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Mostrando postagens com o rótulo Fernanda Fatureto

Em diálogo com Marguerite Duras

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Por Fernanda Fatureto Marguerite Duras. Foto: Bettina Rheims Marguerite Duras este ano completa 109 anos. Nasceu em 4 de abril de 1914 na Indochina (hoje Vietnã), filha de pais franceses, emigrou para a França em 1932. Faleceu em 1996, aos 81 anos. No Brasil vemos a reedição de sua obra pela mineira Relicário Edições — que já lançou Hiroshima meu amor ; Moderato cantabile e Escrever . Também a Bazar do Tempo reeditou recentemente, da escritora, A do r.   A escritora francesa exerce um grande fascínio em todos os seus leitores. Fruto de uma escrita densa que permeia temas universais como o amor, a dor, a morte e o próprio ofício de escrever (tema que me parece recorrente em seus livros e que a liga ao movimento do Novo Romance Francês).   Segundo Leyla Perrone-Moisés em “O novo romance francês”, a experiência do romance para Duras é mais filosófica do que artística, embora seus livros neste gênero sejam muito bem elaborados. Para os “novos romancistas” a preocupação era esti...

Maria Gabriela Llansol: a escrita do corpo ou o corpo da escrita

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Por Fernanda Fatureto   Maria Gabriela Llansol (1931 – 2008) é uma escritora inclassificável. Sua escrita flerta com o inaudível e incorpora, em sua obra, o vazio. A escritora negava dizer que seus textos eram parte da ordem do ficcional. Para ela, escrever era abarcar o mistério da existência de todos os viventes sob a terra — seja uma planta, um animal, pessoas… Todos eram parte de um mesmo universo que ela transmitia em sua escritura.  A escritora nascida em Lisboa não fazia distinção entre os “viventes” (como gostava de dizer) e até mesmo autores que admirava como Nietzsche, Fernando Pessoa, Rilke, Bach eram transpostos para seus textos sob a forma de “figuras” e não personagens.   João Barrento, pesquisador e responsável por editar sua obra e organizador do Espaço Llansol em Portugal, organiza desde meados de 2007 e 2008 o espólio da autora e edita os diários que Maria Gabriela Llansol escreveu desde seu exílio na Bélgica na década de 1970. Chamado de Livro de Horas...

Alejandra Pizarnik: correspondências

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Por Fernanda Fatureto Alejandra Pizarnik. Arquivo Flia D'Amigo-Digisi. As correspondências de Alejandra Pizarnik e seu psicanalista Léon Ostrov foram reunidas em livro em 2012. Cartas tem edição de Andrea Ostrov e mostra a relação íntima que Pizarnik trava com o papel e sua confiança no profissional. Dessa relação que se converte num tipo de amizade a argentina constrói belos momentos quando da sua estadia em Paris.   “Léon Ostrov foi o primeiro psicanalista de Alejandra, que recorreu a ele quando tinha apenas 18 anos, em meio de 1954. Quando ela se instalou em Paris, entre 1960 e 1964, estabeleceu uma relação epistolar que se converteu em 21 cartas. A relação de amizade entre Pizarnik e Ostrov foi sustentada pelo profundo interesse de ambos por literatura e filosofia.”, afirma-se na introdução do livro.   A poesia de Alejandra Pizarnik nasce da angústia e do contato com o vazio. Léon Ostrov lhe impulsiona a persistir nessa busca: “tenta lhe dar ânimo, reforçar sua autoesti...

A vez e a voz das escritoras latinas

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Por Fernanda Fatureto     Mariana Enríquez. Foto: Nora Lezano. Mariana Enríquez é uma das principais escritoras latino-americanas em destaque no exterior; esteve na 17ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) ano passado para falar sobre o seu trabalho e lançar um novo livro Este é o mar (Intrínseca) – publicado no Brasil este ano. Nascida em Buenos Aires em plena ditadura militar argentina, na década de 1970, presenciou os horrores da repressão e das disfunções sociais causadas pelo regime político. A escritora faz parte de uma geração de escritoras latinas que tem conquistado reconhecimento e os principais prêmios internacionais junto a nomes como a argentina Samanta Schweblin, a mexicana Valeria Luiselli e a brasileira Ana Paula Maia. Ganhou o prêmio espanhol Herralde de Novela em 2019 pelo romance Nuestra parte de noche . Também recebeu o prêmio Ciutat de Barcelona, dois anos antes.  Mariana Enríquez é autora de mais de dez livros, como As coisas que perdemos...

Poesia e metalinguagem em A palavra algo, de Luci Collin

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Por Fernanda Fatureto Como em um lance de dados Luci Collins celebra o jorro da linguagem em A palavra algo (Iluminuras, 2016) – livro que lhe concedeu o segundo lugar no Prêmio Jabuti 2017. A metáfora dos dados pode ser encontrada no poema “Lances” em que mostra como Collin utiliza as palavras para “cumprir o poema”: “dado que nos poreja / cumprir o poema / sagrar sua sorte/de verbos em chamas”. Sua poesia – apesar de cerebral – estabelece essa conexão com o improvável, o que lhe garante maior liberdade para compor seus versos:  dado que é sem doutrina  jogo de emblemas  ondulação das cortinas que tudo a voragem do início e os sons feito fossem azes  estilando  o âmago desimpedido de um esplêndido algo. Seu único comprometimento é com a poesia, ela mesma enquanto fluxo constante, como escreve em “Tule”: “assim aqui não se traceja perguntas / que os passos da dança são um jorro / as falas são manjar e reeditam / o...

Nadando de volta para casa, de Deborah Levy

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Por Fernanda Fatureto O passado, em alguns casos, carrega uma carga pesada demais. Superar os fatos e seguir em frente é uma decisão individual. Encontrar as respostas do que se viveu na poesia pode ser uma saída plausível para suportar a dor, mas nem todos conseguem sublimá-la. É o que acontece em Nadando de volta para casa – novela da escritora britânica Deborah Levy publicada no Brasil em 2014 pela Editora Rocco. O enredo conta a história do poeta inglês Joe Jacobs, de sua mulher Isabel Jacobs e de sua filha Nina ao passarem as férias numa casa alugada da Riviera Francesa. Em um dia de sol na piscina, encontram uma intrusa nadando: Kitty Finch, uma jovem botânica aspirante à poeta chega sem avisar enquanto a mulher de Joe a convida para ficar. Mas Kitty estava à procura do famoso poeta. Ela veio lhe mostrar seu poema – Nadando de volta para casa. Kitty Finch nascera em Londres e passou alguns meses internada por uma crise de ansiedade. O passado de Kitty era pesad...

Com armas sonolentas, de Carola Saavedra

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Por Fernanda Fatureto Carola Saavedra, escritora brasileira nascida no Chile, afirmou em um artigo seu para a revista Claudia de setembro do ano passado que é urgente tomar posse do próprio corpo, da nossa alma e da nossa história: “Quem somos? É urgente começar a contar a própria história”, afirma. É justamente o que a escritora busca em seu mais recente livro – Com armas sonolentas , publicado pela Companhia das Letras em 2018. O título remete ao verso “com armas sonolentas” do poema “Primeiro sueño” de Sor Juana Inés de la Cruz, poeta mística nascida no México do século 17. No livro de Carola Saavedra há esse diálogo com o insondável e o onírico numa trama que narra a vida de três mulheres ligadas pela maternidade. Dividido em duas partes, conhecemos as histórias independentes de Anna Marianni, Maike e a Avó. Anna – uma atriz sem fama em busca de reconhecimento que mora no Rio de Janeiro e tem a chance de conhecer um prestigiado cineasta alemão, com quem se cas...

A vida e a arte de Sylvia Plath

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Por Fernanda Fatureto A biografia de Sylvia Plath, Ísis americana: a vida e a arte de Sylvia Plath (Bertrand Brasil, 2015), de Carl Rollyson, compreende toda a vida da poeta americana e é das mais completas já publicadas sobre uma das mais lendárias figuras modernas do século XX. Porque exerceu diversos papéis-chave como mulher na sociedade americana e inglesa das décadas de 1950 e 1960. Sylvia não era apenas um rosto bonito, uma blond girl , femme fatale capaz de seduzir homens com quem manteve correspondência amorosa até conhecer o poeta Ted Hughes. Durante o período de formação na Smith College, nos Estados Unidos, foi aluna destaque em literatura e eleita editora da Smith Review . Nos anos de 1950 foi convidada para ser editora na revista de moda   Mademoiselle e passou uma temporada em Nova York lhe rendendo histórias, muitas delas deram composição ao livro A redoma de vidro , seu único romance publicado. O professor de jornalismo da Baruch College, em Nov...

Hilda Hilst e o inominável das palavras

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Por Fernanda Fatureto Hilda Hilst saiu do terreno das sombras. As sombras eram elementos presentes nas queixas da própria autora, que reclamava que lhe faltava em vida leitores e críticos interessados em sua obra. Escreveu mais de vinte livros de poesia, muitos de prosa e teatro. Recebeu o prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Artes (APCA) em 1981 e o Jabuti em 1994, mas ainda assim afirmava que ninguém a lia. A partir dos anos 2000, sua obra começou a ser reeditada  – aumentando seu número de leitores. Dessa safra de edições, faz parte Fico besta quando me entendem (Biblioteca Azul, 2013), coleção de vinte entrevistas que Hilda Hilst deu dos anos 1950 a 2003 reunidas pela Editora Globo com organização do pesquisador  Cristiano Diniz. Alegava que, se muitos definiam sua literatura como inacessível, era porque lidava com o sagrado. Afirmou a Vilma Arêas e Berta Waldman em 1989: “A poesia tem a ver com tudo o que não entendo. Tem a ver com a solenidade...

Wisława Szymborska, a poeta do acaso

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Por Fernanda Fatureto No poema “Entre muitos”, incluído na antologia Poemas (Companhia das Letras, 2011), Wisława Szymborska anuncia: “Sou quem sou./Inconcebível acaso/como todos os acasos./Fossem outros/os meus antepassados/e de outro ninho/eu voaria/ou de sob outro tronco/coberta de escamas eu rastejaria”. Este é um dos poemas-chave para adentrar o universo de Szymborska. Nascida na Polônia, em 1923, presenciou a guerra em seu país durante duas trágicas ocupações – a nazista na Segunda Guerra Mundial e, posteriormente, a Stanilista que forjou mais de quatro décadas de totalitarismo. Regina Przybycien, tradutora da poeta no Brasil, afirma no prefácio de Poemas que após a morte de Stálin “os escritores na Polônia puderem seguir com maior liberdade em busca de uma voz individual”. No caso de Szymborska, encontraremos a casualidade da existência humana e da natureza dialogando entre si, numa rara postura de que a poeta nada sabe e encontra nas palavras a interrogação fund...

Os Diários de Sylvia Plath: a arte próxima da vida

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Por Fernanda Fatureto Sylvia Plath não é a Marilyn Monroe da literatura moderna, como afirmou certa vez um de seus biógrafos. O estereótipo de femme fatale aliado à ingenuidade construído por Marilyn não condiz com a força intelectual de Sylvia – fato que se confirmou em sua produção acadêmica e literária. Os Diários de Sylvia Plath: 1950-1962 reeditados em 2017 pela Biblioteca Azul e organizado pela pesquisadora Karen V. Kukil, vem confirmar o que leitores mais atentos já sabiam: Sylvia Plath foi muito mais que uma devoradora de homens, como escreveu em seu poema “Lady Lazarus” (“I eat men like air”). Também foi muito mais do que a escritora em profundo descompasso emocional que cometeu suicídio aos 30 anos. A poeta norte-americana escrevia diários que relataram seu desejo em ser reconhecida intelectualmente. Seus diários mostram a profundidade de seu pensamento e a maturidade da escrita que a alçou como uma das principais escritoras do século XX. Os registros ...