Tratado do tempo: notas sobre Ressuscitar mamutes, de Silvana Tavano
Por Vinicius de Silva e Souza

Tenho evitado ler literatura brasileira contemporânea porque se deixar, leio apenas isso. Queria, esse ano, ler mais livros em inglês; mais clássicos; mais literatura estrangeira. Até tenho conseguido, apesar de me ver constantemente sequestrado pelas Histórias em Quadrinhos. Mas eis que peguei alguns brasileiros para ler nesse último mês — Salvar o fogo, de Itamar Vieira Junior, poesia, é claro, sempre.
Ressuscitar mamutes, em particular, me despertou bastante curiosidade porque, primeiro, já conheço Silvana de uma rápida oficina online que fizemos em um dia qualquer de 2022, se não me engano, e, segundo, por sua fala na Festa Literária Internacional de Paraty em 2024. Acrescento ainda um terceiro motivo: quão bem essa obra foi na temporada de premiações passada: levou o Oceanos na categoria prosa e figurou como finalista em diversos outros prêmios. Pois bem, me aventurei nessa leitura e o resultado não poderia ser mais — faltou adjetivo para concluir.
Acredito que Silvana Tavano tenha percorrido, aqui, um caminho muito claro e delimitado na literatura contemporânea: o da autoficção; o da narrativa em primeira pessoa; da abordagem do luto; e da reconstrução possível pela escrita. Formas e temas facilmente encontrados em uma infinidade de outras obras e autores (de Annie Ernaux a Édouard Louis e também em Tati Bernardi, Natália Timerman e Chimamanda Adichie, enfim). Isso por si só não enfraquece o livro, mas, certamente, nadando em um mar já bastante explorado, é fácil cair em um lugar de extrema semelhança com os pares. É preciso um “tempero a mais” para se distinguir, talvez. E, justamente no tempero é que se encontra o principal mérito e problema de Ressuscitar mamutes.
A personagem central da narrativa, sem nome, é a mãe da narradora, morta subitamente depois de uma cirurgia. A partir daí, a também-sem-nome narradora perpassa por diversas memórias da mãe, misturando-se a reflexões sobre a própria. Inicia-se com a história de um pequeno mamute, congelado há milhares de anos, tornando-se, na contemporaneidade, objeto de investigação de cientistas, ansiosos por cloná-lo. O congelamento que leva a uma verdadeira viagem no tempo prenuncia muito do restante do romance: um diálogo com o ensaio; o trabalho de exploração científica, cavando, quase como se fosse possível ver a narradora limpando com um pincel as memórias que ainda detém da mãe; e a viagem no tempo a partir do luto.
Diversos são os episódios construídos de maneira interessantíssima e de alta voltagem, mas senti falta de uma construção mais precisa. A mãe da protagonista em ação, agindo, vivendo, de forma que me permitisse, como leitor, desvendar quem é essa mulher, por exemplo. Passou-me pela cabeça o quão interessante seria colocar episódios específicos e contraditórios, da infância à fase adulta da protagonista, episódios que me dissessem sobre a personagem-pessoa, mesmo que com leves comentários e recortes feitos pela narradora.
É que ao colocar tudo através de uma só lente muito do que poderia ser literário se perde e prevalece o tom do diário ou mesmo o do ensaio. Entendo que Silvana tenha buscado reconstruir sua mãe e trabalhado o luto através da literatura. Mas me pergunto, terminada a leitura, onde esteve a literatura no romance. Parece-me pouco o espaço da invenção, da imaginação, da construção de enredo e personagem, e mesmo que a literatura não se restrinja a isso, o detrimento desses aspectos para um maior enfoque em uma linguagem ensaística, além de uma narração enredada no mesmo arquétipo em todo o livro, o que a torna por vezes cansativa, contribui para a impressão de Ressuscitar mamutes como pouco literário.
Até a última parte. Aqui, quando nos transporta para o futuro, a narrativa cresce, emplacando um elemento, a meu ver, definidor de uma separação dessa obra para As pequenas chances, por exemplo (para referir outro livro com o mesmo interesse, este de Natalia Timerman. A narradora de Silvana constrói, nas últimas páginas, um futuro para além do vivido pela mãe e por ela mesma, nos jogando em 2024, 2054, para então encerrar-se como começou. Inicio. Meio. Fim. O tempo, então, é redimensionado e a história, reconstruída pela memória e principalmente pelas palavras.
Mesmo que ainda enfadonho, graças aos vícios literários do momento histórico em que vivemos, onde todos parecem querer falar de si, seus pais, sua história, refletindo de maneira umbigal sobre si mesmo, com pouca o quase nula inventividade, Silvana Tavano consegue alcançar alguns degraus a mais e encontra, na junção de facetas, um romance preciso e afiado, ainda que “romance” não me pareça a palavra mais adequada para se referir a este livro.
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Ressuscitar mamutes
Silvana Tavano
Autêntica Contemporânea, 2024
120 p.
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