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Uns patriotas

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Por Pedro Fernandes Não, não é erro de grafia. Mas, o novo livro de Nelson Patriota, Uns potiguares  (Editora Sarau das Letras) bem assim poderia ser chamado. Porque este é um livro com escolhas aleatórias ou afetivas do escritor. E suas leituras aí apresentadas dispensam qualquer rigor acadêmico. Ficamos diante de um leitor comum que escolhe por no papel e, portanto, abrir ao público, seu modo de ler e como que os diversos temas evocados nesse instante são por ele compreendidos ou como ele os entende do ponto de vista do próprio escritor o enforme de determinadas obras.  A atitude, entretanto, de Nelson é mais que válida. Talvez o cientificismo pesado da crítica literária tenha feito com os leitores comuns - esses que passaram para o espaço da intelectualidade desde meados do Romantismo - se dispersem. Evidente que se seguiu, além disso, uma pesada investida dos próprios de determinado período a se fecharem nos seus universos de palavras e se fixarem num entend...

Alves Redol

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Alves Redol. Foto: Sam Payo Já falei por aqui não poucas vezes que há um pacto entre escritor e leitor que é construído invisivelmente no momento em que o primeiro está a escrever sua obra. A função exata desse pacto é o a de ser "desafio" ao segundo elemento dessa relação. De modo que, particularmente, a mim interessam-me as obras que me desafiam. Assim foi com Alves Redol quando me deparei pela primeira vez com seu famoso texto, Gaibeus . Pois bem, já em Fanga o autor português assim se expressava: "Não é difícil entender-se o que escrevo e porque escrevo. E também para quem escrevo. Daí o apontarem-me como um escritor comprometido. Nunca o neguei; é verdade. Mas também é verdade que todos os escritores o são." Para quem escreve um escritor? Essa talvez seja uma das perguntas que juntamente com por que escreve e o que escreve seja a mais buscada a resposta dos escritores. Curiosa pergunta que foi respondida a certa altura pela Inês Pedrosa num desses pr...

"Asymptote" e Flávio Araújo

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A web é, cada vez mais, o lugar onde mais proliferam invenções literárias. Se antes da existência da internet os escritores ou aspirantes a se punham a engavetar papeis, agora, muitas dessas gavetas estão abertas por aí. Às vezes abertas só para um pequeno e afetuoso público, muitas outras para um público sem tamanho, o suficiente para despertar nos grandes conglomerados editoriais o interesse em transformar toda essa parafernália digital em papel.  Descubro recentemente mais uma dessas gavetas que como o Letras in.verso e re.verso anda a buscar pessoas talentosas para si, do modo como faz o caderno-revista 7faces . Asymptote . É este o nome do lugar . Ao modo do periódico nascido daqui, Asymptote se apresenta como uma revista internacional dedicada à tradução literária e a reunir em um só lugar o melhor da escrita contemporânea . "Estamos interessados ​​em encontros entre as línguas e as conseqüências desses encontros." Asymptote é o nome dado à linha po...

Livro é objeto-sujeito

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Por Pedro Fernandes Pormenor de O bibliotecário . Giuseppe Arcimboldo. Óleo sobre tela, 1562. Acho que não é mais necessário falar sobre o legado insofismável dos livros. Sim, eles mesmos que não de hoje, mas hoje é dia, têm data comemorativa mundial. Data controversa porque, quando se criam dias para , eles servem para quê? Para não deixar que a coisa ou fato comemorado caia no esquecimento.  Essa deve ser a primeira resposta que vem a cabeça de todos que forem confrontados com a pergunta. E a resposta é verdadeira; tanto que o difícil é precisar explicar por outro caminho. Não me darei ao trabalho de fazer esse outro caminho possível. Tais datas existem para isso e pronto. Já têm, quando de sua criação, suas necessidades desenhadas e muito se comenta o porquê de ter escolhido a tal altura um dia específico em que se deseja que uma determinada coisa ou fato seja longamente lembrado para que possua também longa vida. Quero apenas dizer que, além de um legado com palavras o l...

Ler a Odisseia (Parte II)

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Por Pedro Fernandes "o amor ocidental deve muito aos mitos de sua formação como Tristão e Isolda ou Romeu e Julieta , mas antes deles não há como esquecer do amor entre Penélope e Ulisses" Já disse alguém, e não terá sido o primeiro, que Homero é um mistério, um enigma. Nada se sabe sobre sua vida e, o pouco que se sabe é um rol de possibilidades. Entretanto, a Odisseia juntamente com a Ilíada , duas das mais importantes obras da literatura ocidental, são-lhe atribuídas. Se resumíssemos as poucas mais de quatro centos de páginas (isso tomando a edição que tenho, a publicada pela Editora 34) diríamos tão somente que é a história de um homem que volta à sua casa depois de uma grande viagem. No território das suposições acredita-se que os dois textos homéricos sobreviveram à larga somente através da oralidade dos bardos até que fossem escritos.  Esse movimento da oralidade terá feito com que muito tenha se perdido e muito tenha se acrescentado? Evidentemente....

Espelho, espelho meu, de Tarsem Singh

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Por Pedro Fernandes O que seria de Espelho, espelho meu sem a rainha má de Julia Roberts? Talvez esse filme sirva como exemplar para uma coisa: espantar tédios. E só. E se só, já terá servido e muito. A ideia é benquista: voltar a um clássico popular coligido pelos Irmãos Grimm. A história todos já conhecem, inclusive a fala de efeito da rainha má - Espelho, espelho meu, existe alguém mais bela do que eu? Mas, como todo grande conto de fadas dispõe de uma maleabilidade textual tão forte só justificável pelo fato de ter sua base na oralidade, Tarsem Singh capricha em algumas subversões e reinaugura o texto de 1812*. Essa reinauguração, sim, me é benquista. Agora, a história contada pelo ponto de vista da rainha má, brilhantemente interpretada por Julia Roberts (aliás, o que seria do filme sem a presença dela?), merecia ao menos um desfecho outro e não a bizarrice anticerebral aí apresentada. Mas, fiquemos por aqui e voltemos mais tarde para falar melhor disso. Evidentemen...