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Cinco poemas de Adam Zagajewski

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Por Pedro Belo Clara Adam Zagajewski. Foto: Elżbieta Lempp. OS TRÊS ANJOS   De súbito, três anjos apareceram aqui ao pé da padaria na Rua de São Jorge; mais um inquérito sociológico, suspirou um homem enfadado. Não, começou por explicar, com paciência, o primeiro anjo, gostaríamos só de saber em que é que se tornaram as vossas vidas, que sabor têm os dias e porque é que as noites estão marcadas pelo desassossego e pelo medo.   É verdade, pelo medo, interveio uma adorável mulher de olhos de sonho; mas eu sei o porquê. As obras do pensamento humano soçobraram e precisam de ajuda e apoio, que não conseguem encontrar. Senhor, veja – chamou «senhor» ao anjo! – o exemplo do Wittgenstein¹. Os nossos sábios e líderes são tristes e loucos e sabem ainda menos do que nós, pessoas comuns (mas ela não era comum).                                  E também, disse um garoto que andava a aprender a toca...

Boletim Letras 360º #436

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DO EDITOR   1. Caro leitor, em nome do Letras , antes de passar às notícias que fizeram a semana em nossa página de encontros no Facebook, agradeço a companhia. Cuidemo-nos. Boas leituras! Walter Benjamin. Foto: Gisèle Freund.   LANÇAMENTOS O segundo romance de Abdellah Taïa no Brasil .   Em Um país para morrer , a narrativa é formada sobretudo por diálogos. “Só conversa quem se dispõe a estar diante do outro. Uma mulher se prostitui para solda — dos franceses durante a ocupação na Indochina enquanto tenta convencer um deles a acompanhá-la à Índia. A personagem principal do livro encontra um jovem iraniano desfalecendo no metrô de Paris e o acolhe, para depois ouvir (e ler) sua história de perseguição e fuga. Os encontros aqui não são apenas entre pessoas. Como diálogos pressupõem movimento, já que são um vai e vem, as personagens estão o tempo inteiro se deslocando. O encontro que elas têm com sociedades estrangeiras, por exemplo, nunca é pacífico. A percepção de A...

Boris Vian

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Por Marcos Belmar Boris Vian. Foto: Boris Lipnitzki “Não quero ganhar a vida, já a tenho.” — Boris Vian, A espuma dos dias   São personalidades inspiradoras, cuja trajetória mostra que basta sair do caminho estabelecido para comprovar que tudo é possível. Seu exemplo nos motiva a ousar, porque só se vive uma vez e seria uma pena perder nosso pouco tempo fazendo o que os outros já fizeram. A de Boris Vian é uma daquelas jornadas de vida que, movida por uma criatividade avassaladora, não conheceu obstáculos.   Embora tenha vivido apenas trinta e nove anos, dotou sua curta existência de uma densidade da qual muitas biografias sofrem. Escreveu romances, poemas, crônicas, peças de teatro, roteiros de filmes e canções, e até se meteu com a pintura e a música. E como já se passaram cem anos desde o seu nascimento, não queria perder a oportunidade de me lembrar deste escritor francês único.   Sua infância e adolescência foram marcadas por sucessivas enfermidades, como a febre reu...

Bom Crioulo, de Adolfo Caminha

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Por Pedro Fernandes   “Era um misto de ódio, de amor e de ciúme, o que ele experimentava nesses momentos. Longe de apagar-se o desejo de tornar a possuir o grumete, esse desejo aumentava em seu coração ferido pelo desprezo do rapazinho. Aleixo era uma terra perdida que ele devia reconquistar fosse como fosse; ninguém tinha o direito de lhe roubar aquela amizade, aquele tesouro de gozos, aquela torre de marfim construída pelas suas próprias mãos. Aleixo era seu, pertencia-lhe de direito, como uma cousa inviolável. Daí também o ódio ao grumete, um ódio surdo, mastigado, brutal como as cóleras de Otelo...”   Bem sabemos que nenhuma referência visível ou claramente sugerida num texto deve ser desprezada. O excerto acima está situado muito próximo do episódio final de Bom Crioulo ; trata-se de uma descrição oferecida pelo narrador que perscruta os volteios psicológicos da personagem principal da narrativa; nessa ocasião, Amaro encontra-se metido no interior da formação de uma angús...