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A questão é esta, não há outra: Gonçalo M. Tavares e a tragédia da sobrevivência

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Por Alfredo Monte “Os acontecimentos que o céu nos proporciona manifestam-se sob as mais diversas formas; e muita coisa acontece, para além de nossos temores e suposições; muita vez o que se espera, nunca sucede; e o que nos assombra, realiza-se com a ajuda dos deuses” — Eurípides, Alceste “Não se trata já de intervir no destino, esse sentido abstrato para onde antigamente                   [caminhavam as coisas (como se fosse um plano inclinadíssimo). Trata-se, sim, de algo bem mais concreto                   [e ofensivo: uma tentativa de intromissão no normal                   [funcionamento dos órgãos humanos (...) Que intervenham no vago destino mas não        ...

Orpheu ou 100 anos de um ano que não acabou

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Fernando Pessoa e o segundo número de Orpheu , por Almada Negreiros (detalhe). “Se existisse qualquer instinto do sensato em moderna literatura, eu começaria pela paisagem e terminaria pelo Orpheu . Mas, graças a Deus, não há nenhum instinto do sensato em moderna literatura, por isso deixo de parte a paisagem e começo e termino pelo Orpheu .” – Álvaro de Campos A revista surgida com o afã de ser uma publicação trimestral sobre literatura não nasceu ao acaso. Ela é produto de outros movimentos que já rondavam o circuito literário português ou é a conjunção de uma quantidade variável de fatores que culminaram na sua criação. Talvez esteja aqui, sem quaisquer misticismos, a raiz de sua eternidade. Além disso, Orpheu  significou um ponto fora da linha comum que dominava Portugal. Antes, em 1910, por exemplo, havia sido publicada outra revista com mesmo afã, A Águia , mas com ambição maior: ser um mensário. Sim, numa época que não deve, de maneira alguma ser confundida com a ...

O estado do bosque – José Tolentino Mendonça (Parte I)

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Por Pedro Belo Clara Numa das primeiras ocasiões em que abordámos aqui o autor em epígrafe, trouxemos à discussão um trabalho deveras original no cada vez mais extenso rol de obras que tem vindo a publicar. Tratava-se de um livro de haikus , género onde Tolentino jamais se aventurara. O trabalho que hoje apresentamos retoma essa linha de novidade. Pelo menos, em parte. Editado em Janeiro de 2013, reproduz uma peça de teatro composta no âmbito de um projecto proposto pelo Teatro Oficina, de Guimarães. Nem que seja meramente pelo intuito de satisfazer a curiosidade, justificar-se-á a análise dum trabalho exposto num género que, apesar de não estar totalmente inexplorado pelo autor, rareia dentre os projectos que até agora assinou. Falar em Tolentino é, desde logo, referir a sua poesia, estilo onde se revela num maior número de ocasiões. Embora o ensaio e a elaboração de artigos diversos assumam um lugar igualmente meritório. O teatro, contudo, escasseia. Por i...

Boletim Letras 360º #109

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No Boletim da semana anterior dissemos todas as movimentações que faríamos por ocasião do Dia Nacional da Poesia. E hoje só gostaríamos de dizer que tudo valeu a pena. Os leitores estiveram atentos e fizemos um dia intenso com muita poesia. Enquanto lá fora muita gente estava em polvorosa distribuindo ódio, nós estávamos revolucionando corações pela leitura de poesia. O resultado foi este álbum lindíssimo  com 24 poemas de 24 poetas nacionais e estrangeiros enviados pelos 24 primeiros leitores e publicado cada um de hora em hora numa verdadeira maratona. Aguardamos a visita para levar adiante esses poemas. E, depois de tudo, vamos ler o que foi notícia durante a semana no blog.  Um poema inédito de Machado de Assis. Saiba sobre essa descoberta, assim, ao acaso na web. Segunda-feira, 16/03 >>> Brasil: Descoberto poema inédito de Machado de Assis O achado é de Wilton Marques, professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) que estuda a infl...

Cinco coisas que você precisa saber sobre Cem anos de solidão

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Por Julio Ortega Gabriel García Márquez na clássica foto em que exibe a primeira edição de Cem anos de solidão As origens Gabriel García Márquez teve a ideia do romance quando sua mãe lhe pediu para acompanhá-la a Aracataca, o povoado onde nasceu, para visitar a casa de sua infância e vendê-la. Passaram-se 40 anos e várias versões até que um dia, quando ia com Mercedes, sua companheira, e os dois filhos de férias para Acapulco, veio-lhe o ponta pé ou chave que há muito havia buscado em vão. No retorno para casa, na Cidade do México, sentou-se ante a máquina de escrever e só saiu daí dezoito meses depois quando colocou um ponto final na primeira versão do texto. O título Há uma música afro-americana chamada One hundred years of solitude , um lamento de escravos do Sul. E há um curta-metragem mudo em que um solado da Guerra Civil, frente ao pelotão de fuzilamento, recorda sua vida fugaz. Mas, em Cem anos de solidão se trata da “sol-edad”, a era solar. A saga gue...

Sobre Corpo de festim, de Alexandre Guarnieri

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Por Pedro Fernandes toda a vida contida numa exígua partícula, – desdobrável de si própria –, equilibrada sobre a mesma progressão desenfreada; deuses ferveram-na numa caldeira aquecida ante o clarão do big bang / cozeram-na por milênios, lenta, nas tripas da mais velha estrela / e lá, aprisionada, como o maior espetáculo da via láctea, além do limbo centígrado dos organismos bioquímicos, replicou-se a enzima de sua fina ( e elástica ) matematicidade // até que [...] Alexandre Guarnieri escreveu Corpo de festim , livro que integra o lento e sofisticado processo de lapidação poética porque passa todo poeta comprometido com a palavra. Sim, porque sempre existiu, mas tem ganhado forma com cada mais cinismo, o poeta criador de formas falsamente manipuláveis e, logo, facilmente quebráveis ao dinamismo do tempo. Não é porque o material verbal que o poeta utiliza é estranho ao universo acusado tantas vezes de pertencer às formas frágeis. Não. É o trabalho in...