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Estive lá fora, de Ronaldo Correia de Brito

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Por Pedro Fernandes Ronaldo Correia de Brito. Foto: Jorge Clésio A obra de Ronaldo Correia de Brito a um só tempo se apresenta integrada a uma tradição literária brasileira e em busca de expandi-la em novas fronteiras. Estive lá fora é um romance em constante esquiva; reitera algumas das preocupações da nossa prosa posterior aos anos de ditadura militar mas sem se render a apelos do tipo histórico, revisionista, ou social, panfletário de uma causa. Seu interesse é exclusivamente pelo homem encalacrado nas circunstâncias do seu tempo, em tentativa desesperada pelo estabelecimento de um lugar no mundo e encontrando na arte a expressão essencial do ser ou a terceira margem capaz de conduzi-lo por fora dos limites das ideologias prisioneiras e infecundas.   A noção de esquiva apontada antes não se encontra apenas como um lugar ocupado por este romance; é peça implicada no funcionamento da sua narrativa. Já no episódio inaugural, encontramos Cirilo, o protagonista, no beiral da ponte d...

Gótico rural: o oeste de Martin McDonagh

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Por Bruce Swansey Desde que suas primeiras obras apareceram nos palcos ingleses e irlandeses, o trabalho de Martin McDonagh causou sensação. A crítica não poderia ter sido mais elogiosa, o autor ganhou vários prêmios, e mesmo quando seu trabalho foi questionado por sua afinidade com a caricatura colonial do irlandês e suas circunstâncias destituídas de esperança e sentimental, porém cômicas, a irreverência de McDonagh foi resgatada. Destacado como o escritor mais importante no teatro irlandês de John Millington Synge, com quem se identifica, McDonagh nasceu em Londres, especificamente ao oeste da ilha, onde passou os verões de sua infância.   A geografia é uma chave para aproximar-se à obra teatral e cinematográfica de McDonagh. O oeste irlandês tem uma forte presença nas artes, um processo que não representa a realidade, mas imagens do país que fazem parte de sua identidade. A paisagem expressa um ideal nostálgico, uma emoção inspirada pelo lugar que nos contém e nos une como part...

Nota sobre Sontag: O que ela queria para mulheres*

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Por Merve Emre Susan Sontag. Foto: Diane Arbus   Uma certa preocupaçã o cerca a crítica que pediu para introduzir um volume de escritos anteriores de Susan Sontag sobre mulheres, temendo encontrar neles ideias expressas de um passado distante, e menos iluminado. Mas os ensaios e as entrevistas em On Women , 1 uma nova coleção de trabalhos de Sontag, são incapazes de envelhecerem mal. Embora os excertos tenham cerca de 50 anos, o efeito de ler eles hoje é admirar a atemporalidade de sua genialidade. Eles não contêm ideias prontas, nem retóricas emprestadas — nada que se arrisque em solidificar-se em um dogma ou clichê. Eles oferecem a nós o espetáculo de uma intelectualidade feroz que se dedica para a tarefa que têm em mãos: articular a política e a estética de ser uma mulher nos Estado Unidos, na América, e no mundo.   O glamour singular de Susan lhe causou alguma injustiça, particularmente onde questões de sexo e gênero estão envolvidas. Desconfiados de sua fama, e convencid...

Eudora Welty, interiorana universal

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Por Bibiana Camacho Eudora Welty. Foto: Ulf Andersen A observação é uma das qualidades mais importantes de qualquer artista. Um certo tipo de escritor, como Eudora Welty, tem a capacidade de selecionar as peculiaridades nas pessoas e situações mais aparentemente banais para retratá-las por meio da escrita. Não à toa, um de seus autores preferidos e com quem mais se identificava no tratamento dos personagens era Anton Tchekhov. Eudora adorava como transmitia a sensação de que seus personagens conversavam o tempo todo sem que ninguém prestasse atenção. Certamente ele se referia à capacidade de Tchekhov de retratar as situações cotidianas e captar ambientes de tal forma que, ao ler, alguém se sinta verdadeiramente o sufocamento, o calor, o frio, a tensão do ambiente.   Antes de se dedicar à literatura em meados dos anos 30, Eudora alternava suas atividades entre a literatura e a fotografia. Trabalhou na Works Progress Administration e viajou por todo o Mississippi tirando fotos das ví...

Boletim Letras 360º #538

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Ilustração: Daniel Haskett LANÇAMENTOS   A Shakespeare and Company em evidência. Dois livros que chegam aos leitores brasileiros estão centrados em torno da mítica livraria francesa .   1. Um romance sobre a fundadora com ares de Meia-Noite em Paris . Quando a jovem norte-americana Sylvia Beach abre a Shakespeare and Company em uma rua tranquila de Paris em 1919, não tem ideia de que ela e sua nova livraria mudarão o curso da história da literatura. A Shakespeare and Company é mais do que uma livraria e uma biblioteca: ali se reúnem muitos escritores proeminentes dos anos 1920 e 1930, como Ernest Hemingway e F. Scott Fitzgerald. É também onde nascem algumas das amizades literárias mais importantes da época — em especial, aquela entre o escritor irlandês James Joyce e a própria Sylvia. E quando o controverso novo romance de Joyce, Ulysses , é censurado nos Estados Unidos, Beach decide assumir um risco enorme e publicá-lo na França. Mas o sucesso e a notoriedade da publicaç...

Amor e palavra em Eugénio de Andrade

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Por Géssica Moreira Ramos   Ilustração:  Sophie Lécuyer   ADEUS   Já gastámos as palavras pela rua, meu amor, e o que nos ficou não chega para afastar o frio de quatro paredes. Gastámos tudo menos o silêncio. Gastámos os olhos com o sal das lágrimas, gastámos as mãos à força de as apertarmos, gastámos o relógio e as pedras das esquinas em esperas inúteis. Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada. Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro, era como se todas as coisas fossem minhas: quanto mais te dava mais tinha para te dar. Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes. E eu acreditava. Acreditava, porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis.   Mas isso era no tempo dos segredos, era no tempo em que o teu corpo era um aquário, era no tempo em que os meus olhos eram realmente peixes verdes. Hoje são apenas os meus olhos. É pouco, mas é verdade, uns olhos como todos os outros.   Já gastámos as palavras. Qua...