Sobre meninos e o fantástico em A estranha máquina extraviada, de José J. Veiga

Por Douglas Sacramento

No livro O menino na literatura brasileira (Perspectiva, 1988), Vânia Maria Resende dedica um capítulo à presença da criança na obra de José J. Veiga. A autora aponta que a criança, inserida no universo fantástico das narrativas do escritor  goiano, está em contextos opressores, cerceada da liberdade que se espera nesta fase da vida. O realismo fantástico surge como escape, destoando de uma realidade tão crua e, por vezes, violenta. Assim, essas especificidades são caras ao projeto literário de Veiga.

Essa relação, além de outros temas, é encontrada na literatura de José J. Veiga, reconhecida três vezes o Prêmio Jabuti (1981, 1983 e 1993). Com uma obra vasta, que transita entre o romance e o conto, ele é considerado um dos principais nomes do realismo mágico no Brasil. Desde 2014, os livros de Veiga, , outrora esgotados nas livrarias do país, têm sido reeditados. A publicação mais recente é A estranha máquina extraviada (2026), que, aliás, já integrava a edição dos Contos reunidos (2021).

Originalmente publicado em 1967, no período da ditadura militar A estranha máquina extraviada reúne por 14 contos em que a maioria apresenta o menino como narrador, acompanhando descobertas e aventuras no interior de Goiás. Para além disso, o campo e a paisagem do interior aparecem amalgamados ao fantástico e ao assombro que percorrem as histórias, ora como metáforas da situação política vivida no país à época, ora na abordagem de temas pungentes para o contexto regionalista daquele período, ainda que o autor se afastasse desse rótulo, como a terra e os povos indígenas.

José J. Veiga. Foto: Wikipédia



Entre política e infância 

Começo me alongando um pouco sobre o primeiro conto do livro, pois o vejo como aquele que dita o tom dos demais. A narrativa começa indicando o que se encontrará no seu decorrer. No conto “Acidente em Samaúma”, acompanhamos um mascate a chegar à cidade do título e encontra homens espancando um lobo. Em seguida, o protagonista descobre que o fazendeiro, seu Viriates, quer conversar, mas, ao adentrar a fazenda, não consegue mais sair. 

A criança, que guarda as chaves e trabalha para o fazendeiro, é porta-voz do plano arquitetado por Viriates para prender o mascate em suas terras. Após passar o dia na fazenda, enquanto janta, seu burro é surrupiado por um dos filhos do fazendeiro. Depois disso, só lhe resta dormir. É então que se depara com três sombras, que atestam que aquele é o lugar onde deve permanecer.

Percebo, nessa narrativa, pistas para compreender as costuras feitas por Veiga. Primeiro, porque é uma história que não explica muita coisa; ao contrário, instaura perguntas. O uso de imagens metafóricas está ligado a situações que não estão atreladas apenas ao desenvolvimento da narração, mas também dizem respeito ao Brasil vigente. 

Logo nesse primeiro contato, aparecem os homens batendo no lobo sem matá-lo, imagem que remete às torturas ditatoriais impostas aos ditos inimigos da pátria. A figura do fazendeiro, elo com o patriarcalismo e a imposição de um poder, também se faz presente — existem ordens a serem cumpridas. E, principalmente, surgem as sombras, que remetem aos mortos produzidos por essa forma de governo indiciada no conto.

Contudo, a narrativa não para aí. As imagens ficam mais nubladas e exigem interpretação. No conto que dá nome ao livro, “A estranha máquina extraviada”, a chegada de homens a uma pequena cidade com um maquinário que é montado ganha novos contornos quando ninguém sabe qual é a sua funcionalidade. O objeto, grande e misterioso, acaba sendo tratado pela comunidade como um totem de adoração e festejo — corre até o boato de que é capaz de curar. Há sempre alguém querendo comprá-lo e uma pessoa encarregada de cuidar dele, embora ninguém saiba para que serve.

“Ela é o nosso orgulho, e não pense que exagero. Ainda não sabemos para que ela serve, mas isso já não tem maior importância. Fiquei sabendo que temos recebido delegações de outras cidades, do estado e de fora, que vêm aqui para ver se conseguem comprá-la. [...] Felizmente o prefeito é de confiança e é esperto, não cai na conversa macia.” (p. 89)




Outro exemplo desse lugar das imagens envoltas em mistério nos contos de José J. Veiga pode ser encontrado em “O cachorro canibal”, narrado na perspectiva de um cachorro mais velho, adotado por uma família e por toda uma comunidade, que recebe dessas pessoas um cachorro mais jovem para lhe fazer companhia. A partir dessa relação conflituosa, na qual o mais velho vai perdendo poderio e influência sobre aqueles que o rodeiam, ele decide dar um fim à convivência ao comer o cachorro mais novo.

Nos contos até agora mencionados, pelo que observamos, há uma relação intrínseca com o poder e a repressão e, para além disso, um choque entre o antigo e o novo, que aparece ora como cooptação daquilo que surge, ora como tentativa de extermínio. 

O estranhamento é outro fio que liga esses contos. As personagens se deparam com o estranho — aqui, reverberando a teoria freudiana —, que traz à tona o recalcado pelo inconsciente. Contudo, o primeiro conto também já anuncia a presença do realismo fantástico. Afinal, o autor é conhecido por ser um dos principais nomes do gênero no Brasil.

As sombras que aparecem no conto “Acidente em Samaúma” são acompanhadas pelos didangos, presentes no conto “Onde andam os didangos”, seres criados por uma criança a partir dos ruídos de origem desconhecida que vêm da floresta. Como próprios desse tipo de realismo, os didangos estabelecem uma relação com a realidade, e a narrativa coloca em pauta esse elo. 

O protagonista é uma criança que mora numa fazenda afastada do centro da cidade cercada por uma preocupação familiar com possíveis inimigos:indígenas que viveram na floresta ao redor da casa ou de outros fazendeiros. É esse ambiente que o conto apresenta como mola propulsora para a criação desses seres, que nunca chegam a aparecer. 

“Era um bicho sem pés nem cabeça, só um corpo comprido em forma de canudo, um canudo grosso e mole, às vezes liso, às vezes cabeludo (essa parte ainda não estava esclarecida), largo nas pontas, fino no meio. As pontas eram os pés e também as bocas, o bicho andava firmando uma ponta no chão, levantando a outra, esticando o corpo e jogando a ponta levantada para diante, no caminho apanhando as frutas e folhas que interessassem, depois buscava para a frente a ponta que tinha ficado para trás, isso depressa, sem parar nem perder tempo.” (p. 52-53)

Outros seres fantásticos surgem no conto “Os cascamorros”. Aqui, um comprador vai a uma loja de penhores e nela se depara com o dono lidando com sacas de um pó, os cascamorros, que, caso saíssem dos recipientes que os guardam, provocariam o fim da humanidade. Em outra narrativa, “O galo impertinente”, o animal surge após a construção de uma estrada e provoca acidentes com os veículos que passam pelo local. Indestrutível, chega a ocasionar a destruição de um carro bélico. 

Nos dois casos são seres que remetem ao escapismo próprio do realismo fantástico, mas que também dialogam com a crítica ao sistema ditatorial e com a relação tênue e tão latente, na década de 1960, entre amigos e inimigos da pátria. Existe, em José J. Veiga, um olhar apurado para essas dinâmicas políticas à época no país. 

Por último, a imagem da criança que surge no primeiro conto é retomada diversamente nas demais narrativas. Ela não aparece como tábula rasa; ao contrário, está sempre em descoberta do mundo ao redor e a si mesma, enquanto lida com o animal inexistente, com a crueza da vida e com a violência que a cerca. Os meninos, como aponta a pesquisadora Vânia Maria Resende, estão nesse limiar entre o real e o fantástico, ampliando essa experiência de formas diversas.

São bons exemplos, para além dos citados anteriormente, o conto “Tarde de sábado, manhã de domingo”, acerca da transição entre infância e adolescência. Um trio de amigos decide pescar e, após a falha na pescaria, encontra um conhecido que os leva para a fazenda do pai, onde está sozinho naquele momento. No meio do caminho, decidem parar para descansar. O filho do dono da fazenda é picado por uma cobra, sendo carregado e amparado pelos três até chegarem ao destino, onde o veem morrer. A partir daí, há todo um cortejo fúnebre dos três amigos para levar o corpo morto para a cidade. Essa caminhada se torna uma travessia marcada pela perda da inocência e entrada na vida adulta, que chega modificando os meninos.
 
“Rosendo caiu no choro, Dorico caiu no choro. Eu chorei mais forte porque vi a cara de d. Ritinha adivinhando e não querendo acreditar. Como se fosse uma combinação nossa, baixamos a vara com o saco perto dela e saímos correndo, perseguidos pelo grito dela, até hoje.” (p. 104)

Num outro conto “Diálogo de relativa grandeza”, ao narrar crianças naquela fase das perguntas, dois irmãos discutem sobre o porquê das coisas serem denominadas do jeito que conhecemos e sobre como, comparados ao universo, somos ínfimos. Grandes e pequenos ao mesmo tempo, dependendo da escala de comparação que se usa, as personagens protagonizam uma narrativa pautada pela agilidade dos diálogos e por um tom infantil bastante verossímil: “Como você é tapada, Diana. Tudo no mundo é muito pequeno. O mundo é muito pequeno” (p. 49).

José J. Veiga leva o leitor para paragens marcadas pela presença de seres outros e por discussões políticas associadas a imagens metafóricas e deixam mais questionamentos que respostas. Para isso, o autor não sai do Brasil nem inventa lugares. Estamos diante do chão de barro, da fazenda, do rio, da vaca e do andar descalço. 

A oralidade e as narrativas dos povos presentes nessas histórias se entrelaçam, fazendo do interior de Goiás um espelho do Brasil da metade do século XX, ao mesmo tempo que a obra ainda lança luz sobre questões do país contemporâneo. Ao final, ficamos gratos pelo retorno de um escritor tão pertinente. A estranha máquina extraviada é um ótimo livro de contos, de um autor com olhar arguto para as demandas de seu tempo e para aquilo que ainda permanece ao nosso redor.


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A estranha máquina extraviada
José J. Veiga
Companhia das Letras, 2026
160p.

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