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A trindade de Raymond Radiguet, uma radiografia da sua obra

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Por José Homero Raymond Radiguet, 1921. Foto: Man Ray   “Raymond Radiguet compartilha com Arthur Rimbaud o terrível privilégio de ser um fenômeno da literatura francesa.” Esta afirmação de Jean Cocteau no prefácio à edição dos textos inéditos do seu antigo protegido e amante sela uma associação que Radiguet suscitou da sua inoportuna e tempestuosa irrupção.   Nascido em 18 de junho de 1903 às margens do Marne, no Parc-Saint-Maur, abandonou a escola aos catorze anos para se dedicar à vagabundagem e à leitura dos clássicos franceses. Filho de um cartunista, aos quinze anos viajava a Paris para entregar os cartuns e esboços de seu pai Maurice ao L'Intransigeant , para o qual ele também logo colaboraria. Nas dependências do jornal conheceu André Salmon, cuja influência seria decisiva para o futuro escritor, ao introduzi-lo no círculo da boêmia e da vanguarda parisiense.   Apesar de sua fama de talento precoce — então decantado numa poesia que sugeria tanto o modelo cubista qu...

Treze tankas de Ishikawa Takuboku¹, em “Brinquedos Tristes” (1912)

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Por Pedro Belo Clara (Seleção e versões)* I. este som no meu peito quando respiro — mais solitário que o vento do inverno     II. a filha tarda em regressar das suas brincadeiras pego no comboio em miniatura e faço-o correr     III. de repente, senti que teria de caminhar para sempre nestas ruas à meia-noite     IV. hoje, de novo, sake² — conheço cada vez melhor estas náuseas de beber     V. como um comboio passando por campos desolados esta agonia, de quando em vez, atravessando o coração     VI. de certo modo é como visitar o sepulcro do primeiro amor esta vida nos subúrbios     VII. creio na chegada duma nova manhã! — digo estas palavras com seriedade mas…     VIII. repreendendo várias vezes a minha debilidade e, miserável, perguntando-me porque sou assim fui pedir dinheiro emprestado     IX. nestes últimos quatro ou cinco anos nem por uma vez observei o céu pode um homem mudar assim tanto?   ...

Boletim Letras 360º #536

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Martin Amis Foto: Lisbeth Salas LANÇAMENTOS   O premiado livro de ensaios de Ursula K. Le Guin ganha edição no Brasil .   Por anos, a escritora Ursula K. Le Guin conquistou gerações de leitores com seus mundos imaginários. Durante a última parte de sua vida, a velhice, ela explorou um novo território: ensaios para o público geral, publicados em seu blog. Esses textos estão reunidos aqui e representam a junção perfeita da escrita envolvente e evocativa de suas narrativas ficcionais com temas universais como envelhecimento, família e... amor, seja por seus amigos, seja por seus animais de estimação. Com maestria ímpar e um domínio narrativo sem igual, Le Guin conduz o leitor por seus questionamentos e reflexões sobre como envelhecer muda a percepção que temos do mundo a nossa volta. Sem cair em um monólogo piegas nem em uma glorificação infundada, ela consegue mostrar com clareza os sofrimentos e as grandezas de um período da vida tão pouco explorado na literatura. Sem tempo a ...

David Foster Wallace na linguagem do outro

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Por Alejandro Zambudio David Foster Wallace. Foto: Gary Hannabarger   Ele foi o melhor escritor de sua geração. Um gênio sem igual. Parecia estar à frente em todos os sentidos. Foi uma criança diferente, com pais cultos que discutiam Ulysses na cama. Era elitista e obsessivo. Tão esperto que ficava entediado na escola, mesmo com os que eram bem mais velhos que ele. David Foster Wallace teve uma infância feliz e normal. Anos depois, ele insistiria muito nisso. Era um garoto magro, com o mesmo penteado de John Lennon em Rubber Soul . Como D. T. Max relata em Every Love Story A Ghost Story : “Embora gostasse das palavras, Wallace não era muito aficionado pela literatura; na verdade, achava que era mesmo bom em lógica e quebra-cabeças. Um de seus amigos de infância conta que certa vez compareceu a uma sessão de autógrafos de Wallace e ficou surpreso ao ver que seu amigo ainda era capaz de recitar o número de vinte e cinco dígitos que aprenderam quando crianças”. Foi na escola que com...

Canto eu e a montanha dança, de Irene Solà

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Por Sérgio Linard Irene Solà. Foto: Libert Teixido   O trabalho e o consumo da literatura contemporânea — tanto em eixos nacionais quanto em internacionais — costumam apresentar caminhos espinhosos nos quais ideologias, discursos e pontos de vista precisam estar muito bem expostos sob pena de as obras não terem algum valor reconhecido para além do debate da hora do dia. Com isso em vista, certas obras podem amargar o ostracismo por não se encaixarem naquilo que se espera para o devido engajamento das mídias ou dos debates vigentes. Esse percurso acaba colocando a literatura no perigoso caminho (algum dia ela esteve fora dele?) de se fazer ser entendida e articulada com aquilo que dela esperam. Quando o projeto literário, de textos da contemporaneidade, foge disso, encontra resistências mercadológicas e de público. Felizmente, porém, certas obras literárias garantem nosso suspiro nesta clausura e Canto eu e a montanha dança é uma dessas obras.   O romance da escritora catalã I...

Medo sob o sol

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Por Martín Sacristán   Ao final daquele longa apresentado na Berlinale, o público explodiu. Metade em aplausos e a outra em vaias. Não muito diferente foi a reação dos críticos. Gregory Valens, renomado crítico de cinema e colaborador da Positif , considerada por Martin Scorsese a melhor revista de cinema do mundo, apontou que os personagens agiam de forma inconsistente. Um determinado a matar, os outros a sobreviver, e isso apesar do anúncio inicial de que em oitenta e duas horas o impacto de um grande meteorito contra a Terra tornaria a vida impossível. As cenas de violência verbal e física contra crianças eram repugnantes, acrescentava, prevendo que só teria sucesso em seu país natal. Jay Weissberg, na Variety , escreveria que com o filme “homens em idade universitária podem se divertir, mas as chances de sobrevivência fora da Espanha são mínimas”.   Naquele ano em que foi apresentado Três dias (2008), a maior parte do público tinha na memória a lembra de blockbusters o...