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Flash de sangue engolfada pela boca

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Por  Lucas Miyazaki Brancucci E penso que há blocos sonoros e táteis onde essas criaturas-eventos ocorrem. Ali era o escuro da sala de cinema vasta pela sua solidão p&b. A música que fazem ecoar lá dentro me desloca para aqueles movimentos sonhados, a abertura de camadas sedimentadas pelos discursos dominantes, esfacelando-se, correndo pelo rio a paisagem interior; aqui eu te conheço, Manaus: brota-se um mundo, habita-o na língua alheia – o botânico alemão, o xamã caxinauá, os padres espanhóis, os portugueses com suas manias excessivas. O mundo é uma fera indizível, se diz numa canção. Nada; nem as mensagens piscando nos bolsos, ou as ligações perdidas de alguma urgência inútil e familiar, e-mail de noticiário catastrófico ou demissões, me tiram das imagens que estão rodando, sempre. Entre o filme e nossos silêncios me intriguei com o corpo na outra extremidade da mesma fileira. Traços que se recortavam líquidos, com o lançar imprevisível das luzes da tela....

Boletim Letras 360º #184

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Mais alguns papéis digitalizados e já teremos online boa parte do arquivo de Gabriel García Márquez; esta semana novidades sobre o intenso andamento desse trabalho foram divulgadas, claro, com alguma amostra do já-feito. Aqui, copiamos todas as notícias relacionadas ao núcleo de interesse do blog, que estiveram ao nosso alcance e foram postadas em nossa página no Facebook. Em breve iremos divulgar nossa promoção - há muito prometida. Aguardem só mais um pouco. É que iremos aproveitar as ocasiões de coisas boas que pensamos já para o aniversário de 10 anos do Letras e gostaríamos de inserir essa big  promoção. Segunda-feira, 22/08 >>> Brasil: Livro-referência de Eduardo Lourenço ganha edição no Brasil Em meados de 2016, publicamos por aqui que a editora portuguesa Tinta-da-China, com sede no Brasil, passaria a editar uma coleção com autores de Portugal há muito conhecidos no nosso país mas pouco ou já não editados. Os três primeiros títulos vieram a lume:...

O desvelar da existência em Beleza americana

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Beleza americana me faz pensar nas obras de Clarice Lispector que terminam com a morte da personagem central em seu momento de maior graça existencial. Tal momento é como que o desvelar de uma verdade absoluta a qual revela ao ser que a tem o caminho para uma vida mais autêntica. Lester, personagem central do universo dirigido por Sam Mendes, passou a vida preso a um padrão familiar e por isso se revela como a prova viva de que o modelo de família tradicional é falho quando se torna algo sem sentido, mantido apenas para causar sentimento de pertencimento ao ciclo social tido como normal. Quando isso ocorre, há a negação de que outros modelos familiares podem, também, ser fonte de felicidade, como se houvesse um código – e na verdade muitos de nós pensam que ele exista de verdade – que impeça que haja amor além das fronteiras impostas por nossa linguagem. Lester e sua esposa, porém, estão ocupados demais com sua própria tragédia para tentar anulas outras formas de felicidade,...

A definição do amor, de Jorge Reis-Sá

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Por Pedro Fernandes Jorge Reis-Sá visita um tema que não é novo na literatura (aliás qual é esse, se, desde sempre, a literatura é variação dos mesmos tons). O tema em questão é o da ausência do outro que se ama. Da literatura portuguesa recente é possível citar de passagem pelo menos três romances que reconstroem, cada um à sua maneira, sobre: António Lobo Antunes fez reiteradas vezes e com maestria em obras como Sôbolos rios que vão , José Luís Peixoto fez em Morreste-me , e Inês Pedrosa, em Fazes-me falta . Das três, a última parece ser a que mais se aproxima A definição do amor . Fazes-me falta é construído como um jogo entre dois narradores – um ponto de vista masculino e outro feminino – que se conversam pela ausência, visto que ela está morta, sobre um amor possivelmente nunca realizado. No romance de Jorge Reis-Sá, o ponto de vista é só o do homem que, às voltas com a mulher num leito de hospital condenada à morte, reflete sobre a ausência dela na sua vida e a...

Dois anos, oito meses e 28 noites, de Salman Rushdie

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Por Luisgé Martín Salman Rushdie foi marcado há anos com um destino que obscureceu publicamente sua grandeza literária; suas últimas obras, depois disso, não voltaram nunca à mesma altura de Os versos satânicos e, também, Os filhos da meia-noite . De modo que o escritor tem se convertido mais num mártir ou numa personagem icônica e não num escritor respeitado. Este novo livro poderia ajudar a corrigir esse desvio de caminho, o que faria Salman Rushdie um dos maiores nomes vivos da literatura de nosso tempo. Dois anos, oito meses e 28 noites são exatamente mil e uma noites; esse é o modelo que, com um olhar irônico, ele emprega na construção desse livro: um romance cheio de histórias triviais, marcadas pela fantasia delirante, e de indignação imaginativa sobre a natureza humana. Salman Rushdie quis ser a Sherazade de nosso século, mas o empenho não parece ser grande o suficiente. Isso, não serve em nada para desmerecer a riqueza da obra ora publicada. ...

A prosa de Ana Cristina Cesar

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Toda vez que um leitor encontra a poesia de Ana Cristina Cesar reunida na primorosa edição que, no mesmo rastro do livro com a obra poética de Paulo Leminski galga espaços em estantes diversas Brasil afora, é de saltar a busca pela resposta sobre como seria ter entre nós em atividade uma poeta cujo talento se revela ainda na criatividade de quando criança e se aperfeiçoa naquele tempo em que para muitos não é mais que o de experimentação – afinal, mesmo que não haja um tempo para a poesia, é verdade que a maturidade é, sem dúvidas, quando podem os deuses soprar o seu melhor ao poeta. A título de curiosidade, sobretudo para aqueles que não têm a edição de Poética , Ana C., como gostava de ser chamada, e nome pelo qual podemos identificar como o de sua persona poética , publicou pela primeira vez quando tinha só sete anos no jornal Tribuna da imprensa ; e amigos íntimos da poeta, como o também poeta Armando Freitas Filho, lembra reiteradas vezes que muito nova ditava coisas para qu...