A mulher de Gilles e a releitura feminista de Bourdouxhe
Por Felipe Vieira de Almeida
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| Madeleine Bourdouxhe |
Élisa é a esposa de um trabalhador da indústria pesada belga, criando duas filhas gêmeas e grávida novamente quando descobre que o marido, Gilles, mantém um caso com a irmã mais nova dela. É a partir desse enredo simples que a escritora belga Madeleine Bourdouxhe constrói a narrativa do livro A mulher de Gilles, título ambíguo cujo duplo sentido do título originial foi mantido pela tradutora Monica Stahel — Élisa é tanto esposa quanto propriedade de Gilles.
O livro de Bourdouxhe foi publicado originalmente pela prestigiada editora Gallimard em um momento de valorização da literatura belga no meio literário francês após Charles Plisnier ter sido agraciado com o Prêmio Goncourt em 1937. Apesar da estreia auspiciosa em casa de renome, a obra, que teve recepção positiva com elogios muito direcionados ao estilo, perdeu força sob o rótulo de literatura proletária e chegou a ficar fora de catálogo durante anos.
Bourdouxhe participou poucos anos depois da resistência à ocupação alemã do território belga, momento em que rompeu relações com o grupo Gallimard por continuar a negociar colaborações com autoridades alemãs durante a ocupação francesa. Esse racha se refletiu em suas obras subsequentes publicadas por editoras com menor projeção e culminou na recusa de Sous le pont Mirabeau pela própria Gallimard em 1956, obra em que ela narra seu trabalho de parto em meio à invasão da Bélgica durante a Segunda Guerra.
A edição de A mulher de Gilles com já referida tradução assinada por Monica Stahel que nos chega é da editora Carambaia; o livro inclui ainda posfácio de Michel Thorgal. É um trabalho ainda no andamento da vaga de resgate da obra Madeleine Bourdouxhe iniciada pela intelectualidade feminista. Sabemos que o romance foi imortalizado após citação direta em 1949 em O segundo sexo, de Simone de Beauvoir por um viés já dentro dessa vertente de pensamento, valorizando um aspecto da narrativa que não foi aventado à época da publicação, visto que a recepção crítica girou em torno do estilo sutil e sóbrio que a autora belga soube incutir ao que era tido como o gênero do romance proletário.
De toda maneira, só nos anos 1980 é que podemos falar de uma ressurgência de A mulher de Gilles, quando o livro obteve reedições na Bélgica e na França sob o cuidado de publicações e editoras feministas. A redescoberta do livro é, entre diversas abordagens possíveis, uma releitura sob uma ótica que foca no papel da mulher, nas relações de gênero e na estrutura patriarcal do período entreguerra belga.
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“Gilles vem de novo debruçar-se na janela. Ele não pensa em nada, e em um monte de coisas bem pequenas. Amanhã é domingo... o cheiro de sopa continua se espalhando... as flores do jardim são bonitas... Como a vida é doce, Gilles...”
Ao ler esse livro hoje é difícil fugir a alguns pontos comuns, entre eles, a ideia do lugar de fala que, apesar da banalização do termo, é um dos grandes trunfos nessa obra de Bourdouxhe ao nos permitir perscrutar psicologicamente a mentalidade de uma personagem que representa um grupo de mulheres acessível a nós décadas depois por conta do trabalho dessa escritora.
Deve-se, no entanto, manter a devida proporção visto que se ela escreve acerca da vida de uma mulher belga, também o faz a partir da sua posição assimétrica socialmente em relação a sua personagem. De um lado, uma intelectual com educação de alto nível, do outro, a mentalidade da esposa do grande proletariado, todavia, esse também é um pudor mais acadêmico do que propriamente limitante para uma leitura crítica do livro.
As questões da divisão e não remuneração do trabalho doméstico acompanham a narrativa como um quarto personagem no triângulo amoroso que se desenvolve ao longo da narrativa. A vida de Élisa gira em torno dos intervalos de trabalho doméstico e devoção ao marido, sendo que a própria marcação do tempo subjetivo da protagonista é cadenciada por suas atividades como mãe, esposa e dona de casa.
Um dos parágrafos começa com uma introdução desconcertante: “Ao acordar, Gilles vai fazer amor. No domingo de manhã é sempre assim: tem o tempo todo pela frente e não está exaurido por uma jornada inteira de trabalho.” O amor de Gilles aos domingos assim descrito como uma atividade dele, depende da boa vontade dela ao cumprir seu papel dentro da vida doméstica que aprecia com sinceridade:
“Deixa-se tomar, dócil e doce, fascinada pela alegria que ilumina o rosto debruçado sobre ela, e quando Gilles, preocupado por um primitivo orgulho masculino, lhe pergunta desajeitado se ela teve prazer, responde com toda a boa-fé, sem conceber que seja possível imaginar para si outra alegria que não a de poder oferecê-la a Gilles.”

Essa narrativa que arde em fogo baixo, na qual a autora evita se impor moralmente sobre o texto deixa em aberto aspectos que são rapidamente preenchidos pelo leitor; é justamente nesses pontos em que a narrativa dá espaço para nova força. Bourdouxhe dá um passo atrás criando um terreno em disputa: “Assim, acomodando-se à dor que acabara lhe impregnando o coração e a carne, eles voltaram a se tornar familiares para ela. // E, monótona, a vida que fluía naturalmente na felicidade fluiu naturalmente na infelicidade.”
A voz narrativa nos leva da felicidade idealizada, ou simplesmente possível, da vida proletária para dentro de um drama de mesma medida, uma traição a princípio insuspeitada que adquire contornos de desastre para o seio familiar. Ela acompanha esse jogo perigoso sem cair no melodramático, ainda que vejamos o desenrolar dessa história majoritariamente pelos olhos de Élisa.
Élisa se torna o ponto de convergência entre o mundo do trabalho da indústria pesada belga, seu próprio trabalho de manutenção da casa e criação dos filhos. Os recortes sociais citados cercam a mulher casada que tropeça no limite entre vítima de seu marido, mas fracasso como mulher diante das expectativas sociais de sua época. Assim, não surpreende a indiferença com que ela expressa ao longo do livro em relação aos rumos da economia no que diz respeito ao trabalho do marido ou outros aspectos políticos de maior monta.
Fechada em seu mundo doméstico, Élisa vive dentro dos limites estabelecidos socialmente e as grandes mudanças político-econômicas pouco alterariam a sua vida, mantida por outra estrutura de poder descentrada da mulher. Impressiona pensar que durante as grandes mudanças na Europa do século passado a estrutura patriarcal foi mais perene do que os grandes projetos nacionais e militares.
Nesse sentido, Élisa é alienada socialmente a tal ponto que seu próprio horizonte de possibilidades é limitado ao mundo doméstico e suas adjacências. A magnitude da alienação da personagem tem consequências importantes para o desfecho da história e é construída com leveza pela autora sem abrir mão de tocar em temas maiores. Madeleine Bourdouxhe desenvolve um compasso que prende o leitor se não pela novidade do tema, definitivamente pela maestria como o faz.
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A mulher de Gilles
Madeleine Bourdouxhe
Monica Stahel (Trad.)
Carambaia, 2023
168 p.

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