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Naipaul no mundo

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Por Antonio Muñoz Molina Um acontecimento simples bem contado adquire por conta própria uma qualidade de símbolo. Não é um adorno literário: é um achado cognitivo. O símbolo sintetiza e explica o real, à maneira de uma equação ou de uma fórmula química. Um acontecimento assim está no coração de O enigma da chegada , que é já em si uma síntese de toda a literatura de V. S. Naipaul, de sua ideia de mundo e de si mesmo, da origem de sua vocação literária e o processo difícil de autoconhecimento sem o qual não é possível a aprendizagem do ofício. No romance, que só o é até certo ponto, o jovem Naipaul começou enfim uma viagem que o levará de Trinidad à Inglaterra, da periferia semicolonial à metrópole. Será uma viagem longa e difícil para o estudante que não sabe nada sobre o mundo, que viveu a partida com uma mistura de exaltação e de pânico. A despedida da família foi gratificante, sufocante em sua vagareza e em sua espessura sentimental para o jovem impaciente por despre...

Revolução invertebrada

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Por Carlos Pardo A Abbas / Magnum Photos. V. S. Naipaul em Grenada, 1983.  A morte de V. S. Naipaul (1932-2018) reaviva uma polêmica que acompanha o escritor desde quando recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, em 2001: o velho clichê de se os gênios são boas ou más pessoas. E se “quanto mais sutil e intensa se fazia sua prosa, maior era a impudência de seus comentários em público”, como escreve seu biógrafo Patrick French, de Naipaul chegavam a expor como contradições ideológicas ambíguos segredos de alcova. Também lhe chamaram de racista, preconceituoso e “lacaio depreciável do imperialismo”; opiniões gravadas inclusive nos obituários. Muitos dos exemplos contrários estão em O escritor e o mundo [tradução livre], contundente compilação de crônicas de viagens datadas entre 1962 e 1992. Lidas hoje, alguém pode recordar o desejo de Schiller: não dês ao teu tempo o que te pede, mas o que necessita. Nascido numa família indiana emigrada na ilha de Trinidad, es...

Naipaul, o primeiro escritor

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Por Carlos Manuel Álvarez Rodríguez O olhar constrito e áspero de V. S. Naipaul em qualquer de suas fotografias da maturidade é o olhar do velho insuportável a alguém que vem-lhe roubar maçãs ou morangos do seu quintal enquanto prefere que apodreçam a dá-los. Sua misantropia e crueldade proverbiais pareciam fascinar, talvez assustar, não tanto já pela misantropia e crueldade propriamente ditas, mas por seu reconhecimento pleno de ambas. Naipaul não ocultava seu sadismo, o reivindicava e permitia logo sua aparição em biografias autorizadas. No ensaio As trevas de Conrad [tradução livre], publicado originalmente em The New York Review of Books no outono de 1974, Naipaul disse que o interesse pela obra de um autor leva indefectivelmente ao interesse por sua vida. Não é verdade. Mas, tudo isso se torna a mesma coisa – a vida, a obra, o escritor cindido entre sua matéria e o que escritor é – em O enigma da chegada , um romance que não é de ninguém, escrito “com a sen...

O irmão Brontë e os outros esquecidos

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Por Alba Lara Uma coluna de cor ocre aparece pintada no centro do retrato das irmãs Brontë realizado pelo único irmão da família de escritoras, Patrick Branwell, em 1834. À primeira vista parece apenas um elemento da composição, mas segundo revelou um estudo da National Portrait Gallery de Londres, onde o quadro está guardado, Patrick rascunhou seu retrato, mudou de ideia e se escondeu por detrás do pilar. Este ano o oculto Branwell parece que se mostra ainda que brevemente: o Brontë Personage, museu em Yorkshire dedicado à família, celebra no marco de seu programa Brontë 200 o bicentenário do nascimento do único irmão varão das romancistas Emily, Charlotte e Anne com uma exposição que recupera parte de sua obra e de sua biografia. O certo é que é que no talento do jovem Patrick estavam postas todas as esperanças da família. Colaborou com suas irmãs na escrita de livros fantásticos para o público infantil. Alentado pelo poeta romântico Coleridge, traduziu as Odes de Horá...