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Arthur Azevedo, um centenário à sombra

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Por Pedro Fernandes Passaria despercebido se não fosse meu faro a estas coisas de literatura. Revirando a rede, me deparo com um texto do professor e pesquisador de Literatura Brasileira, Mauro Rosso, publicado num portal de literatura, que no título indagava: “Por que esquecer deste centenário?”. De início achei que se tratasse de mais um dos muitos artigos que têm sido publicados a galope nesse ano do centenário de Machado de Assis. Mas quando o li, para minha surpresa, não se tratava nada de Machado, mas de um escritor chamado Arthur Azevedo. Nessa hora fiz o que faço quando me coloco diante de um escritor desconhecido. Pesquisar sobre. Seja na rede, seja nos livros. O Arthur Azevedo não só para mim, mas para muitos, ainda permanece desconhecido. Não o encontrei com muita freqüência na rede. Tampouco nos livros de literatura. Mas aí está o desafio: acho que as leituras que fiz acerca dele desde o dia que o descobri me são suficientes para traçar algumas linhas, ainda que ...

Exposição José Saramago: a consistência dos sonhos

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José Saramago está de passagem pelo Brasil. O escritor veio para a apresentação de seu novo romance, A viagem do elefante . A ocasião é marcada por outra leva de homenagens; Saramago é, depois de Fernando Pessoa e Eça de Queirós, o escritor mais lido por aqui. Entre as atividades de sua agenda, que inclui conferências, entrevistas e uma sabatina pelo jornal Folha de São Paulo , está a abertura da exposição José Saramago: a consistência dos sonhos , que depois de Portugal alcança o Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo. Com curadoria de Fernando Gómez Aguilera, diretor da Fundação César Manrique, a exposição dedicada ao Prêmio Nobel de Literatura analisa obra e vida do escritor tanto da perspectiva de sua transcendência no mundo da literatura universal como de sua dimensão sociopolítica. Concebida por ocasião do 85º aniversário do autor de Ensaio sobre a cegueira , a mostra é resultado de dois anos de intenso trabalho de investigação, não apenas desde o momento do reconheciment...

Touro Indomável, de Martin Scorsese

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A longa e sangrenta decadência de um lutador de boxe cuja alma é torturada pelo ciúme e pela brutalidade Martin Scorsese não vivia seus melhores dias quando resolveu fazer Touro Indomável. Seu filme anterior ( New York, New York , de 1977) havia sido um fracasso de público e crítica, ele vinha sofrendo com o vício em cocaína e ainda passava por problemas no casamento com Isabella Rossellini - culpa, dizem, do temperamento explosivo e inconstante dele. Quem  lhe ofereceu a ideia de filmar a história do boxeador Jake LaMotta foi o amigo e parceiro Robert De Niro, que via no ex-campeão muito da personalidade de Scorcese. A princípio o cineasta recusou o projeto, mas acabou cedendo, com a ideia de que este seria seu último trabalho no cinema. Mais tarde, o diretor disse que De Niro salvaria sua vida ao lhe tirar das drogas. A história foi adaptada da autobiografia de LaMotta (De Niro), que narra a saga do campeão invicto de pesos-médios na década de 1940 e sua decadência d...

Ferreira Itajubá, lírica descomplicada

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Agosto. O claro mês dos meus anos. Que anseio De ser asa migrante e fugir pelos ares, Pelos longes do céu, através desses mares, Em busca do calor do sol de um clima alheio! imagem do poeta. fonte Blogue Flores&Versos Mistério e inconstância. Duas palavras que podem definir os quase 35 anos de vida do poeta Ferreira Itajubá. O mistério começa pelo seu nascimento que, não se sabe ao certo. Pode ter acontecido em 1875, 76 ou 77. O último ano é o mais provável. A 21 de agosto para ser mais preciso. Pelo menos foi o que assinalou o próprio poeta no termo de nomeação para servente na Associação de Praticagem. Nasceu provavelmente na Praia de Touros, litoral do Estado do Rio Grande do Norte. O sobrenome com o qual passou para a História também não era seu. Nascido Manuel Virgílio Ferreira, incorporou o Itajubá em seus primeiros versos e depois definitivamente à sua vida. A inconstância aparece no que em circunstâncias normais se chamaria de vida profissional. Foi auxiliar do ...

Carlos Heitor Cony, fragmentos biobibliográficos

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Na hora de pagar, alegando não ter nota menor, deixei-lhe um troco generoso. Ele me olhou espantado, retribuiu a gorjeta me desejando em dobro tudo o que eu viesse a precisar nos restos dos meus dias. Saí daquela cadeira com um baita sentimento de culpa. Que diabo, meus sapatos não estavam tão sujos assim, por míseros tostões, fizera um filho do povo suar para ganhar seu pão. Olhei meus sapatos e tive vergonha daquele brilho humano, salgado como lágrima. ( O suor e a lágrima ) Carlos Heitor Cony nasceu no dia 14 de março, no Rio de Janeiro, em 1926. Cursou Filosofia no Seminário São José, uma formação que veio a reboque do primeiro desejo de seguir uma vida no sacerdócio, abandonado na primeira crise da crença em Deus. A literatura, conta, apareceu antes, mas não foi decisiva para o outro rumo profissional. A literatura foi uma resposta à impossibilidade de falar: na primeira infância, Cony foi mudo e começou por se expressar através da escrita.  Logo no início de sua carreira...

Mar de leite

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Por Pedro Fernandes Um dia normal numa cidade. Numa esquina o sinal fecha. Os carros parados esperam o sinal mudar. O sinal verde acende-se. Um dos carros, no entanto, não se move. Buzinas enfurecidas. Gente enfurecida. Batem furiosamente nos vidros fechados do carro ali parado. Lá dentro um homem vira a cabeça para eles. Percebe-se pelo movimento da boca do motorista duas palavras – “Estou cego”. O sentimento de angústia com que segue a trama é o mesmo que aqui se instala. O sentimento de angústia que segue nessa cena é o mesmo que senti na cadeira do cinema ao assistir Blindness , filme baseado na obra Ensaio sobre a cegueira , de José Saramago – romance que ao lado dos outros anteriores a esse lhe rendeu o Nobel, há dez anos. Romance que rende uma incontável dúzia de discussões. O sentimento de angústia que senti na cadeira do cinema é o mesmo que senti nas cadeiras por onde estive a ler o romance. Um mar de leite que vai inundando pouco a pouco os indivíduos de uma soc...