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O Martírio de Joana D'Arc, de Carl Theodor Dreyer

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A atuação de Maria Falconetti, como mártir, é considerada uma das melhores do cinema O cinema do dinamarquês Carl Theodor Dreyer é um dos mais singulares, inimitável e de difícil definição em razão dos vários procedimentos que ele toma para cada filme, planejando para cada trabalho um desenho de cena, um enquadramento e uma abordagem específicos, em obras menos ou mais narrativas. Ele tinha, também, um processo criativo que desprezava as regras da produção cinematográfica, fazendo o seu próprio tempo de planejamento e preparação para um longa, uma dor de cabeça para os produtores - o que muito explica as várias interrupções em sua filmografia. Apesar de ele enxergar os artistas como iluminados, até sagrados, os atores sofriam o diabo em suas mãos, numa espécie de lavagem cerebral que os fazia assumir completamente a persona do personagem. Para a atriz Maria Falconetti, que encarna a santa guerreira de O Martírio de Joana D'Arc , esse foi um divisou de águas. Perturbada com ...

Ferreira Gullar

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Traduzir-se Uma parte de mim é todo mundo: outra parte é ninguém: fundo sem fundo. Uma parte de mim é multidão: outra parte estranheza e solidão. Uma parte de mim pesa, pondera: outra parte delira. Uma parte de mim almoça e janta: outra parte se espanta. Uma parte de mim é permanente: outra parte se sabe de repente. Nascido em São Luís, Maranhão, em 10 de setembro de 1930 e registrado  como  José Ribamar Ferreira, Ferreira Gullar fez sua estreia na poesia em 1949 com um livro publicado com seus próprios recursos e apoio do Centro Cultural Gonçalves Dias:  Um Pouco Acima do Chão . Note: o nascente poeta contava então com dezenove anos. Mais tarde, já formado poeta, escolheria deixar de fora este título da sua obra completa. É notável a recusa. A poesia era profundamente marcada pelas influências do simbolismo, algo dissonante da poética praticada mais tarde. Assim, os feitos de Gullar no Maranhão foram breves, mesmo que toda sua formação te...

José Saramago escreve sobre Chico Buarque

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José Saramago e Chico Buarque, amigos desde sempre. Foto: Arquivo Pessoal de Chico Buarque. O texto a seguir é a transcrição de um datiloscrito de José Saramago dedicado ao romance  Budapeste (Companhia das Letras, 2003), de Chico Buarque. Vale ressaltar que a amizade entre os dois é de longa data. Nos anos 1990, por exemplo, eles e Sebastião Salgado se uniram num projeto (comentei aqui ) que combina fotografia, literatura e música em torno de uma causa social: em favor dos brasileiros sem-terra. Do romance de Saramago,  Levantado do chão , e das fotografias de Sebastião Salgado, Chico compôs canções para um CD que acompanha o livro  Terra , prefaciado pelo escritor português .  Bom, mas vamos ao texto de Saramago?  Arquivo Pessoal de Chico Buarque. Haverá universos paralelos? Perante as variadas “provas” apresentadas ao tribunal da opinião pública pelos autores que se dedicam à ficção científica, não é difícil acreditar que sim, ou, pelo menos,...

Intervalos

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Bem – aos leitores ou transeuntes deste blogue deve de surgir uma indagação acerca desta coluna chamar-se de Intervalo. Explico: por enquanto, ela me intervém em determinados momentos de postagens do blogue, tais como: não achei nada de interessante para postar hoje (tome intervalo com alguma coisa que acho interessante, mas que não caberia num blogue em que se dedica a discutir literatura e outras formas de arte), ou quando aconteceu algum fato qualquer do meio literário ou de qualquer outro meio (e tome intervalo!), ou ainda porque tenho de viajar e não estive a preparar os posts antes da viagem... Enfim, esta coluna Intervalo é mais que o sentido lato da palavra expressa. É também uma espécie de intervalar do próprio tempo de quem aqui escreve ou ainda o abrir de valas entre uma post e outra, dada a importância do assunto. Essa explicação serve mais aos transeuntes do que aos leitores propriamente ditos deste espaço. Estes últimos, certamente, já devem ter entendido o sentido ...

Reflexões sobre o romance moderno

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Por Pedro Fernandes (Notas de leitura a partir de  “ Reflexões sobre o romance moderno ” , de Anatol Rosenfeld) Anatol Rosenfeld em seu texto Reflexões sobre o romance moderno parte de três hipóteses a fim de refletir sobre o caudal de “transformações” porque passa o romance moderno. A primeira delas, e é a principal sobre a qual se fundamenta para constituição deste seu texto, é a de que em cada fase histórica existe um Zeitgeist , isto é, espécie de espírito unificador que perpassa todas as manifestações culturais e de pensamento. Evidentemente que isso se presentifica nos espaços nacionais, mas até mesmo em culturas de constituição tão complexa como a nossa, a Ocidental, admite Rosenfeld, com alta especialização e autonomia das várias esferas – tais como as das ciências, as das artes, as da filosofia – é possível traçar um fio que de interdependência que as unifica. A segunda hipótese é a de que o campo das artes se marca por um fenômeno a que ele chama de “desrea...

Psicose, de Alfred Hitchcock

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Suspense é tão bem engendrado que, mesmo que se conheça a identidade do assassino, o medo continua a funcionar Até quem nunca assistiu Psicose conhece a cena em que Marion (Janet Leigh) é assassinada no chuveiro. Cada detalhe dessa sequência foi explorado à exaustão em outros filmes, programas de televisão, desenhos animados, fotografias: a expressão horrorizada de Leigh gritando, a sombra da faca na parece, subindo e descendo, sangue espirrando, a trilha sonora assustadora de Bernard Herrmann. A histórica passagem revela muito do perfeccionismo de Alfred Hitchcock. Para filmá-la foi preciso uma semana inteira, com câmeras em 70 ângulos diferentes, em um total de mais de 90 rolos utilizados. Originalmente, não haveria som nela, porém Hermann apareceu no estúdio com  uma composição tão adequada que o cineasta sentiu-se obrigado a mudar de ideia. Mas não foi só a sequência do chuveiro que fez deste o trabalho mais conhecido de Hitchcock. Psicose traz também Norman Ba...