Postagens

A perseguição de Cortázar: em louvor da audácia e da aventura

Imagem
Por Alfredo Monte Oh, faz-me uma máscara e um muro que me escondem de teus espiões Dos agudos olhos esmaltados e das garras que denunciam O estupro e a rebeldia nos viveiros de meu rosto, Uma mordaça de árvores mudas que me guarde da nudez dos inimigos, Uma língua de baioneta nesse indefeso fragmento de oração, Torna loquaz a minha boca, e que ela seja uma trombeta de mentiras [soprada com doçura, Dá-me as feições de um estúpido entalhado no carvalho e na velha                                                                                      [armadura Para escudar o cérebro brilhante e confundir os inquisidores, E uma dor viúva manchada de lágrimas caídas das pestanas Para dissimular a beladona e fazer com que os olhos secos percebam Que...

Vozes anoitecidas, de Mia Couto

Imagem
Por Pedro Fernandes Primeira edição de Vozes anoitecidas  publicada em Moçambique e primeira edição publicada no Brasil. Esta uma coletânea em que, pela primeira vez, o escritor moçambicano se experimenta na prosa. Até então havia publicado apenas um livro de poesia, Raiz de orvalho , que vem a lume em 1983; do gênero só veio publicar outra antologia em 2011, Tradutor de chuvas . Os dois títulos provam uma coisa: antes de ser romancista – com os belos romances Terra sonâmbula e Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra , duas obras que digo ser a melhor já escrita pelo moçambicano – Mia Couto é poeta. Poeta e autor de narrativa curta. Mais ainda se averiguarmos as defasagens sofridas como romancista nos últimos livros que nos tem  chegado. Como a obra nesses dois gêneros ultrapassa em qualidade o romance, reafirmo, nesses dois gêneros, tem o leitor um grande mestre. E notará isso já no livro motivo dessas notas que, apesar de ser um livro de estreia ...

Contos do quarto minguante, de João Pedro Mésseder

Imagem
Por  Pedro Belo Clara   João Pedro Mésseder É bastante provável que o nome do autor em epígrafe seja desconhecido ou simplesmente cause estranheza na sua apreensão à grande maioria dos leitores que sobre estas linhas se debruçarem. No entanto, detém presença numa panóplia impressionante de títulos compostos sobre os mais diversos géneros, desde a poesia ao teatro. Se contarmos a partir do ano em que o dito autor se estreou, o de 1999, encontraremos mais de quarenta (!) títulos publicados em estilos literários bem distintos. Na verdade, João Pedro Mésseder, pseudónimo de José António Gomes, professor universitário nascido em 1957 na cidade do Porto, nem prima por ser um adepto do conto, o conteúdo do livro hoje em discussão. Além da peculiaridade de ao longo da carreira ter editado trabalhos numa óptica de nomenclatura bicéfala ou bipartida (isto é, recorrendo ao pseudónimo e ao nome de baptismo consoante o estilo dos projectos), trata-se de um autor que se disti...

Boletim Letras 360º #78

Imagem
Assinatura de Guimarães Rosa. Arquivos raros do escritor foram a leilão esta semana. Mais detalhes ao longo deste boletim. Quantas vezes você foi ao mural do Letras no Facebook essa semana? Pergunta de curioso. Mas, quem foi (ou vai com frequência) terá percebido que sempre rola uma novidade relacionada ao universo literário pelo menos duas vezes ao dia. Sim, esse universo é agitado e olha que estamos longe (muito longe de dar conta!) O que acompanhamos são  os nomes que já circulam aqui pelo blog, de um modo ou de outro (nunca perceberam?). Enfim, quem não foi tem a oportunidade de rever aquilo que foi notícia por lá, lendo este boletim editado todos os sábados por aqui. Vamos lá? Segunda-feira, 11/08 >>> Portugal: Na web , documentário sobre o poeta Mário Cesariny  Poeta, surrealista e tudo – eis um possível retrato para Mário Cesariny, o português que de forma mais plena assumiu o surrealismo: não como método ou escola, mas como forma de insurr...

A leitura “histórica” de Thomas Mann: mas além do sensacionalismo artístico

Imagem
Por Anna Maria Iglesia Num mundo fragmentado, a reconciliação tornou-se impossível, este é o mundo que Friedrich Nietzsche vislumbra e ante o qual propõe um regresso ao mito primitivo, ao mito de Dionísio, ao mito do excesso e da desmesura. Dionísio é o mito da vontade de poder, dessa mesma vontade que permite dizer sim à vida marcada pelo pessimismo, pela negatividade, uma vida constituída por um sofrimento inevitável, impossível de superar, que retorna eternamente. O mundo vislumbrado por Nietzsche é o do eterno retorno, o mundo que o homem do futuro deve aceitar tal e como é sem esperar a redenção final que a moral cristã e a razão acrítica e, inclusive, a ideia de uma ciência que visa o progresso demasiada vezes prometida e prevista. A racionalidade acrítica já não é válida, tornou-se insuficiente; converteu-se numa ferramenta invisível num mundo e numa realidade que não podem ser mudadas, pois o mundo deve ser aceito na dor e no prazer que o constituem. Dionísio ...

Quatro documentos inéditos sobre Miguel de Cervantes e uma nova mulher na vida do escritor

Imagem
O trabalho quase detetivesco de um arquivista de La Puebla de Cazalla, município da região sevilhana, lança luz sobre aspectos desconhecidos da biografia de Miguel de Cervantes. A descoberta de quatro documentos inéditos em arquivos diferentes apresenta novos dados sobre seu labor como coletor da Fazenda Real e aponta a possibilidade de que houvesse outra mulher na vida do escritor. O arquivista em questão, José Cabello, encontrou há três anos por acaso com um manuscrito de 5 de março de 1593 no qual Cervantes foi empossado neste Ajuntamento como comissário de suprimentos das Forças Armadas Real para o encargo de provedor da frota para as Índias comandada por Cristóbal de Barros. O trabalho do romancista era levantar trigo e cevada para abastecer a frota de Felipe II. “O documento é importante porque acredita que Cervantes esteve em La Puebla, algo que se desconhecia até o presente, e o relaciona pela primeira vez com Cristóbal de Barros, quem foi o armador que construiu os ...