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Cafés, bondes e carnavais

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Por Pedro Fernandes Antes do bonde elétrico, eram os burros que faziam os transportes urbanos. Numa crônica de março de 1877, Machado de Assis com seu olhar flâneur põe os animais em diálogo a refletirem sobre a substituição de sua força de trabalho pelo bonde elétrico. Na foto bonde de burros na Av. Rio Branco, em Curitiba, em 1901. No Rio de Janeiro, por essa época já circulavam os elétricos. O título é da professora Elisa Amorim Vieira, texto que faz um registro marcante da cidade literária construída por Machado de Assis. Não só sobre a cidade machadiana, mas sobre o olhar do escritor acerca da efervescência urbana em seu tempo. Retomando a ideia do flâneur Vieira lê Machado de Assis, por através de suas crônicas, como legítima figura do tipo, interligando o dia-a-dia do Rio de Janeiro do século XIX ao espaço mais amplo da tradição literárias ocidental. Nas crônicas, Machado comenta das inovações tecnológicas, das mudanças de costumes, das transformações da cida...

As ficções da representação factual

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Por Pedro Fernandes O título da post é o título de um texto de Hayden White que, em duas palavras, reflete acerca das relações entre o discurso ficcional e o discurso histórico. Tomo emprestado do título, mas não entro no mérito da questão porque meu interesse aqui é outro: pensar o discurso acadêmico, sobretudo no âmbito das ciências humanas e, reduzindo ainda mais o meu campo de visão, no âmbito das ciências da linguagem. São notas. Nada sério, logo. *** O aparelho textual que dispomos a elaborar e por em funcionamento, isto é, o plano de um trabalho acadêmico, é o de colocar em operação um sistema composto basicamente de sistemas menores num fio de sentido que ofereça algo perceptível, de modo que determinada questão a que chamamos de problema, apresente-se em parte solucionada. Para isso desenvolve-se um conjunto de meios abstratos de reflexão sobre um objeto também aparentemente abstrato. A ilusão é crer, e isso eu pensei que já tivéssemos...

Ambientalismos: notas

Por Pedro Fernandes Essa ideia de sustentabilidade é toda ela falsa. Os seres humanos tem se tornado cada vez mais individualistas e não creio de modo nenhum que venhamos a salvar o planeta. Que pretexto temos para salvá-lo? Quem disse que as crianças do futuro querem ver os animais que vemos hoje? *** Houve um tempo que me preocupei e muito com as questões ambientais. Tanto que pela época dei início a um curso técnico em Controle Ambiental e ficava indignado com a situação na Amazônia, com a situação aqui no Nordeste. Quando via uma queimada queria mesmo sair de lata d'água na mão para apagar o fogo. Agora não mais. Tenho a certeza de que no ponto em que chegamos nada mais é possível fazer, afinal, esse modo de vida que escolhemos não deixa escolhas para nos refazer das perdas que já tivemos e que estamos tendo nesse momento. *** Quando vou a um restaurante e dou de contas de um palito de dente embrulhado numa embalagem única, um canudo par...

Moacyr Scliar

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Moacyr Scliar de Porto Alegre. Formado em medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Foi professor visitante na Brown University e na Universidade do Texas, nos Estados Unidos. A literatura entra na sua vida desde seu batismo: Moacyr vem da personagem homônima  filho da dor em Iracema , de José de Alencar. Se os nomes carregam parte do destino das pessoas, conforme acreditava o escritor, aí está a base de tudo.   Seu primeiro livro publicado data de 1962. Histórias de médico em formação é um livro de contos baseados em sua experiência como estudante. Seis anos mais tarde é publicado o livro que Scliar, tem considerado com sua primeira obra literária, o também livro de contos, O carnaval dos animais . Escritor polígrafo, a obra de Scliar é vasta: perfaz um conjunto de mais setenta livros traduzidos em mais de vinte países e produções  em vários gêneros: romance, conto, ensaio, crônica, ficção ...

Quando a arte vira em pixels

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A noite estrelada (1889), Van Gogh, uma das telas que podem ser vistas no Art Project do Google. É verdade que o Google ("nosso pai", como muitos tem idolatrado toda vez que encontramos aquilo que achávamos impossível de ter aos nossos olhos) representou na criação de Gates também uma revolução. Desde que se firmou como simples mecanismo de buscas que o gigante do Vale do Silício tem sempre inovado e surpreendido seus usuários. A novidade desta vez, depois da digitalização de livros (ato que ainda tem dado o que falar), é a de trazer ao alcance de um clique o que antes era restrito ao público viajado ou a raríssimos livros de arte. Há poucos dias, o Google lançou seu Art Project, uma espécie de Street View que proporciona a visualização de mais de mil obras de arte em alta resolução, além de visitas em 360º pelas galerias de 17 grandes museus do mundo. Instituições como The Metropolitan Museum of Art e MoMA de Nova York, Museo Reina Sofia, da Espanha, e o francês ...

As viagens de Gulliver, de Jonathan Swift

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Por Pedro Fernandes Cena que ilustra uma das passagens mais célebres do romance de Swift, a personagem principal, Gulliver, é amarrada pelos liliputianos. Desprezando o desastre que Hollywood fez com o texto do Swift muito recentemente, num filme que eu classificaria imoral e grosseiro, esta postagem recobra pequenas notas que eu fiz em 2008 para  leitura de  As viagens de Gulliver . O romance data de 1726, quando o seu autor, já aos 59 anos, era um nome veterano entre as letras inglesas, desde que se projetou, nos meios jornalísticos e literários de Londres e de quando ainda como panfletista satírico tomando o partido do Absolutismo na sua viva luta contra a burguesia. A obra que se desenvolve em quatro partes é uma sátira contra os vícios humanos e uma reflexão acerca da miséria da condição humana (cf. assinala Cilaine Alves Cunha). Na primeira, o protagonista e narrador do texto relata do seu naufrágio em Lillipute (cidade imaginária,...