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Era uma vez em Tóquio, de Yasujiro Ozu

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Na invasão da cultura oriental pela ocidental, sai ganhando a câmera fixa e contemplativa deste filme familiar Yasujiro Ozu é considerado um dos maiores nomes da história do cinema japonês. Começou a carreira de mais de 50 filmes em 1929, rodando comédias muito semelhantes às feitas em Hollywood naquele momento, A segunda fase de sua obra é a que mais tem destaque, quando, no pós-Segunda Guerra Mundial, o cineasta radicaliza sua estética e afunila o tema que será, a partir de então, tratado em sua obra. Grosso modo, as histórias partem do cotidiano de famílias japonesas para falar de assuntos como juventude e velhice, vida e morte e, sobretudo, a tensão entre tradição e modernidade (a pauta do Japão invadido pela cultura ocidental dos vencedores da guerra, no caso, os Estados Unidos). Esses assuntos serão mostrados com a câmera rigorosamente fixa e baixa, e os diálogos filmados com os atores de frente para a câmera, alterando-se entre um e outro com cortes secos. Uma gramática...

Uma lista de autobiografias indispensáveis (Parte 2)

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Motivados pela aparição da trilogia autobiográfica de Máksim Górki, modelamos uma lista, extensa por sinal, de alguns livros do gênero que consideramos indispensáveis ao leitor interessado. Na primeira parte, escrevemos livros de Gabriel García Márquez, Doris Lessing, J. M. Coetzee, Philip Roth e Simone de Beauvoir, além, é claro do escritor russo, nosso ponto de partida. Hoje acrescentamos a este rol outros importantes textos de importantes escritores e com destaque para alguns nomes da literatura brasileira, afinal se a França teve um Marcel Proust, por aqui tivemos um Pedro Nava, não raras vezes lido como um Proust dos trópicos. Vamos aos títulos. E nunca é demais lembrar que este não é um ranking e não é uma lista definitiva. As sinopses, grande parte, foram copiadas a partir dos resumos oferecidos nos sites das editoras responsáveis pela edição das obras no Brasil. Gertrude Stein e Alice B. Toklas 1. Autobiografia de Alice B. Toklas , de Gertrude Stein: publicada...

Emily Dickinson por Ana Cristina Cesar

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2 de junho assinala a passagem do aniversário da poeta brasileira Ana Cristina Cesar . Abaixo, por essa ocasião, relembramos um texto crítico seu sobre a obra da poeta estadunidense Emily Dickinson mais um conjunto de poemas traduzidos pela própria Ana C. Este texto é uma cópia do que foi publicado no caderno Folhetim , de 06 de novembro de 1983. Ao lado de Walt Whitman, Emily Dickinson é o grande nome da poesia norte-americana do século 19. Seus nomes sugerem um contraponto que raia a simetria dos opostos. A exuberância, o excesso, a retórica desmedida da voz de Whitman, cujo imenso épico Leaves of Grass canta o desejo eufórico de mapear a terra americana e jogar-se nos braços do leitor - em oposição à tensão crítica e à secura dos poemas lacônicos de Emily, sua voz baixa que fala da morte sem drama e da renúncia sem lamento. O contraponto pode ser desdobrado quando se pensa nos dois personagens que a imaginação desejaria biografar: Whitman todo exterioridade, peregrino e ...

Paulina Chiziane

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Paulina Chiziane. Foto: Douglas Freitas. A chegada da obra de Paulina Chiziane por uma importante casa editorial no Brasil reafirma o destaque da sua obra fora de seu país e, ao mesmo tempo, nos oferece uma possibilidade de ampliar o reconhecimento sobre as literaturas produzidas em África, este vasto território de rica variedade cultural sempre silenciado ou colocado à margem pelas expressões ocidentais.   Sabe-se que a escritora pertence à terceira linha na recente historiografia literária de seu país, Moçambique. Isso significa que a memória cultural, a formação da identidade e os horrores do passado colonial estão recorrentes na sua literatura. Esse envolvimento ressalta a proximidade que a literatura sempre mantém com o social, naquilo que em “Literatura e Sociedade” Antonio Candido designa como dialética da criação. Não se pressupõe, é claro, numa representação no sentido de reflexo ou transposição imediata da história, por exemplo, mas esta enquanto contexto participa ativam...

Os Sete Samurais, de Akira Kurosawa

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Acusado de dar as costas para sua cultura, nesta obra o cineasta mescla uma dinâmica de ação com uma tradição tipicamente japonesa Na juventude, Akira Kurosawa desejava ser pintor. Incentivado pelo irmão mais velho, cinéfilo de carteirinha, e apaixonado pela produção americana (sobretudo a de seu ídolo John Ford), enveredou pelos caminhos da Sétima Arte para não sair mais. O passado artístico, porém, nunca deixou de influenciar os métodos de trabalho do diretor: todos os seus longas foram concebidos por meio de um meticuloso trabalho de composição. Kurosawa fazia storyboards enormes em forma de quadros, levava meses filmando e utilizava no mínimo três câmeras para cada cena. Tanto esforço deu resultado: tornou-se o mais respeitado cineasta japonês. Deixou marcas em obras tão distintas quanto os westerns de Sergio Leone, a saga de Guerra nas Estrelas (1982-86) e os pontos de vista múltiplos de Quentin Tarantino (saídos de Rashomon , de 1950). Só sofreu a resistência em seu país n...

Ai, saudades da palmatória!

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Por Pedro Fernandes “Ó palmatória, terror dos meus dias, tu que foste o compelle intrare  com que um velho mestre, ossudo e calvo, me incutiu no cérebro o alfabeto, a prosódia, a sintaxe, e o mais que ele sabia, benta palmatória, tão praguejada dos modernos, quem me dera ter ficado sob o teu jugo, com a minha alma imberbe, as minhas ignorâncias, e o meu espadim, aquele espadim de 1814, tão superior à espada de Napoleão!” – Memórias póstumas de Brás Cubas , de Machado de Assis. O caso se deu nesta semana. Uma professora da rede estadual do Rio de Janeiro foi condenada a pagar uma multa de R$ 5 mil por um puxão de orelha num aluno. O fato me chama atenção por dois motivos: a bancarrota de uma pedagogia do cetim fez do aluno uma figura intocável. Fato humano – quando não é oito é oitenta. Houve o tempo em que apanhar de palmatória era útil para a formação educacional. Era um corretivo necessário à docilização dos corpos. Depois desse motivo primeiro, é fato que a pedagogia ...