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Em teu ventre, de José Luís Peixoto

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Por Pedro Fernandes Em teu ventre , de José Luís Peixoto é um romance que pertence à categoria dos enganos produzida pela publicidade. A edição portuguesa afirma que esta é uma obra que “retrata um dos episódios mais marcantes do século XX português: as aparições de Nossa Senhora a três crianças, entre maio e outubro de 1917” e acrescenta que “este livro propõe uma reflexão acerca de Portugal, naquilo que tem de mais subtil e profundo”. Esta sinopse se complica ainda mais quando o livro chega ao Brasil com uma capa que muito aquém daquela imagem poética da edição original exibe a imagem do registo historiográfico, isto é, a fotografia das crianças de Fátima.  Mas deixando de fora os jogos editoriais de promoção da obra, que não é este o interesse deste texto e sim a inquietação de um espírito que guarda certo carinho e zelo pelo trabalho dos escritores, guarde o leitor mais exigente uma recomendação: abstrair-se disso tudo o levará a uma descoberta fabulosa. Sim, ...

Medeia, de Pier Paolo Pasolini

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Por Pedro Fernandes A obra cinematográfica de Pier Paolo Pasolini é, sem dúvidas, uma dentre as mais ricas de sempre. Ancorada entre o imaginário cultural universal e literário, suas releituras acrescentaram e muito na composição interpretativa e significativa das obras com as quais buscou diálogo. Uma delas, a tragédia de Eurípides, Medeia , que bem mais tarde ganhou outra poderosa versão para o cinema ao ser encenada por Lars Von Trier – em 1988; a de Pasolini é de 1969. Encenada pela primeira vez em 431 a. C., num concurso teatral em Atenas, a peça, pelas mãos do italiano, ganha outros contornos que ampliam sentidos e possibilidades simbólicas, além é claro, de introduzir na composição imagética, um rosto muito próprio para uma figura de rara força e vigor dentre as criações dramáticas. Nesse caso específico a narrativa adquire os contornos que se ausentam da peça: a vida anterior de Medeia, antes de chegar a Corinto com Jasão e receber as ordens de Creon de exílio...

Os sofrimentos da jovem Lotte

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Por Isabel Bellido O pintor alemão Wilhelm Amberg retratou em Vorlesung aus Goethes Werther (1870) [imagem: detalhe], um de seus quadros mais conhecidos e belos, cinco moças lendo Os sofrimentos do jovem Werther , de Goethe, tranquilamente sentadas em meio de frondoso bosque através do qual pode atravessar apenas uma nesga da luz do sol. Uma delas lê em voz alta enquanto as outras escutam atentas as altas exclamações de Werther – a de vestido púrpura segura um lenço úmido de lágrimas; outra tem o olhar distante preso num vórtice de pensamento; por seus gestos, seguramente se aproximavam das últimas páginas do romance, justamente quando a tragédia alcança o summum . Com fez Marta Sanz em seu romance Susana e os velhos (2006), quando vi o quadro me apeteceu aproximar-me delas para conversar; libertá-las – ainda que no fundo me comovam – dessas poses afetadas e austenianas, da contenção da mão sobre o peito, dos lábios angustiados, da cabeça pensativa que cai sobre o ombro ...

Mães de tinta e papel: onze livros

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Arshile Gorki. Dizem que todas as mães são iguais, só mudam de endereço. Mas, bem sabemos que, quando o assunto é livro, é muito redutor permanecer entregue a essa certeza. Como também dizer quais são os recomendados para elas é outra redução. Tal como a querela sobre os livros infanto-juvenis, não somos ingênuos de apostar que existam grupos assim tão segmentados, entre eles, o de mães que só leem determinadas obras. Os mistérios que envolvem o gosto estão longe de ser aclarados. Por isso, esta lista agora apresentada gostaria de ser uma lista de livros para o Dia das Mães, mas não ser uma lista de livros para mães. Em parte, são livros que trazem algumas das personagens mães que já se assumem como figuras icônicas no universo literário, noutra parte atentam por investigar a complexa relação entre elas e filhos ou sobre esse sentimento que só elas podem sentir, o que é ser mãe, ou como se porta esse amor materno, tantas vezes sempre definido como desmedido e logo capaz de q...

Cara a cara com Juan Rulfo

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Por Juan Villoro “Estou sentado junto ao esgoto esperando que as rãs saiam”, assim começa o primeiro conto de Chão em chamas (1953), de Juan Rulfo. De maneira simbólica, um virtuoso do estilo se serviu de uma voz incerta para esse primeiro conto. Um rapaz com uma deficiência metal olha o mundo com inocente surpresa. Macario, o protagonista, bebe leite de uma mulher e ela lhe assegura que isso o converteria num demônio. Nos sons da natureza, ele busca uma chave para os enigmas do bem e do mal; decide que, quando os grilos se calam, fogem as almas. Essa profecia antecipa o romance Pedro Páramo (1955), onde todas as personagens estão mortas. “Na madrugada”, outro conto de Chão em chamas , anuncia isso: num lugar onde os despossuídos não intervêm nas situações, as notícias saem das tumbas: “Vozes de mulheres cantavam no semissono da noite: ‘Saiam, saiam, saiam, animas de penas’ com voz de falsete”. A ronda dos fantasmas rulfianos não deixou de acontecer. Sua longa sombra...

Boletim Letras 360º #220

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Duas novidades aos leitores sempre atentos ao Letras: (1) em poucos dias iremos disponibilizar o sorteio do exemplar de Contos reunidos , de Dostoiévski. Esta promoção é exclusiva para os leitores que estão reunidos no Grupo do Letras no Facebook . E a promoção depois desta (todas no âmbito das celebrações dos 10 anos do blog) será um kit com os quatro livros da série napolitana, da Elena Ferrante (Globo Livros / Biblioteca Azul). Então, a recomendação: esperar, que vem coisa boa! Enquanto isso, a seguir estão as notícias publicadas em mais uma semana de atividades em nossa página no Facebook. Ernest Hemingway: dois conjuntos de cartas revelam outras facetas do escritor. Mais detalhes ao longo deste Boletim. Segunda-feira, 01/05 >>> Portugal: Mais próximos de um Mário de Sá-Carneiro total? Chegou às livrarias Poesia completa , uma edição crítica de Ricardo Vasconcelos pela editora Tinta-da-China O livro surge dois anos depois de ter sido publicada um...