteúdo das demais seções de leitura criadas em momento posterior à existência deste Boletim. Obrigado pela companhia! Espero que você esteja, dentro do possível são e seguro. Boas leituras! Grazia Deledda. Um novo romance da escritora italiana é publicado no Brasil pela editora Moinhos.    LANÇAMENTOS   Um conjunto de ensaios de Michael Löwy que perfaz uma relação entre duas correntes importantes das artes .   Michael Löwy, como um rastro de luz rasga a cúpula celeste. O cometa incandescente. Romantismo, surrealismo, subversão " reúne um conjunto de ensaios e fragmentos cujo fio condutor traça a relação entre a “melancólica revolta romântica e a aventura surrealista em busca do ouro filosófico do tempo”. Peças de um “jogo mágico com a linguagem”, como diria Walter Benjamin, se espalham nesta edição por ilumi...

Adam Zagajewski. Poesia e solidariedade

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Por Rafael Narbona Adam Zagajewski. Foto: Dino Ignani.   Adam Zagajewski argumenta que um escritor não pode viver de costas para a história. Manter-se longe dos fatos não o permitirá que escreva uma obra atemporal. A busca por uma “inocência absoluta” está fadada ao fracasso e pode se transformar em estupidez. É preciso dialogar com o tempo e aceitar o risco. Manifestar-se sempre implica a possibilidade de se equivocar. Opinar sobre o que aconteceu há séculos carece de mérito, pois a tradição já estabeleceu o crivo que nos permite distinguir entre o sólido e o inconsistente, o duradouro e o trivial. Acredito que Zagajewski será um dos clássicos de amanhã. Não só porque em 2017 foi galardoado com o Prêmio Princesa de Astúrias, mas porque a sua literatura não tem medo de grandes palavras. Sem incorrer em dogmatismos, fala sobre Deus, o Bem e a Beleza. Sua voz não cede ao ceticismo e não aceita o relativismo de uns tempos líquidos que rebaixaram a verdade à mera convenção.   A ti...

A falência, de Júlia Lopes de Almeida

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Por Pedro Fernandes Júlia Lopes de Almeida, 1912.   No longo debate sobre a falibilidade do cânone literário sobram exemplos de obras significativas colocadas à margem. Mas, sempre podemos contar com as necessárias aberturas, afinal, a ideia do canônico como uma redoma intransponível resulta, para sorte do próprio cânone, ultrapassada. Na literatura brasileira, fundada na também aos poucos vencida noção de filiada como se uma ramagem da literatura portuguesa, as fronteiras dessa biblioteca de obras fundamentais seguiram à risca certo modelo que privilegiou os elementos fundamentais da base social regente, entre eles, o desinteresse pelo reparo para com as escritoras. Assim, Júlia Lopes de Almeida ficou sempre lembrada como a mulher que esteve nos bastidores do projeto da Academia Brasileira de Letras e abdicou de sua presença no clã para que o marido, de obra, sabe-se, muitíssimo inferior, ocupasse o que era seu de direito.   É preciso outra vez tocar essa história porque cont...