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Charles Simic, contra os monstros da solenidade

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Por José Pulido   Alguém  poderia compor uma autobiografia com cada uma das comidas memoráveis de sua existência e talvez resultaria mais interessante que as autobiografias comuns. Com toda honestidade, o você preferiria ler: a descrição de um primeiro beijo ou a de um repolho recheado feito à perfeição?   — Charles Simic Charles Simic. Foto: Scott Cook.     Fazia dois anos que estava na Cidade do México quando, em 2014, vi no Bellas Artes uma homenagem pelo centenário do nascimento Octavio Paz. Tratava-se de uma leitura de poesia onde participaram amigos do poeta homenageado. Estavam Wole Soyinka, Derek Walcott, Valerio Magrelli, Lasse Söderberg, Ida Vitale, Pura López Colomé, José Luis Rivas, Fabio Morábito, o grande David Huerta, Rafael Vargas e Charles Simic.   Ainda hoje recordo meu entusiasmo. Eram escritores que admirava, e admiro. Ante a comum solenidade dos mexicanos se impôs a poesia jocosa e as anedotas vívidas de Söderberg e Simic. Noutro tempo,...

Boletim Letras 360º #522

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    DO EDITOR   1. Até quarta-feira muitos estarão na folia, mas mesmo esses poderão descansar com a companhia deste Boletim. Lembro que foi divulgado nas redes sociais do Letras e mesmo aqui, na seção Ajuda, os livros disponibilizados para o próximo sorteio entre os apoiadores do blog: Lições , de Ian McEwan (Companhia das Letras) e Aniquilar , de Michel Houellebecq (Alfaguara).   2. E você já fez sua inscrição? O sorteio contemplará dois leitores: um livro para cada um. Para enviar seu apoio é simples. Basta enviar a partir de R$20 através do PIX blogletras@yahoo.com.br e em seguida fornecer o comprovante por este mesmo endereço de e-mail. Se quiser mais detalhes, acesse aqui .   3. Outra forma de apoio é a aquisição de qualquer um dos livros apresentados pelos links ofertados neste Boletim ou qualquer produto neste link .     4. Um excelente Carnaval para todos! Com folia, descanso e boas leituras. Sjón. Foto: David Konecny   LANÇAMENT...

Clarice Lispector, entrevistas

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Por Pedro Fernandes Clarice Lispector, 1972. Correio da Manhã / Arquivo Nacional. É possível que a popularidade não esteja entre os desejos mais visíveis de um escritor. Mas, quando alcançada, talvez tenha um significado tão ou mais importante que o reconhecimento. Se a popularidade pode significar em algum grau sobrevida, o paraíso para quem a alcança não é um todo perfeito como talvez se imagina. Há nele algumas porções de inferno. É nelas que proliferam os especialistas, os fãs — a pior claque para quem apenas necessita de bons leitores —, e os que se dedicam ao jogo das atribuições. Na Era do Viral, quando se juntam esses três tipos, qualquer escritor se perguntará se ser conhecido não é integralmente uma condena.   A Era do Viral significou ainda, dizem uns, a manutenção dos informantes de ocasião, atravessadores da notícia. Esses são acusados de comprarem facilmente como verdade a novidade recebida, sem se importar com as fontes, com a maneira como a notícia é dada e mesmo a...

Indevassável, mas perquirível: Melhores contos, de Guimarães Rosa

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Por Guilherme Mazzafera João Guimarães Rosa à máquina de escrever. Que Guimarães Rosa é um contista nato não há como contestar — afinal, o romance, por mais brilhante que seja, é antes desvio irrepetível de percurso do que a norma compositiva em sua obra. No terreno mais ambíguo da novela, sua adoção plena deu-se unicamente em Corpo de Baile , contraface de Grande Sertão: Veredas e que forma com este o ápice da diástole rosiana soberbamente evidenciada no ano de 1956. Circundando estas obras magnas, temos dezenas de narrativas cuja variedade, apuro e escopo formal já seriam mais que suficientes para garantir ao escritor mineiro seu merecido lugar no panteão literário nacional. E é justamente esta contística múltipla que chega às mãos dos leitores brasileiros a partir da esmerada seleção de Walnice Nogueira Galvão. Melhores contos (Global, 2020) reúne 16 narrativas rosianas extraídas de cinco livros seus:  três de Sagarana (1946), sete de Primeiras estórias (1962), três...

Pinóquio, a morte cai tão bem

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Por Diego Cuevas Minha mãe me contou que eu chorei em seu ventre. A ela lhe disseram: terá sorte. Alguém falou comigo todos os dias de minha vida no ouvido, devagar, lentamente. Disse-me: viva, viva, viva! Era a morte.   — Jaime Sabines, “Do mito” Guillermo del Toro esculpiu uma nova criatura. E isso costuma ser motivo de comemoração nesta casa, onde passamos uma década admirando o carinho que o diretor dedica às feras fantásticas. Porque Del Toro é sinônimo de uma devoção sincera aos monstros, ao ponto de não conseguir deixar de evitar um, mesmo embalado, sim, num filme como O beco das almas perdidas onde, a princípio, não havia espaço para seres fantásticos. Seu novo descendente é renomado, com fama nas costas, Pinóquio, mas é criado não apenas a partir de recortes da sombria narrativa original que Carlo Collodi começou a escrever para folhetim em 1881, mas também de pedaços do Pinóquio de Walt Disney e da alma de Frankenstein ou o Prometeu moderno de Mary Shelley. Embora o ma...