Postagens

Elena Poniatowska ou a arte de escutar

Imagem
Por Vicente Alfonso Elena Poniatowska. Foto: Eunice Adorno Em maio de 1953, Elena Poniatowska tinha vinte e poucos anos e costumava ler os jornais na casa de sua mãe. Certa tarde, acompanhou a mãe a um coquetel em homenagem a Francis White, o recém-nomeado embaixador dos Estados Unidos no México. Na hora das apresentações, a moça solicitou uma conversa com o diplomata. O encontro aconteceu no dia seguinte e foi, nas palavras da autora, “uma entrevista muito tola”. Não deve ter sido tanto assim, porque ela foi imediatamente contratada como jornalista no Excelsior . Ela se lembrou com estas palavras em setembro de 2015, quando a entrevistei para este mesmo suplemento durante o Encontro Internacional de Jornalismo organizado pelo El Universal : “Como eu era mulher, eles me mandaram para as colunas sociais. Você sempre sente que refundam frequentemente as colunas sociais, uma seção que não tem tanta importância agora, mas quando eu entrei era diferente, servia para políticos e banqueir...

Nove ruba’iyat de Umar-I Khayyam (Omar Khayyam)

Imagem
Por Pedro Belo Clara Omar Khayyam. Ilustração: Adelaide Hanscom/ Wikipedia.     I.   Coração ao alto! Passemos pelas cordas de harpa com as mãos (!) Deixemos cair o bom nome bebendo vinho (!) O tapete de orações vendemos por uma taça de vinho (!) Quebremos o frasco da vergonha e da honra (!)     II.   Bebe vinho, somente ele dissipa aflições, Deixando perturbada a alma do inimigo. De que serve estar sóbrio? A sobriedade é fonte de pensamentos vãos, Tudo neste mundo passa sem deixar rastro.     III.   Somos marionetas conduzidas pelo céu, Não duvides da verdade desta estrofe. Brincamos até nos permitir o céu, Depois ficamos arrumados na caixinha.     IV.   Quando deitamos o último suspiro, Colocarão tijolos na campa das nossas cinzas. Das nossas cinzas moldarão tijolos Para cobrir as campas daqueles que virão depois.     V.   De onde viemos? Para onde nos dirigimos? Qual é a razão de ser? Para nós a vida é ininte...

Boletim Letras 360º #484

Imagem
  DO EDITOR   1. Entre o domingo e a segunda-feira encerra-se a primeira temporada de sorteios com Kit de livros entre os apoiadores do Letras. A possibilidade de ajuda, recordo, continuará aberta e os sorteios de livros continuarão sempre que possível.   2. Quem ainda se interessar pelo próximo sorteio, fica ainda o convite! O ganhador receberá três livros da literatura brasileira em curso publicados pela editora-parceira Companhia das Letras: o romance O avesso da pele , de Jeferson Tenório; o livro de contos Gótico nordestino , de Cristhiano Aguiar; e o romance Ossos secos escrito pelo coletivo formado por Luisa Geisler, Marcelo Ferroni, Natalia Borges Polesso e Samir Machado de Machado.   3. Para se inscrever é simples. Envia R$25 através do PIX blogletras@yahoo.com.br ; finalizada a operação, envia neste mesmo endereço (nosso e-mail) o comprovante.   4. Outras formas de colaborar com o Letras estão disponíveis aqui . E, cabe não esquecer que na aquisiç...

A tragédia necromântica do doutor Fausto

Imagem
Por Raúl Rojas O primeiro encontro entre Mefistófeles e Fausto. Ilustração: Eugène Delacroix   Certamente poucos crentes podem conceber Deus o Criador em altas apostas com o diabo. Mas é o que acontece na incomparável tragédia Fausto de Johan Wolfgang von Goethe (1749-1832). No “Prólogo no céu”, no início do longo poema, Mefistófeles, um dos anjos decaídos, agradece a Deus por lhe perguntar “como vai tudo” na terra. O Senhor o repreende por não ver nada de bom na humanidade e mostra Fausto, “meu servo”, como exemplo. É aí que Mefistófeles aposta que pode levar o sábio Fausto à perdição, desafio que Deus aceita de imediato, acrescentando laconicamente: “o homem erra enquanto deseja”. Apenas outro texto na literatura mundial começa com uma aposta tão extravagante e herética: o Livro de Jó , que faz parte da Bíblia. Ali Lúcifer questiona a fé do piedoso Jó, que ele insinua que só se deve ao fato de Deus o ter agraciado com múltiplos bens e riquezas. O Todo-Poderoso aposta com Lúcifer...

O fim, de Karl Ove Knausgård (2)

Imagem
Por Pedro Fernandes Karl Ove Knausgård. Foto: Nina Rangoy     Na primeira parte da leitura sobre O fim , de Karl Ove Knausgård ( leia aqui ) observamos sobre o descompasso entre o conteúdo dessa passagem do romance e as demais. Evidenciamos esse tratamento como produto de um contínuo adiamento da conclusão que seria facilmente evitável se o longo ensaio sobre Mein Kampf e outros desdobramentos sobre a personagem seu autor e a história do Ocidente não existissem ou mesmo se fossem sintetizadas, ainda que seja fácil identificar alguma importância no cômputo geral da narrativa, o de, por exemplo, dissociar os valores entre essas obras a partir de reafirmação do eu enquanto entidade submetida na extensão do outro . Mas, existem outros detalhes que, preferimos, não sem deixar de acompanhar certo modo do próprio romancista, tratar num segundo texto.   Uma das constatações mais veementes nesta última parte de Minha luta é a reafirmação da linguagem como matéria enformadora d...