Postagens

Um ponto no mar

Imagem
Por Bárbara Ayuso Juan Goytisolo, uma pessoa não identificada, Italo Calvino, Monique Lange, Luis Goytisolo e Jesús López Pacheco. Formentor, 1959.   Nasceu numa ilha, escreveu quase tudo em outra — que na realidade não era — e morreu numa península. A vida de Italo Calvino pode ser contada de várias maneiras, e quase todas incluem o mar. Mesmo que esteja ausente.   Começou trocando o Caribe pelo Mediterrâneo, de sua Cuba natal para San Remo. Também foi da resistência, mas isso já sabem. Em 1959 havia escrito A trilha dos ninhos de aranha , e ainda estava por vir a fronte límpida com que é lembrado e as obras que o tornariam um autor essencial do Novecento. Na época, Calvino, com 36 anos, sonhava em publicar O visconde partido ao meio na Espanha. Nunca havia pisado no país, mas era o que queria. Contou sobre a alguns amigos por carta. No final, aconteceu. De mãos dadas com Carlos Barral. Ele reservou o voo que trouxe o escritor italiano de Milão a Barcelona: pousou de madruga...

Dez poemas de Wang Fan-chih

Imagem
Por Pedro Belo Clara (Seleção e versões)*   Ilustração: Ma Yaun     I. vento e poeira entram por esta cabana adentro, pequena e de palha há uma manta rasgada sobre a cama se alguém vier, será convidado a entrar posso fazer dois montes de terra para nos sentarmos     II. não tenho carvão para me aquecer com um sopro, avivo o fogo alimentado por hastes de salgueiro e cânhamo tenho sake no jarro e o pote de três pernas ainda tem uma para se apoiar     III. muitos são os que desejam altos cargos um trabalho que pague o suficiente para encher duas tigelas de arroz é o quanto me basta o fogo que ferve o arroz no pote também aquecerá os meus pés     IV. sou pobre, então riem de mim sou tão pobre que o riso alheio encanta-me nenhum boi, nenhum cavalo nenhum ladrão me preocupa     V. ando há tanto tempo esfomeado caído no buraco do próprio estômago uma criança perdida, sofrendo — oh, mãezinha, como pudeste dar-me vida?     VI. ...

Boletim Letras 360º #523

Imagem
DO EDITOR   1. Queremos realizar o próximo sorteio entre os apoiadores do blog no próximo dia 7 de março de 2023. Até lá é possível se inscrever para concorrer a um dos dois livros disponibilizados: Lições , de Ian McEwan (Companhia das Letras) e Aniquilar , de Michel Houellebecq (Alfaguara).   2. Para registrar seu apoio é simples. Basta enviar a partir de R$20 através do PIX blogletras@yahoo.com.br e em seguida fornecer o comprovante por este mesmo endereço de e-mail. Se quiser outros detalhes, acesse aqui .   3. Outra forma de apoio a este projeto é a aquisição de qualquer um dos livros apresentados pelos links ofertados neste Boletim ou mesmo qualquer produto que você adquirir online, use este link .     4. Um fim de semana excepcional e com boas leituras. Juan Pablo Villalobos. Foto: David Ramírez.   LANÇAMENTOS   No novo romance de Juan Pablo Villalobos dois imigrantes precisam lidar com uma dura crise existencial em meio a burocracias, teoria...

William Faulkner foi um mau carteiro

Imagem
Por Rafael Ruiz Pleguezuelos William Faulkner. Foto: Henri Cartier Bresson.   Uma batalha entre Hemingway e Faulkner, na minha imaginação, é como um daqueles blockbuster que coloca Godzilla contra um bando de zumbis. Algo atraente, mas também ridículo. Muito já foi escrito sobre a animosidade de Faulkner contra aquele ilusionista de frases curtas chamado Ernest Hemingway. Saber a origem da rivalidade é fácil: Hemingway representa tudo o que Faulkner não é, e vice-versa. Suas duas escritas, quando comparadas, tendem a se odiar. E temos que assumir isso como leitores. Você está de um lado ou de outro. Eu gosto dos dois, mas se você realmente quer encontrar seu caminho na literatura, não é uma escolha lógica.   Hemingway começou a trabalhar para um daqueles jornais cujo nome parece destinado a aparecer em algum filme de Hollywood dos anos 1950: o Kansas City Star , e começou a colaborar com eles quando tinha apenas dezessete anos, porque seu tio Tyler o apresentou a esse mundo um...

Em torno do “Silêncio na era do ruído”, de Erling Kagge

Imagem
Por Maria Vaz Erling Kagge Foto: Thomas Ekström   De capa pálida em letras claras. Chamou-me a atenção a ideia antitética que dá nome ao livro. Desfolhei as páginas e pude ler uma escrita pragmática mas, ao mesmo tempo, provinda de alguém que busca a raiz das coisas ou das ‘não-coisas’ que nos enredam naquilo que está além de nós e nos supera.   Confesso que quando adquiri o livro desconhecia que o seu autor fosse um grande aventureiro e explorador, que viajou por alguns dos locais mais inóspitos do planeta, muitas vezes sozinho. Depois percebi que, além de ser jurista, a dada altura trocou o direito pelo estudo de filosofia em Cambridge e que, mais tarde, abriu uma editora na Noruega, ao mesmo tempo que se iniciou na escrita sobre as suas viagens e sobre a arte, que considera uma das suas grandes paixões. Pronto, a partir daí ganhei uma certa empatia com ele: gosto de direito, filosofia, arte, viagens e de escrever.   Quando percebi que a paixão do autor pelas viagens er...

A ilha de Bergman, de Mia Hansen-Løve

Imagem
Por Pedro Fernandes Não é mais uma novidade o cinema buscar nas suas próprias referências os materiais de sua composição. Um procedimento que resulta tão antigo como a história dessa arte, no entanto, se fez uma recorrência entre as produções no entre-séculos XX e XXI. Como em todo caso, nem sempre isso é qualidade, principalmente, quando o cineasta decide se aproximar de obras idiossincráticas, que participam na constituição do cânone cinematográfico. Nesses casos, é recorrente se cair na homenagem reiterativa como o aluno que ao invés de acrescentar ao aprendizado oferecido pelo mestre apenas repete seus procedimentos.   Felizmente, nada disso acontece com A ilha de Bergman , por muito que se sublinhe em várias passagens da narrativa, certo culto que o diretor sueco inspira na cinefilia. Nem é possível fixar o filme de Mia Hansen-Løve como uma pura homenagem à Ingmar Bergman, porque sua qualidade, nesse território, é uma celebração a atividade criativa, e nesta, o cinema. Isto é...