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No teatro de Arthur Miller, as mulheres em segundo plano

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Por Lourdes Ventura Cena de uma das adaptações de As bruxas de Salém para o teatro. Aqui, em 2003, pelo grupo CCM. Em certos dramas de Arthur Miller as mulheres parecem destinadas a gravitar como satélites ao redor dos protagonistas masculinos, heróis fracassados que carregam o peso do mundo. Se a família é o núcleo centro para evocar as pressões sociais sobre os indivíduos, a figura da esposa-ama da casa contribui para a projeção de uma sombra, um sujeito em segundo plano. O professor Jeffrey Mason considera que nas obras iniciais de Miller os papéis femininos pertencem a dois estereótipos: o da esposa e o amante. As primeiras são complacentes e sacrificadas e as segundas tentadoras e sensuais; em ambos casos, com personalidades passivas, sem individualidade própria e só definidas em relação com os homens. Martin Gottfried chega a dizer que “as obras de Miller são essencialmente histórias de homens”, mas um olhar mais atento sobre Linda Loman, a mulher-esposa em A morte...

Boletim Letras 360º #183

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Reedição da obra de Vater Hugo Mãe no Brasil sai já com dois títulos. Mais informações ao longo deste Boletim. Aqui estão as notícias que fizeram mais uma semana no Facebook do Letras; o boletim vem com a novidade de que, em breve soltaremos a promoção dos 40 mil amigos! Sim, somos uma cidade literária no Facebook! Segunda-feira, 15/08 >>> Brasil: Novos livros de Wislawa Szymborska ganham tradução por aqui até 2017 Dia desses anunciamos a publicação pela Companhia das Letras de um novo livro de poemas da poeta ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura em 1996. Muito antes divulgamos a chegada ao mercado editorial brasileiro de uma nova editora: a Âyiné. Agora, juntem as duas notícias. Isso mesmo! Um nome que só passou a circular no país com mais frequência a partir de 2011 terá mais dois motivos para ser sempre lembrado: a Âyiné trará em 2017 um volume com a crítica literária e outro com as colagens (acompanhadas de breves poemas) de Szymborska. >>> Brasi...

A guerra não tem rosto de mulher, de Svetlana Aleksiévitch

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Por Pedro Fernandes Há uma vasta literatura sobre a guerra. No amplo sentido do termo literário – tudo aquilo que está escrito – e no sentido mais específico, o de uma produção imaginativa, desprezando por esse conceito todo e qualquer ruído que o confunda com algo inferior ao documentado pela história, por exemplo. É melhor sempre ficar no limiar entre o que chamam de verdade oficial e o que chamam, por oposição a esses termos, de ficção. Não é possível acreditar que haja entre uma e outra algo que as coloque em relação oposta, quando se sabe que o historicizado é também ficcionado e vice-versa. Há entre uma e outra forma uma condição de interdependência fundamental para sua realização. É contra essa ferrenha oposição que parece lutar a literatura de Svetlana Aleksiévitch, jornalista russa que recebeu em 2015 o Prêmio Nobel de Literatura por obras como A guerra não tem rosto de mulher ; no Brasil, a homenagem da Academia Sueca serviu ao menos para tirá-la do ano...

O amigo que não pôde salvar Federico García Lorca

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Por Sergio del Molino Federico García Lorca. Um dos últimos registros fotográficos do poeta. "Quando eu morrer, / com minha guitarra enterrai-me, / sob a areia”. São versos de “Lamento da morte”, um poema que foi musicado por Carlos Morla Lynch. Durante os anos da República, Lorca o cantou ao piano em muitas madrugadas no enorme apartamento de Morla da rua Alfonso XII de Madri, que sempre a cada noite, depois do jantar, enchia-se de poetas, intelectuais e gente local que encontram em seus sofás e em seu bar móvel um refúgio aristocrático.  Federico García Lorca era a alma daquelas reuniões literárias, o menino engraçado que sabia cortar as discussões políticas com uma gargalhada e começar arrancar notas do piano quando alguém bocejava. Há muito na vida breve de Lorca que tem um ar premonitório. Esse gosto por tragédia que o converteu em tragédia própria é um. Há versos sobrenaturais, como estes de “Lamento da morte”, que já contém em si uma inquietude. Ma...

O olhar diferente de Herta Müller

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Por Claudia Kalász Estes dois livros são aqueles que consagraram Herta Müller como uma das mais poderosas escritoras da jovem literatura romena em língua alemã. Desde que a autora, em 1987, se refugiou na Alemanha como dissidente do regime de Nicolau Ceaucescu, o mapa político da Europa mudou radicalmente. Os dois livros são um privilégio para os leitores porque os levam a conhecer alguns relatos inscritos na atmosfera anódina de uma ditadura que, ainda bem, já não existe; são textos que podem refrescar nossa memória, mas pode também manifestar – desde longe – as técnicas de intensificação das quais dispõem esta autora para converter experiências pessoais em literatura, isto é, em experiências que nunca se tornam ultrapassadas. Toda a maestria de sua linguagem densa e precisa se encontra já nessas primeiras criações de uma obra coerente que ao longo dos anos foi ampliando-se, a um ritmo pausado mas constante, com romances, ensaios e poemas, premiados com múltiplos prêmios. ...

A última lua de Federico García Lorca

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Mito Por Agustín Sánchez Vidal Lorca foi uma lenda em vida. Sua obra só é um pálido reflexo da aura que irradiava a personagem. Ele próprio tinha um forte sentido do mito, um certeiro instinto para nomeá-lo. E são essas raízes primitivas as que o fazem tão universal. Buñuel e Dalí, que censuravam suas “tendências”, não mediram esse quadro que subjaz sob o fulgor das metáforas, nem a passagem para a modernidade inaugurada pelo ciclo nova-iorquino. O assassinato foi responsável por encerrar o cerco de sua memória entre os mais velhos como Antonio Machado, seus companheiros da geração de 1927 ou a sucessores como Miguel Hernández, quem tinha na cela onde morreu um exemplar do Romanceiro cigano . O mito não deixou de crescer. Quando o presidente Eisenhower visitou a Espanha em dezembro de 1959, em sua conversa com Franco colocou o nome de Lorca sobre a mesa. Informou-lhe do manifesto publicado por intelectuais estadunidenses acusando-o de ter a mão...