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Juan Rulfo, fotógrafo

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Juan Rulfo reconhecia que viver era seu único ofício. Sua personalidade melancólica com sombras de nostalgia se formou quando ainda era um menino e a morte alcançou seus pais. Este halo de solidão cobriria sua obra literária e lhe permitiria ser, além disso, um criador de imagens. Certa vez Rulfo escreveu que “em todos que gostam muito de ler, de tanto estar sentados lhe dá preguiça de fazer outra coisa”. Ele gostava muito de ler; mas lhe apetecia a história, a música da Orquestra Sinfônica Nacional e a fotografia. E, diferentemente dos preguiçosos e leitores vorazes, desenvolveu uma vasta obra fotográfica em desacerto com o trabalho literário. Quer dizer, um desacerto apenas em parte; a sensibilidade nata que possuía e que deu forma a obras como Pedro Páramo e alimentou o seu gosto pelas artes, além da música clássica e a pintura, teria um impacto maior na expressão fotográfica. Através dela deixou um testemunho da desolação que cobria sua visão da realidade e um registr...

Baudelaire, um obcecado pela revisão

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Detalhe da folha de rosto de uma das provas de As flores do mal . Personagem de distraída modéstia, Charles Baudelaire sabia ser chamado à glória. “Rejeito tudo, o espírito de invenção e inclusive o conhecimento da língua francesa. Rio desses imbecis e sei que este volume, com suas qualidades e seus defeitos, encontrará um lugar na memória do público letrado, ao lado das melhores poesias de Victor Hugo, Théophile Gautier e talvez Byron”, escreveu para sua mãe em julho de 1857, depois de publicar As flores do mal , a antologia poética que revolucionaria as letras francesas.  Se essa história é mais ou menos conhecida de todos, outra também não deixa de ser muito famosa: o poeta francês sempre soube que, antes de se inscrever na posteridade, devia construir uma obra sólida e irreparável. Por isso, passou quase uma década corrigindo suas provas para impressão, reescrevendo uma e outra vez seus 150 poemas com uma persistência quase patológica, a em que todo autêntico perf...

Boletim Letras 360º #164

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Estas foram as notícias sobre o universo de interesse do blog que circularam durante esta semana na página do Letras in.verso e re.verso no Facebook (você já nos segue?) Viva, mais um First Folio foi encontrado! Mais detalhes sobre essa descoberta o longo deste boletim. Segunda-feira, 04/04 >>> Suécia: Morreu Lars Gustafsson Escritor, poeta, editor,filósofo, professor, tradutor e um grande dramaturgo; o sueco Lars Gustafsson, que chegou a ser um dos favoritos ao prêmio Nobel de Literatura, nasceu em Västerås em 1936. Publicou seu primeiro romance aos vinte e um anos. Foi durante a década de 1970 um dos mais ferozes críticos ao pensamento socialista de seu país. Viveu e trabalhou em Alemanha e Estados Unidos, durante o período em que se dedicou à carreira acadêmica, isso logo quando defendeu seu doutorado em 1978. Reconhecido internacionalmente recebeu prêmios como o John Simon Guggenheim Memorial Foundation Fellowship de poesia (1994), a Medalha Goethe (20...

As lições de O sol é para todos

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Por Guillermo Altares cena do filme adaptação da obra de Harper Lee, O sol é para todos . Raríssimos escritores passaram para a história da literatura com um só romance. E menos ainda por um só personagem. Harper Lee, a romancista estadunidense, é um caso insólito: publicou um só livro com o qual ganhou o Prêmio Pulitzer,  O sol é para todos . O romance protagonizado por advogado do interior do sul dos Estados Unidos, Atticus Finch, representa os melhores valores da humanidade. Atticus não é uma personagem de papel, nem um arquétipo, é um ser de carne e osso, um viúvo que toma a frente de uma família e ao mesmo tempo lida com a profunda injustiça de segregação racial do Velho Sul. O sol é para todos foi publicado em 1960 e levado ao cinema no ano seguinte por Robert Mulligan com Gregory Peck como protagonista. É narrado em primeira pessoa, pela filha de Atticus, Scout, e relata um episódio de sua infância. Por um lado, é um livro em que algumas crianças des...

O fim de tudo, de Luiz Vilela

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Por Pedro Fernandes Desde Machado de Assis, é possível distinguir entre os escritores brasileiros, uma vertente do conto só encontrada por aqui. É que em grande parte a narrativa curta se distanciou do elemento poético ou das situações reflexivas comuns em outras literaturas e aproximou-se do trivial e corriqueiro. Isto é, nossa contística afeiçoou-se mais à crônica e figura não como uma narrativa enquadrada numa moldura, um recorte fotográfico, para voltar às relações descritas por Julio Cortázar, mas como um fotograma – o recorte também de molde da fotografia, mas interessado em não desprezar o movimento contínuo que se nota, por exemplo, na novela ou no romance. É claro que, determinadas maneiras clássicas de assunção da narrativa curta, tem raízes profundas entre nós, sobretudo, se olharmos a partir dos exercícios construídos por uma Clarice Lispector; mas, mesmo a escritora de Laços de família , se isolarmos a diversa quantidade de simbologias, propositalmente umas – ou...

Viver, beber e escrever

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Por Ulises Culebro O poeta John Berryman seguia uma estrita dieta constituída de um litro diário de uísque enquanto escrevia na década de 1960 seus poemas de The dream songs . Em seus anos em Cuba, Hemingway chegava a beber 16 daiquiris numa sentada, um recorde só superado pelos 18 uísques que parecem ter levado à tumba Dylan Thomas. Some-se (ou melhor, subtraia-se) os licores em questão nalgumas dessas ocasiões e as longas conversas que também as acompanham e só assim terão uma ideia aproximada das proezas desses titãs da bebida. Em Viagem ao redor da garrafa , Olivia Laing se dedicou a seguir o rastro de seis dos muitos escritores estadunidenses marcados pela bebida; dos oito prêmios Nobel de Literatura (homens) que teve os Estados Unidos, cinco eram alcoólatras. Ajudada pelos lugares onde viveram e beberam John Cheever, F. Scott Fitzgerald, Hemingway, Raymond Carver, Tennessee Williams e John Berryman, a autora traça um mapa topográfico do alcoolismo na literatura...