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O mau selvagem de Lira Neto — que Oswald é esse?

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Por Lucas Paolillo “É inevitável que o biógrafo se pergunte, em alguns —ou em vários — momentos do trabalho: até que ponto ele tem o direito de se esgueirar, sem maiores restrições, pelos desvãos da privacidade alheia? Quando a pesquisa passa a se confundir com o mexerico, a investigação com a fofoca, o estudo com a bisbilhotice? Aprendi não haver balizas definidas entre um território e outro. Tomo como regra ponderar sobre o quanto determinada informação — por mais indiscreta e inconveniente que seja – será relevante para a compreensão do biografado” — Lira Neto, em “Breve ‘biografia’ da biografia” , 2022.  “Era uma vez O mundo” — Oswald de Andrade, em “Crônica”, 1927. Oswald de Andrade em retrato como candidato a deputado federal, 1950. Coleção Marilia de Andrade. Acervo CEDAE/Unicamp. Foto: autoria desconhecida Ao se manifestar sobre a atividade dos biógrafos, o experiente jornalista João de Lira Cavalcante Neto, o nosso Lira Neto, costuma mencionar a ausência de produções defin...

“O diabo fuma” ou o mistério da imagem final

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Por Carlos Rodríguez  Existem filmes que, entre outras coisas, valem a pena simplesmente por sua imagem final; como se fosse som de um clique, a última imagem fecha o ciclo que o filme inicia. Não é uma imagem didática que explica a história, mas sim uma que a contém. Penso, por exemplo, no final de Longa jornada noite adentro (2018), de Bi Gan, onde um sinalizador, uma vez aceso, continua queimando — uma imagem do tempo relativo, da quietude, uma exploração da extensão da realidade para a fantasia do diretor chinês. A imagem final O diabo fuma (e guarda as bitucas todas na mesma caixa) (México, 2025) também contém o que o diretor Ernesto Martínez Bucio mostrou na hora e meia de filme, que acompanha cinco irmãos entre sete e quatorze anos, confinados em casa. Para chegar à imagem final, que também serve como coda fantástica para o diabólico título do filme — vencedor do prêmio de Melhor Primeiro Filme na seção Perspectivas do Festival de Berlim de 2025 — o diretor desenvolve uma ...

Best-sellers de outros tempos: Harriet Beecher Stowe na cabana do pai Tomás

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Por Javier Pérez  Harriet Beecher Stowe. Foto: Studio Southworth and Hawes Há momentos em que religião e literatura se fundem de forma tão perfeita que se torna difícil discernir onde termina o sermão e começa o romance, onde termina a moralismo e começa a lição moral, onde termina a conscientização e começa a panfleto. Harriet Beecher Stowe nasceu em Litchfield, Connecticut, em 14 de junho de 1811, e morreu em Hartford em 1º de julho de 1896. Ambos os lugares ficavam no que hoje seriam os estados do norte dos Estados Unidos, e vale ressaltar que Harriet nunca havia visitado o Sul antes de escrever A cabana do pai Tomás , nem mesmo para pesquisa ou para se familiarizar com a região. Quando viajou para a Flórida anos depois, foi para promover laranjas, que então começavam a ser comercializadas em todo o país, impulsionadas pela expansão das ferrovias. De fato, ela chegou a comprar uma casa em uma cidade chamada Mandarin, hoje um subúrbio de Jacksonville. Harriet era a sexta de onze ...

Contos de Platônov: presente literário

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Por Marcelo Jungle Andrei Platônov é o escritor da piedade que escreve com um coração ressequido. Essa contradição — ternura e aridez — define toda a sua obra e exige do leitor uma disposição paradoxal: aceitar que o amor pela humanidade pode manifestar-se precisamente através da linguagem que recusa consolar. Em seus últimos contos, essa tensão atinge seu ponto mais agudo. O amor pela pátria e outras histórias , segunda coletânea de contos do autor lançada pela editora Ars et Vita em tradução direta do russo por Maria Vragova, reúne textos do período final — escritos entre 1936 e 1946. Nessa época, já marcado pela perseguição política e pela morte prematura do filho, voltou-se para narrativas que, à primeira vista, parecem sem sentido, protagonizadas por crianças e velhos — os guardiões da verdade. Sob a singeleza desses contos esconde-se uma das literaturas mais radicais do século XX. Em plena consolidação da União Soviética, ele parece ter buscado a salvação da alma ainda durante a ...

Boletim Letras 360º #663

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DO EDITOR Saiba que na aquisição de qualquer um dos livros pelos links ofertados neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajudar a manter o  Letras , sem qualquer custo extra. O seu apoio continua essencial para que este projeto permaneça online. LANÇAMENTOS Um soco. E a vida de Renato tornou-se um inferno. O novo romance de Menalton Braff .   Em Enfim a liberdade , o leitor acompanha a trajetória de Renato, o protagonista, professor, casado com Circe e pai de dois filhos. A narrativa flui ao sabor da memória, das reflexões, das dúvidas e questionamentos do personagem, que, depois de cumprir pena, retorna a um mundo que não existe mais. Sua mulher, seus filhos, sua casa, nada restou além de suas lembranças. Sozinho num ambiente hostil, onde tudo lhe é negado, Renato sobrevive por obra da solidariedade de um antigo vizinho, uma boia jogada a alguém na iminência do afogamento. Ele resiste. A formação humanista herdada do pai — por quem sempre teve admiração — aliad...

Manhã e noite, de Jon Fosse

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Por Sérgio Linard  Jon Fosse. Foto: Christoph Hardt Quando resenhei para este blog o excelente A casa de barcos , do norueguês galardoado de modo muito justo com o Nobel de literatura de 2023, indiquei que aquela seria uma boa obra para se ter um primeiro contato com a escrita de Fosse. Àquela época, dispúnhamos de poucas obras traduzidas do autor, sendo É a Ales e Melancolia (essa em edição esgotada) algumas dessas poucas.  Hoje, como era de se esperar, o autor ganhou algumas casas editoriais novas e sua obra passou a ser mais frequente e comum entre os livreiros. De 2023 para cá, temos notícias de sua Trilogia , de Brancura , de uma antologia de poemas e o anúncio da tradução de seu monumental romance Heptalogia ; também algumas de suas peças já estão disponíveis para o leitor brasileiro. Em pouco tempo, Jon Fosse saiu de uma certa obscuridade do lado de cá do Atlântico e passou a uma popularidade que somente um prêmio desta monta poderia fazer. Sorte a nossa.  Dentre...