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A limpeza de Roald Dahl

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Por David Rieff Roald Dahl. Foto: Dmitri Kasterine   A revelação de que as obras do famoso escritor de livros infantis Roald Dahl, reconhecido por Matilda , A fantástica fábrica de chocolate e As bruxas , foram sistematicamente expurgadas de linguagem que poderia ser considerada ofensiva para a sensibilidade da burguesia esclarecida da anglosfera provavelmente não deveria ter sido uma surpresa. A nossa não é apenas a segunda grande era de Bowdlerização, e as semelhanças entre os argumentos que Thomas, Jane e Henrietta Bowdler ofereceram quando apresentaram The Family Shakespeare em 1807 e aqueles agora oferecidos pela Random House/ Penguin’s Puffin Seal e Roald Dahl Estate para a completa desfiguração e “saneamento” moral da obra de Dahl são virtualmente indistinguíveis uma da outra.   Em ambos os casos, o objetivo declarado não foi relegar Shakespeare ou Dahl à lata de lixo da história (literária), mas salvar cada um desses autores de um tão ignóbil destino editando e reesc...

A vida futura, de Sérgio Rodrigues

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Por Pedro Fernandes Sérgio Rodrigues. Foto: Bel Pedrosa.   A biografia e a obra de Machado de Assis se transformaram num extenso manancial onde poetas e prosadores visitam com alguma frequência e dele retiram substrato para suas criações. E isso é uma das qualidades que nos leva a colocar o escritor brasileiro numa camada do imaginário por onde circulam os elementos que resultam no mito. Claro, não o mito enquanto entidade superior, impenetrável e por isso mesmo sinonímia de falsidade como a que se empregou corriqueiramente no Brasil para designar certo político, mas aquela substância imaterial que participa livremente das nossas vidas, entidade porosa e portanto matéria em contínua expansão, verdade indissociável de uma cultura.   O romance de Sérgio Rodrigues é uma peça extremamente sensível porque captura esse instante de transmutação cujas primeiras evidências só agora começam a se demonstrar melhor. O escritor que se fez reconhecido por O drible (2013) e também pela recr...

Tár não critica o poder, defende-o

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Por Alonso Díaz de la Vega   Martin Scorsese disse que quando viu Tár (2022), as nuvens negras dos céus cinematográficos se dissiparam. Perante um filme tão definido pela técnica e pela contemplação do tempo e do espaço, sentiu a esperança no futuro das imagens, normalmente abafadas pela homogeneidade e simplicidade da indústria contemporânea. Há quem sinta o contrário. Não posso falar por todos, mas a fé do nosso Marty me parece um sintoma de desespero num momento em que a distribuição cinematográfica rejeita a diversidade outrora proporcionada pelo sucesso de Michelangelo Antonioni — o radical Blow-up (1966) foi um dos dez filmes mais assistidos nos Estados Unidos quando foi lançado — ou de Federico Fellini — contaram-me a história de que a épica gay Satyricon (1969) chegou a uma pequena cidade, onde causou estragos na comunidade. O mais próximo que chegamos disso são as aventuras decididamente industriais complacentes, embora louváveis, do cinema coreano, enquanto filmes genui...

Houellebecq, o clone

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Por Juan Francisco Ferré Michel Houellebecq. Foto: Celeste Sloman   Michel Houellebecq é o primeiro escritor clonado da história. Ou o primeiro clone do escritor, se preferir. O primeiro romancista que adota a perspectiva do clone sobre o humano para narrar os últimos dias de sua existência no planeta Terra. Talvez este seja o desígnio final de sua literatura. E alguns de seus romances o iluminam com uma perversa autoconsciência, como A possibilidade de uma ilha , o mais incompreendido de todos, em parte por isso mesmo. Por nos mostrar em toda a sua crueza elementar a verdadeira evolução de Houellebecq desde a palhaçada ainda humana (o ângulo clown da sua literatura) ao riso pós-humano (o ângulo clone da sua vida e obra), finalmente dominante. Suas máscaras narrativas transitam, assim, entre avatares e clones, réplicas virtuais e duplos biológicos do carismático escritor.   Por outro lado, todos os romances de Houellebecq constituiriam o “inconsciente político” da hipermoder...

Um ponto no mar

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Por Bárbara Ayuso Juan Goytisolo, uma pessoa não identificada, Italo Calvino, Monique Lange, Luis Goytisolo e Jesús López Pacheco. Formentor, 1959.   Nasceu numa ilha, escreveu quase tudo em outra — que na realidade não era — e morreu numa península. A vida de Italo Calvino pode ser contada de várias maneiras, e quase todas incluem o mar. Mesmo que esteja ausente.   Começou trocando o Caribe pelo Mediterrâneo, de sua Cuba natal para San Remo. Também foi da resistência, mas isso já sabem. Em 1959 havia escrito A trilha dos ninhos de aranha , e ainda estava por vir a fronte límpida com que é lembrado e as obras que o tornariam um autor essencial do Novecento. Na época, Calvino, com 36 anos, sonhava em publicar O visconde partido ao meio na Espanha. Nunca havia pisado no país, mas era o que queria. Contou sobre a alguns amigos por carta. No final, aconteceu. De mãos dadas com Carlos Barral. Ele reservou o voo que trouxe o escritor italiano de Milão a Barcelona: pousou de madruga...

Dez poemas de Wang Fan-chih

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Por Pedro Belo Clara (Seleção e versões)*   Ilustração: Ma Yaun     I. vento e poeira entram por esta cabana adentro, pequena e de palha há uma manta rasgada sobre a cama se alguém vier, será convidado a entrar posso fazer dois montes de terra para nos sentarmos     II. não tenho carvão para me aquecer com um sopro, avivo o fogo alimentado por hastes de salgueiro e cânhamo tenho sake no jarro e o pote de três pernas ainda tem uma para se apoiar     III. muitos são os que desejam altos cargos um trabalho que pague o suficiente para encher duas tigelas de arroz é o quanto me basta o fogo que ferve o arroz no pote também aquecerá os meus pés     IV. sou pobre, então riem de mim sou tão pobre que o riso alheio encanta-me nenhum boi, nenhum cavalo nenhum ladrão me preocupa     V. ando há tanto tempo esfomeado caído no buraco do próprio estômago uma criança perdida, sofrendo — oh, mãezinha, como pudeste dar-me vida?     VI. ...