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Ficções de verdade e o direito à (auto)ficção

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Por Mar Gómes Glez   Em um artigo no The Objective , Juan Marqués diz que em nosso país há muitas boas escritoras e escritores, mas pouquíssimos bons críticos, em parte porque se confunde a crítica literária com o jornalismo cultural, e a este com a divulgação. Depois de ler Ficciones de verdad. Achivo y narrativas de vida [Ficções de verdade. Arquivo e narrativas de vida] de Patricia López-Gay, as palavras de Juan Marqués ressoam em minha mente. E se ele tiver razão? E se com os críticos literários espanhóis se der o mesmo que com nossos profissionais de saúde, que preferem, ou necessitam, tentar a sorte em outros países para avançar em sua profissão? Patricia López-Gay é professora no Bard College, vive em Nova York há dez anos. Seu último livro ( Ficciones de verdad. Archivo y narrativas de vida ) sobre crítica literária em diálogo com as artes visuais reflete, contextualiza e engrandece um dos mais significativos modos de escrita da narrativa atual: a autoficção. À pergun...

Pão de Açúcar, de Afonso Reis Cabral

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Por Pedro Fernandes Afonso Reis Cabral. Foto: Elisa Trusso.   São muitas a convenções estabelecidas para designar o papel, as tarefas e as funções da literatura. Muitas insustentáveis, outras impertinentes, todas questionáveis. O romance de Afonso Reis Cabral se situa em algumas dessas encruzilhadas. Para agora, é possível citar pelo menos duas delas: desobrigada da verdade factual, a literatura, por sua natureza imaginativa pode corrigir determinadas lacunas da história; estabelecida em relação com os múltiplos constituintes do seu contexto, a obra literária possibilita denunciar aquelas circunstâncias que afastam o homem de seu ideal civilizatório — também um projeto, diga-se, jamais terminável.  Quando Pão de Açúcar foi publicado, mais de uma década sobre o episódio desencadeador da narrativa e do romance havia se passado: um bárbaro crime levado a cabo por um grupo de adolescentes no Porto. O rosário de violências que estabeleceu um terrível calvário para a morte pr...

Linguagem, poesia e exílio em Joseph Brodsky: esboço para um ensaio

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  Por João Arthur Macieira Joseph Brodsky. Foto: Ulf Andersen.   Há uma entrevista realizada na televisão holandesa e disponibilizada no YouTube na qual Joseph Brodsky comenta o momento quando foi avisado pelo pai da morte de sua mãe. Esse episódio também foi narrado em “A Room and a Half”, ensaio autobiográfico no qual o poeta investiga, entre muitas coisas, a relevância que tiveram seus pais e a literatura na sua formação (não apenas como escritor, mas como sujeito no mundo [BRODSKY, 1986]). Talvez justamente pela superficialidade do que desejo ressaltar aqui, certas características que fogem a(o próprio Brodsky provavelmente discordaria dessa direção). Quer dizer aqui que a forma como o poeta pronuncia as palavras em inglês — língua na qual aquela entrevista foi conduzida — podem dizer mais do que conteúdo nelas transmitido. A entonação geral é do tipo britânica, tragedie por exemplo; outras, como more , soam completamente americanizadas. Rather , contudo, parece saída de...

A raiz das metamorfoses

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Por Marcelo Moraes Caetano O estudo do sânscrito, tão relevante aos filólogos, tem uma inevitável fronteira com o conjunto sapiencial védico, de mais de 6000 anos de idade, inscrito nos livros mais antigos de que o ser humano tem notícia. O pensador britânico William Jones, em 1786, na confraria denominada “Sociedade de Calcutá”, contribuiu enormemente para desvelar a cortina de fumaça que escondia o elo perdido entre línguas como latim, o grego, as línguas eslavas e germânicas, entre outros troncos linguísticos supostamente díspares, ao demonstrar que suas raízes se fundavam numa protolíngua cujo nome é “Indo-Europeu” – pois o sânscrito veio da Índia e se deflagrou pela Europa; e vice-versa! O idioma sânscrito, como ensinam os mestres, deve ser estudado como fórmulas matemáticas revestidas de poesia, pelo fato, já mencionado, de ser oriundo da tradição védica, cuja busca é a desconstrução das fantasias que semicerram olhos e olhares das sociedades. Inicio esta pequena leitura de A lei...

A madeleine de Proust era originalmente uma fatia de torrada

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Por Mitchell Abidor Ilustração: David Richardson.   Em 1949, a sobrinha de Marcel Proust, Suzy Mante-Proust, entregou ao editor Bernard de Fallois alguns papéis que seu tio havia deixado para seu pai, o irmão mais novo do autor, Robert. Ela pediu que ele desse algum tipo de ordem aos papéis. Fallois conseguiu organizar dois livros póstumos, Jean Santeuil (1952), a primeira tentativa muito grosseira de um romance semiautobiográfico, e, Contre Sainte-Beuve (1954), uma coleção de textos ensaísticos e narrativos, que Fallois chamou de “o sonho de um livro, ideia de livro”.   Em seu prefácio ao Contre Sainte-Beuve , Fallois também escreveu sobre a existência de “ soixante-quinze feuillets ” — 75 folhas — do texto manuscrito da versão mais antiga de Proust para À la recherche du temps perdu . Mas quando um grande número de manuscritos que Marcel deixou para Robert foi doado por Mante-Proust à Biblioteca Nacional da França, essas páginas não estavam entre eles.   Essas páginas...

Boletim Letras 360º #438

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DO EDITOR   1. Olá, como se diz, continuamos a passar o chapéu para arrecadar fundos para custeio do domínio do blog por mais um ano online. Como nos últimos quatro anos, vendemos alguns livros neste bazar . Você pode não se interessar pelos livros, mas ajuda compartilhando esta post com os amigos. 2. Nesta semana, abrimos também a possibilidade de receber doações avulsas via PIX. Para ajudar com qualquer valor basta nos contatar pelo e-mail blogletras@yahoo.com.br ou por uma das nossas redes sociais. 3. A todos que de alguma maneira nos ajudaram até aqui, reiteramos publicamente nossos agradecimentos. E, continuamos. Boas leituras! Joseph Conrad. Foto: The Granger Collection / Forum   LANÇAMENTOS Obra pouco conhecida de John Milton, mas igualmente grandiosa, ganha tradução e edição no Brasil .   Composta em versos trágicos à moda clássica, a peça dramática de Milton acompanha as últimas vinte quatro horas do herói bíblico Sansão, já cego após ter sido traído por D...