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Sinfonia Ilitch I

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Por Michele Soares   Na avenida, dura até o fim — Elza Soares Nikolai Dmitrievich Kuznetsov. Piotr Ilitch Tchaikovsky. Óleo sobre tela, 1893.   “Esta noite um gato chorou tanto que tive uma das mais profundas compaixões pelo que é vivo. Parecia dor, e, em nossos termos humanos e animais, era. Mas seria dor, ou era ‘ir’, ‘ir para’? Pois o que é vivo vai para”. O texto que o leitor acaba de ler é uma crônica de Clarice Lispector, cujo título é “Ir para”. Publicada em 16 de setembro de 1967, na coluna que a autora mantinha no Jornal do Brasil , li a crônica de Clarice pela primeira vez no alto dos meus dezesseis anos. Como é natural de um olhar menos disciplinado, ainda fresco para a literatura — e, quem sabe, por isso mesmo tão mais sincero —, eu senti a força do impacto das suas palavras, antes de buscar entender o que elas significavam.   Hoje, anos depois, é sem hesitar que afirmo como ainda não alcancei conclusão alguma, não tenho sequer uma hipótese. Mesmo assim, quan...

São os russos

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Por David Toscana A cavalaria vermelha . Kazimir Severinovich Malevich, 1932.   Tenho em minha mesa dois livros cujas histórias começam na Ucrânia: O exército de cavalaria , de Isaac Bábel, e Kaputt , de Curzio Malaparte.   O livro de Bábel começa assim: “O comdiv 6 relatou que Novograd-Volynsk tinha sido tomada hoje, ao amanhecer. O Estado-Maior saiu de Krapivno, e nosso comboio, uma barulhenta retaguarda, espalhou-se pela estrada de pedra que vai de Brest a Varsóvia, construída sobre os ossos dos camponeses por Nicolau I.”   Em seguida nos descreve o ambiente fértil, que tem sido a bênção e a maldição da Ucrânia: “Campos de papoulas púrpura floresciam à nossa volta, o vento do meio-dia brinca por entre o centeio amarelado, e o virginal trigo sarraceno ergue-se no horizonte como a muralha de um mosteiro longínquo. O plácido Volýnia serpenteia. O Volýnia afasta-se de nós na bruma perolada das moitas de bétulas, infiltra-se através das colinas floridas e, com seus br...

Seis poemas-canções de Zeca Afonso (Parte II)¹

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Por Pedro Belo Clara     MENINO DO BAIRRO NEGRO 2 (Baladas de Coimbra, 1963)   Olha o sol que vai nascendo Anda ver o mar Os meninos vão correndo Ver o sol chegar   Menino sem condição Irmão de todos os nus Tira os olhos do chão Vem ver a luz   Menino do mal trajar Um novo dia lá vem Só quem souber cantar Virá também   Negro bairro negro Bairro negro Onde não há pão Não há sossego   Menino pobre o teu lar Queira ou não queira o papão Há-de um dia cantar Esta canção   Olha o sol que vai nascendo Anda ver o mar Os meninos vão correndo Ver o sol chegar   Se até dá gosto cantar Se toda a terra sorri Quem te não há-de amar Menino a ti   Se não é fúria a razão Se toda a gente quiser Um dia hás-de aprender Haja o que houver   Negro bairro negro Bairro negro Onde não há pão Não há sossego   Menino pobre o teu lar Queira ou não queira o papão Há-de um dia cantar Esta canção   MULHER DA ERVA 3 (Cantigas do Maio, 1971)   Velha d...

Boletim Letras 360º #471

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    DO EDITOR   1. Caro leitor, durante a semana foi levantada uma pesquisa de ocasião no Instagram do blog sobre o conhecimento dos que acompanham o Letras nesta rede sobre a existência deste Boletim. Ainda foi alto o percentual dos que desconhecem, 33%.   2. Continuaremos insistindo em falar mais desta e de outras publicações daqui neste outro espaço da web . O interesse ali começa e decai, começa e decai, porque os retornos são baixíssimos. Bom, tudo pode ser a crise de um adolescente, mas é ainda uma interrogação sobre o efetivo papel das redes e da relação que desenvolvemos com elas.   3. Avancemos. Continuo a lembrá-lo sobre o terceiro sorteio entre o clube de a apoiadores do Letras . A editora Bandeirola disponibiliza três livros do seu catálogo. Quer apostar na sorte? Convido a saber mais sobre e, claro, a participar, acessando aqui . Nesta página, você entra em contato ainda com outras maneiras de ajudar com os custos de domínio e hospedagem do Letras...

Sobre assistir BBB e ser cult

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Por Rafael Kafka A. R. Penk   1 Volto a escrever para o Letras um ano depois sobre um tema muito curioso. Uma confissão na verdade: a pandemia me fez assistir ao Big Brother Brasil. Escrevi em meu blog pessoal sobre as questões emocionais e mentais que me levaram a parar de escrever publicamente e mesmo em meu diário pessoal sobre diversos temas, para não dizer todos. A escrita virou algo pesado para mim, uma forma de me exibir a qual me soava perigosa ao extremo.   Não quero ser vítima isolada, mas a pandemia me fez mal. Por causa dela, meu psicológico que já andava claudicante piorou demais. No meio da pandemia, eu simplesmente não consegui mais ler e fazer dos livros um horizonte de diferença num mar de mesmidade. O absurdo palpável é a mesmidade.   Deitado em minha cama, eu olhava para meu notebook e seus streamings e para meus livros e ebooks do Kindle e nada me chamava a atenção. Fiquei curioso de ver Baudelaire compondo poemas sobre spleen e melancolia em tempo...