A infância sem nostalgia: Confissão, de Cláudia Lucas Chéu
Por Jonas Leite
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| Cláudia Lucas Chéu. Foto: Diana Tinoco |
Segundo Giorgio Agamben, o poeta “contemporâneo é aquele que mantém fixo o olhar no seu tempo, para nele perceber não as luzes, mas o escuro” (Agamben, 2009, p. 62). A afirmação me parece especialmente adequada à leitura de Confissão, de Cláudia Lucas Chéu (n. 1978). Há neste livro um olhar que retorna à infância sem qualquer desejo de recuperá-la como um tempo feliz. O movimento é outro: lembrar significa aproximar-se novamente daquilo que foi difícil e que, de algum modo, continua presente. Publicado originalmente em 2020, pela Companhia das Ilhas, em Portugal, o livro recebeu edição brasileira da Reformatório em 2022 e foi semifinalista do Prêmio Oceanos em 2021.
O que primeiro me chamou a atenção em Confissão foi a maneira como Chéu transforma a memória da infância em matéria literária sem protegê-la de suas zonas de desconforto. Apresentado pela própria autora como um exercício de poesia confessional, o livro constitui-se de um único poema longo, em que memória, narrativa e poesia se misturam. A escolha formal importa bastante. Não estamos diante de uma reunião convencional de poemas, mas de um fluxo de rememoração que avança por cenas, objetos, espaços domésticos, relações familiares e episódios aparentemente banais. Aos poucos, esses fragmentos vão compondo uma experiência marcada pela precariedade e pela violência.
Há ainda uma deliberada aproximação entre autora e eu lírico, que pode ser lida, à luz de Philippe Lejeune (2014), em relação ao pacto autobiográfico. O próprio poema parece antecipar a pergunta sobre a verdade do que está sendo contado e insiste, em diferentes momentos, no caráter vivido dessa experiência, conforme se vislumbra, por exemplo, em uma espécie de apresentação do eu lírico/ autora: “O meu nome é Claudia, sem acento,/ graças à revista de decoração homónima que a mãe/ compra todos os meses na papelaria./ (...) Nos ano 70, década em que nasci, a Claudia era um sucesso em Portugal/ (...) Chamam-me Claudia e durmo num divã na cozinha” (Chéu, 2022, p. 12).
Dessa feita, o título já estabelece o problema central do livro. Confessar pressupõe revelar aquilo que poderia permanecer oculto; pressupõe também a existência de um sujeito que se expõe diante de alguém. Chéu, entretanto, não transforma a confissão em simples desabafo. A matéria autobiográfica é submetida a um trabalho de composição que a distancia da espontaneidade da lembrança. É justamente nessa tensão entre a impressão de relato pessoal e a consciência da construção literária que o livro encontra uma de suas principais forças:
O pai construiu um barracão em cima de um antigo poço tapado —
Dois quartos, separados por uma cortina de pano.
O tecto foi forrado a esferovite.
Ouvem-se os ratos de noite, as patinhas a pisar o forro,
mesmo por cima das nossas cabeças.
Não ficciono, digo a verdade, aconteceu assim conosco.
A mãe tem medo. Do poço e dos ratos.
O meu divã está em cima do poço tapado.
Também tenho medo, não muito, mas não digo.
GUARDO.
E, por vezes, sonho que o poço me engole e que desapareço. (Chéu, 2022, p. 32)
Essa passagem concentra muito do que me parece mais forte em Confissão. O poço existe concretamente, debaixo do lugar onde a criança dorme, mas sua presença acaba ganhando outra dimensão. O medo está ali, literalmente sob o corpo. Quando a menina sonha que o poço a engole e que desaparece, o espaço precário da casa deixa de funcionar como simples cenário e passa a participar da experiência emocional da infância.
Aliás, a casa ocupa um lugar decisivo no livro. Ela é fria, tem bolor, é pequena demais, obriga a família a improvisar. Em determinado momento, cozinha, banheiro e lugar de dormir praticamente se comprimem uns contra os outros. Ao longo da leitura, fui percebendo que descrever essa casa é também uma maneira de descrever a família. A precariedade econômica aparece na organização física do espaço e interfere diretamente na intimidade de quem vive nele: “A nossa casa só tem duas divisões e meia — sala, cozinha e o wc mínimo./ (...) Durmo com a cabeça mesmo rente à porta do frigorífico./ A cozinha não tem largura suficiente,/ teve de colocar-se o divã com os pés voltados para a porta” (Chéu, 2022, p. 12).
Embora o livro seja classificado como poesia, sua dicção frequentemente se aproxima da prosa narrativa. Há personagens, cenas, ambientes, diálogos, acontecimentos e uma progressão temporal, numa mistura entre elementos poéticos, narrativa e dramaturgia, espécie de síntese das obras da autora, que tem mais de uma centena de livros publicados nesses gêneros. Mas seria insuficiente considerar essa característica apenas como uma aproximação da poesia à prosa. O que interessa é perceber que a autora utiliza procedimentos narrativos para produzir uma poesia da experiência, plasmada em uma forma hibridizada, que vai formando uma espécie de inventário afetivo e social. São detalhes que poderiam desaparecer na memória adulta. Chéu parece escrever justamente contra esse desaparecimento.

A mãe talvez seja a figura mais complexa desse universo. Ela cuida, sofre, adoece e também carrega limitações que afetam a filha. Interessa-me especialmente o fato de que a criança percebe o sofrimento materno antes de possuir instrumentos para compreendê-lo. É uma posição difícil, porque a menina observa e escuta coisas cujo peso ainda não consegue medir inteiramente:
A nossa casa nem sempre cheira bem.
A mãe não tem culpa, está doente e não consegue fazer melhor.
Sou eu que a acompanho à médica psiquiatra da Caixa uma vez por mês.
(...)
As coisas que a mãe confessa à médica da cabeça.
Falará de mim, certamente,
Da minha responsabilidade pela sua doença, pela sua infelicidade. (Chéu, 2022, p. 14-15)
É também pela perspectiva dessa criança que a pobreza ganha força no livro. Chéu não precisa interromper a narrativa para explicar sociologicamente a desigualdade. Ela já está na casa fria e apertada, no trabalho da mãe, nos objetos, nos deslocamentos e nas diferenças percebidas entre os ambientes frequentados. Quando a criança acompanha a mãe ao trabalho e percebe o contraste entre aqueles lugares e a própria casa, a desigualdade deixa de ser um conceito. Ela passa a ter tamanho, cheiro, temperatura e endereço. Esse aspecto me parece particularmente bem resolvido porque a dimensão social nasce da experiência. A infância narrada aprende a desigualdade antes de saber nomeá-la. E talvez seja justamente assim que muitas crianças primeiro conheçam a classe social: não como conceito, evidentemente, mas como diferença entre sua casa e a dos outros, entre aquilo que possuem e aquilo que veem.
Nem tudo, porém, produz o mesmo impacto. Em certas passagens senti que o desejo de registrar a lembrança se sobrepunha à tensão poética. Algumas descrições se prolongam e parecem depender mais da força do episódio narrado do que da linguagem que o transforma. O poema longo cobra esse preço. Há trechos de grande intensidade e outros em que a leitura se aproxima bastante da prosa memorialística.
Não considero isso propriamente um defeito capaz de comprometer o livro. É antes uma tensão que a própria forma escolhida produz. A memória de Confissão é acumulativa, por vezes insistente. Uma coisa chama outra, um objeto devolve uma cena, uma cena recupera uma pessoa. Essa maneira de avançar talvez explique por que o livro nem sempre procura concentrar a experiência numa imagem poética. Ele parece querer salvar alguma coisa do esquecimento, inclusive aquilo que, visto de fora, poderia parecer insignificante.
É nesse ponto que o título desta resenha ganha sentido para mim: há infância em Confissão, mas quase nenhuma nostalgia. O passado não funciona como um paraíso perdido ao qual a adulta gostaria de retornar. Também seria redutor ler a criança apenas como vítima. Ela sofre, sente medo e vive em condições muito duras, porém continua observando o mundo, percebendo suas contradições e encontrando maneiras de habitá-lo. Confessam-se episódios privados, certamente, mas também uma origem social, uma casa, uma família e uma maneira de ter sido criança.
É essa resistência ao embelezamento que mais me interessa no livro. Chéu escreve sobre uma infância difícil sem cobri-la com a delicadeza retrospectiva que tantas vezes acompanha as memórias da infância. O frio continua frio, a casa permanece apertada e o poço continua debaixo do divã. Talvez a força de Confissão resida justamente aí: olhar para trás e não corrigir, pela nostalgia, aquilo que doeu quando foi vivido.
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Confissão
Cláudia Lucas Chéu
Reformatório, 2022
48 p.
Referências
AGAMBEN, Giorgio. O que é o contemporâneo? E outros ensaios. Tradução de Vinicius Nicastro Honesco. Chapecó: Argos, 2009.
CHÉU, Cláudia Lucas. Confissão. São Paulo: Reformatório, 2022.
LEJEUNE, Philippe. O pacto autobiográfico: de Rousseau à internet. Tradução de Jovita Maria Gerheim Noronha e Maria Inês Coimbra Guedes. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2014.


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